Os inocentes da Cinelândia

Rian Santos


  • Quarentena à beira mar

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Eu mesmo, com meus 
próprios olhos, não 
os vi. Soube deles pelos amigos. Todo domingo, quem passa de carro pode surpreendê-los aos pares, em grupos de três ou quatro, ao sabor do vento, livres, leves e soltos,os inocentes da Cinelândia.
Inocentes, sim. Vão à orla, ao fim da tarde, quando o sol começa a cair, sorriso no rosto, em bandos, como nas propagandas de refrigerantes. Segundo me contam, o seu semblante é plácido como uma paisagem campestre. Os inocentes são figuras borradas, num quadro de tom ameno. Permanecem alheios ao entorno, como se a matéria inteira do mundo estivesse diluída em tinta de aquarela.
Os inocentes da Cinelândia já foram denunciados pelos versos de Carlos Drummond de Andrade, sempre atento ao sentimento do mundo, enquanto derramavam óleo de bronzear sobre as costas. Se antes não percebiam os navios que rompiam o horizonte, em pleno Leblon, agora não apenas tapam os ouvidos para os apitos de toda a urgência, satisfeitos consigo mesmos, desfilam orgulhosos da própria ignorância.
Os inocentes da Cinelândia não querem saber dos mortos pelo coronavírus. São jovens, sentem-se firmes e fortes. Não se deixam impressionar pelo alarme dos números, os protestos publicados em letra de imprensa. Plenos de si mesmos, apesar de entediados como domingo sem fim da quarentena, os inocentes aproveitam as férias.
Os inocentes da Cinelândia não são criminosos, como lhes acusam os prisioneiros da Ciência. São anjos sem consciência. Não têm passado. Não têm futuro. Mas uma eternidade inteira de fastio e sonolência à beira mar.

Rian Santos

Eu mesmo, com meus  próprios olhos, não  os vi. Soube deles pelos amigos. Todo domingo, quem passa de carro pode surpreendê-los aos pares, em grupos de três ou quatro, ao sabor do vento, livres, leves e soltos,os inocentes da Cinelândia.
Inocentes, sim. Vão à orla, ao fim da tarde, quando o sol começa a cair, sorriso no rosto, em bandos, como nas propagandas de refrigerantes. Segundo me contam, o seu semblante é plácido como uma paisagem campestre. Os inocentes são figuras borradas, num quadro de tom ameno. Permanecem alheios ao entorno, como se a matéria inteira do mundo estivesse diluída em tinta de aquarela.
Os inocentes da Cinelândia já foram denunciados pelos versos de Carlos Drummond de Andrade, sempre atento ao sentimento do mundo, enquanto derramavam óleo de bronzear sobre as costas. Se antes não percebiam os navios que rompiam o horizonte, em pleno Leblon, agora não apenas tapam os ouvidos para os apitos de toda a urgência, satisfeitos consigo mesmos, desfilam orgulhosos da própria ignorância.
Os inocentes da Cinelândia não querem saber dos mortos pelo coronavírus. São jovens, sentem-se firmes e fortes. Não se deixam impressionar pelo alarme dos números, os protestos publicados em letra de imprensa. Plenos de si mesmos, apesar de entediados como domingo sem fim da quarentena, os inocentes aproveitam as férias.
Os inocentes da Cinelândia não são criminosos, como lhes acusam os prisioneiros da Ciência. São anjos sem consciência. Não têm passado. Não têm futuro. Mas uma eternidade inteira de fastio e sonolência à beira mar.

 


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS