Um abraçaço no mano Caetano

Rian Santos


  • 78 anos de América do Sul

 

* Rian Santos
Ninguém sabe, mas 
Caetano Veloso é 
meu irmão. Se nunca me gabei dos laços de parentesco, tímido doente, foi por conveniência de um temperamento em tudo oposto ao fogo ansioso no coração do mano famoso. Uns nascem para o aqui e agora de esquinas conhecidas desde sempre, outros para conquistar o mundo.
Irmão mais velho, quem tem bem o sabe, usa a própria dor e alegria como exemplo de vida e lição de moral. E Caê viu de tudo com os olhos que a terra há de comer um dia, desde menino no olho do furacão. 'Domingo' (1967), um disco de serenidade sussurrada, de uma timidez incompatível com as ousadias futuras em companhia de Gal e os Doces Bárbaros, é uma afirmação de fé no próprio taco e disposição para a experiência. Para felicidade da música popular tupiniquim, o 'Coração Vagabundo' do compositor jamais perdeu a esperança de "ser tudo o que quer". 
Não por acaso, os três discos seguintes foram batizados simplesmente 'Caetano Veloso'. O mano tem a necessidade de se corrigir, atualizar e reafirmar o tempo inteiro, até no exílio. Na ambivalência de um entusiasta da Bossa Nova com um pé na urgência barulhenta do rock, o seu maior trunfo. Revólver e coqueiro. Maluco e burguês.
Um passo à frente, dois passos atrás. Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar Caetano Veloso. Surtos cristalizados na face odienta e caricata de um Donald Trump, estranhos às condições materiais fornecidas pela facilidade de informação, derivada da tecnologia, pipocam aqui e ali, alheios à experiência acumulada até agora, como se não houvesse versos dando ciência de vastidões e além. Povoado de medo, o mundo de hoje sublinha fronteiras e tranca a chave as suas portas, não toma as dores de mais ninguém. 
A música de Caetano Veloso e Gilberto Gil (impossível mencionar um sem pensar no outro), ao contrário, é mão estendida, oferecendo conforto, um gesto ideal de solidariedade. A fortuna crítica reunida no 'Verdade Tropical', passando a história a limpo, afirmam e reafirmam a brevidade das verdadeiras distâncias e o lugar Brasil no mundo - um pedaço idílico, miscigenado e antropofágico, com os perfumes e as cores da Bahia.
Um abraçaço, portanto, no mano Caetano, de recém completados 78 anos. Devemos todos à sua coragem - a de ser quem bem entende, contra tudo e contra todos, com a cara e a coragem, em respeito à próprias lágrimas e ainda mais a sua risada, apesar da caretice reinando na América do Sul.
Conselho dado. Sexta-feira, 07 de agosto, no canal da Globo Play (com acesso liberado, às 21h30), Caetano celebra 78 anos de vida na live mais aguardada do ano. A irmandade escuta, aprende e agradece. 
* Rian Santos é jornalista.

* Rian Santos

Ninguém sabe, mas  Caetano Veloso é  meu irmão. Se nunca me gabei dos laços de parentesco, tímido doente, foi por conveniência de um temperamento em tudo oposto ao fogo ansioso no coração do mano famoso. Uns nascem para o aqui e agora de esquinas conhecidas desde sempre, outros para conquistar o mundo.
Irmão mais velho, quem tem bem o sabe, usa a própria dor e alegria como exemplo de vida e lição de moral. E Caê viu de tudo com os olhos que a terra há de comer um dia, desde menino no olho do furacão. 'Domingo' (1967), um disco de serenidade sussurrada, de uma timidez incompatível com as ousadias futuras em companhia de Gal e os Doces Bárbaros, é uma afirmação de fé no próprio taco e disposição para a experiência. Para felicidade da música popular tupiniquim, o 'Coração Vagabundo' do compositor jamais perdeu a esperança de "ser tudo o que quer". 
Não por acaso, os três discos seguintes foram batizados simplesmente 'Caetano Veloso'. O mano tem a necessidade de se corrigir, atualizar e reafirmar o tempo inteiro, até no exílio. Na ambivalência de um entusiasta da Bossa Nova com um pé na urgência barulhenta do rock, o seu maior trunfo. Revólver e coqueiro. Maluco e burguês.
Um passo à frente, dois passos atrás. Hoje, mais do que nunca, é importante celebrar Caetano Veloso. Surtos cristalizados na face odienta e caricata de um Donald Trump, estranhos às condições materiais fornecidas pela facilidade de informação, derivada da tecnologia, pipocam aqui e ali, alheios à experiência acumulada até agora, como se não houvesse versos dando ciência de vastidões e além. Povoado de medo, o mundo de hoje sublinha fronteiras e tranca a chave as suas portas, não toma as dores de mais ninguém. 
A música de Caetano Veloso e Gilberto Gil (impossível mencionar um sem pensar no outro), ao contrário, é mão estendida, oferecendo conforto, um gesto ideal de solidariedade. A fortuna crítica reunida no 'Verdade Tropical', passando a história a limpo, afirmam e reafirmam a brevidade das verdadeiras distâncias e o lugar Brasil no mundo - um pedaço idílico, miscigenado e antropofágico, com os perfumes e as cores da Bahia.
Um abraçaço, portanto, no mano Caetano, de recém completados 78 anos. Devemos todos à sua coragem - a de ser quem bem entende, contra tudo e contra todos, com a cara e a coragem, em respeito à próprias lágrimas e ainda mais a sua risada, apesar da caretice reinando na América do Sul.
Conselho dado. Sexta-feira, 07 de agosto, no canal da Globo Play (com acesso liberado, às 21h30), Caetano celebra 78 anos de vida na live mais aguardada do ano. A irmandade escuta, aprende e agradece. 

* Rian Santos é jornalista.

 


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