Meio Clarice

Rian Santos


  • Existencialismo burguês

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
A vida não cabe entre 
quatro paredes. 
Mesmo com todos os recursos, a facilidade de trabalhar e dizer "eu te amo" pela internet, a vida jamais se conformará com a extensão pouca dos ambientes privados - do quarto para a sala, cozinha, quintal, jardim.
Falta espaço dentro de casa. Mais das vezes, também falta gente. Dona Eliene quer o abraço da neta. Joãozinho se masturba feito um desesperado, seis, sete vezes por dia. Geisa, na flor dos anos, bebe igual a uma cantora de cabaré.
A receita dos influencers de plantão no Instagram não dão conta do confinamento prolongado. Um belo dia, a menina sai à varanda, a fim de sentir o sol ardendo na pele, quase nua. No outro, quando o céu está nublado, arrisca uma receita de pão. A bagunça na pia denuncia o tanto de tédio. Em verdade, a fulana nunca quis saber do fogão.
Segundo Leandro Karnal, a luta de classes não arrefeceu por força da pandemia. Bem ao contrário. O historiador observa, em artigo, coberto de razão, aliás, que os mais abonados apenas se aborrecem com a quarentena, enquanto as verdadeiras vítimas do Covid-19 passam fome, privadas de trabalho e renda. Verdade verdadeira. Não há o que tirar nem por, em tal conclusão. Mas, cá pra nós, cada um sabe onde o calo lhe aperta. O sujeito honesto fala apenas por si mesmo.
Eu, por exemplo, levantei da cama, hoje, sem um pingo de vontade, feito um sexagenário melancólico, apesar de todos os privilégios. Acordei meio Clarice, com o espírito inclinado para o tango ou para um blues. A minha paciência para o existencialismo de inflexão burguesa findou aos quinze anos, ao terminar de ler 'A paixão segundo G H'. Quando penso na literatura rala de suas crias, volumes com demasiadas palavras, fraco impulso de vida, então... Nada a ver com a realidade a minha volta. E, no entanto, aqui estou, com pena de mim mesmo, confesso, em plena pandemia.

Rian Santos

A vida não cabe entre  quatro paredes.  Mesmo com todos os recursos, a facilidade de trabalhar e dizer "eu te amo" pela internet, a vida jamais se conformará com a extensão pouca dos ambientes privados - do quarto para a sala, cozinha, quintal, jardim.
Falta espaço dentro de casa. Mais das vezes, também falta gente. Dona Eliene quer o abraço da neta. Joãozinho se masturba feito um desesperado, seis, sete vezes por dia. Geisa, na flor dos anos, bebe igual a uma cantora de cabaré.
A receita dos influencers de plantão no Instagram não dão conta do confinamento prolongado. Um belo dia, a menina sai à varanda, a fim de sentir o sol ardendo na pele, quase nua. No outro, quando o céu está nublado, arrisca uma receita de pão. A bagunça na pia denuncia o tanto de tédio. Em verdade, a fulana nunca quis saber do fogão.
Segundo Leandro Karnal, a luta de classes não arrefeceu por força da pandemia. Bem ao contrário. O historiador observa, em artigo, coberto de razão, aliás, que os mais abonados apenas se aborrecem com a quarentena, enquanto as verdadeiras vítimas do Covid-19 passam fome, privadas de trabalho e renda. Verdade verdadeira. Não há o que tirar nem por, em tal conclusão. Mas, cá pra nós, cada um sabe onde o calo lhe aperta. O sujeito honesto fala apenas por si mesmo.
Eu, por exemplo, levantei da cama, hoje, sem um pingo de vontade, feito um sexagenário melancólico, apesar de todos os privilégios. Acordei meio Clarice, com o espírito inclinado para o tango ou para um blues. A minha paciência para o existencialismo de inflexão burguesa findou aos quinze anos, ao terminar de ler 'A paixão segundo G H'. Quando penso na literatura rala de suas crias, volumes com demasiadas palavras, fraco impulso de vida, então... Nada a ver com a realidade a minha volta. E, no entanto, aqui estou, com pena de mim mesmo, confesso, em plena pandemia.

 


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