NENECO: MILAGRE DO FUTEBOL
Publicado em 25 de março de 2025
Por Jornal Do Dia Se
Thiago Fragata*
“Preciso pagar minha promessa, a procissão do Senhor dos Passos é próximo sábado!” Desabafou José Eleotério, popular Neneco, parado a porta do quintal, observando as galinhas ciscando. Por um tempo ficou ali na manhã ensolarada da segunda-feira com um misto de culpa alfinetando a consciência como se esta fosse um boneco de vodu. Concluiu que a derrota do Juventus, no campeonato, – incluindo aquela bola que não entrou -, teria sido obra do santo. O mesmo que curou a perna “bichada” e por desagravo cobrava a dívida, seu merecido ex-voto!
Fazia três anos da graça alcançada. Ali, imóvel, rememorava tudo: a contusão numa pelada domingueira, as dores intensas, o desengano dos médicos e, por último, o pedido diante da imagem no Convento do Carmo, em São Cristóvão/SE. Não sabia fazer outra coisa não fosse jogar futebol. E, se todos aqueles ex-votos representavam os milagres realizados pelo Senhor dos Passos, conforme disseram, rogou fosse atendida a súplica; deixou o templo prometendo uma perna esculpida na madeira.
Ano passado a perna havia saído do estado crítico, os médicos ficaram surpresos com os progressos. Por displicência, irresponsabilidade mesmo, deixou passar o evento religioso em brancas nuvens, como se nada devesse. Não esboçou nenhuma culpa, apostava que o milagre não poderia ser desfeito nem por vindita do taumaturgo.
A grande romaria se aproximava. Nova oportunidade de saldar o débito com o Senhor dos Passos e aliviar a consciência pois se o corpo estava sanado a culpa perturbava-lhe o juízo. Fato: não tinha dinheiro para procurar um escultor talentoso como Nivaldo Oliveira, o mais requisitado quando o assunto era ex-voto em madeira. Seus trabalhos artísticos de caráter votivo, a exemplo da perna esculpida para um médico famoso aracajuano, pareciam ganhar movimento tamanha a perfeição alcançada. Outro dia um guia turístico que fica na Praça São Francisco jurou ter visto a tal perna andar!
Neneco pestanejou dias em busca de solução. Exclamou amargurado “o que fazer meu Deus, não sou artista nem tenho dinheiro?” Recolheu-se perturbado ao final de cada dia que o arrastaria a cidade histórica, no fim de semana.
Chegou então a manhã do sábado, o grande dia. Estava ali, na porta do quintal a observar as galinhas cavucando terra. Daquele ponto, imóvel, chegou a rememorar que nada avançara desde o início da semana, era como se não tivesse arredado pé. Estava empacado como empacado ficou sua vida desde a benção do santo, tudo porque conta da pendencia, um agradecimento formalizado com ex-voto. Ao cair da noite, olhando o cercado do galinheiro, vislumbrou uma possibilidade. Tirou a mais robusta estaca do cercado. Calçou, atou o cadarço. Pronto, criara com desespero, arte e insight a sua perna com um detalhe: a chuteira. Não havia melhor marca da sua identidade que o pisante, resumiu. Se ofertou ao santo aquele ex-voto? Sim. Se agradou ao santo? Não é possível afirmar nada ainda, mas Neneco marcou um belo gol na última partida.
* Historiador, escritor, multiartista. Conto integra o livro inédito CRONICÁRIO DAS MEMÓRIAS E-mail: thiagofragata@gmail.com