Obra prima do jornalismo e da literatura

Rian Santos


  • Euclides da Cunha realizou uma obra prima da literatura brasileira

 

* Rian Santos
Poucos lembrarão, o 
brasileiro médio não 
dá a devida importância à memória. Mas, próximo sábado, a morte de Euclides da Cunha completa 111 anos. Não se trata aqui de qualquer um. A sua grande realização, uma obra monumental, passa ao largo da ficção. E, no entanto, figura entre os maiores feitos da literatura brasileira.
'Os sertões', aprende-se na escola, reporta uma insurreição monarquista em plena República. Os telegramas e cartas sobre a Guerra de Canudos, despachos em primeira mão, direto do front, uma cobertura jornalística stricto sensu, seriam depois reunidos em um volume fundamental, acrescidos de um relato minucioso sobre as circunstâncias e a luta, colhido in loco. Assim, os pré conceitos do escritor/jornalista, republicano convicto, terminariam vencidos pela proximidade com o homem e o ambiente agreste do Brasil profundo, a realidade em pouca carne e ossos salientes.
A honestidade do trabalho jamais agradou ao combatente exército verde e amarelo, afrontado pela ousadia de um personagem controverso, o líder maltrapilho e revoltado Antonio Conselheiro. 'Os sertões' sofreu contestações, campanhas difamatórias e até a censura franca dos anos de chumbo. A força própria do livro, contudo, jamais sucumbiu aos pruridos e as botinas de comandantes e generais.
Um olho na história, outro no tempo presente. A homenagem da Flip não poderia ser mais oportuna. Mais grave do que a crise do papel, o exercício jornalístico sofre hoje justificada desconfiança. A concentração dos meios de comunicação mais a promiscuidade política e patrimonial das redes de televisão ferem de morte o principal ativo dos profissionais batendo ponto nas redações da vida: a sua credibilidade. O único antídoto à mão, Euclides da Cunha ensina, é a apuração conscienciosa, a opinião embasada, amparada em fato, de claridade cristalina.
Verdade seja dita: O jornalismo cometido aqui e agora, implicações de natureza ética e técnica à parte, sofre uma falta de imaginação mesquinha. Não por falta de bons precedentes. A cobertura da guerra na Itália, inspiração para a crônica de Rubem Braga e Joel Silveira; a memória de 68 em reconstituição de Zuenir Ventura; as andanças e investigações de João do Rio, para citar exclusivamente os casos célebres, provam por A mais B: Bem feito, o jornalismo nosso de cada dia não fica devendo nada à melhor literatura.
* Rian Santos é jornalista

* Rian Santos

Poucos lembrarão, o  brasileiro médio não  dá a devida importância à memória. Mas, próximo sábado, a morte de Euclides da Cunha completa 111 anos. Não se trata aqui de qualquer um. A sua grande realização, uma obra monumental, passa ao largo da ficção. E, no entanto, figura entre os maiores feitos da literatura brasileira.
'Os sertões', aprende-se na escola, reporta uma insurreição monarquista em plena República. Os telegramas e cartas sobre a Guerra de Canudos, despachos em primeira mão, direto do front, uma cobertura jornalística stricto sensu, seriam depois reunidos em um volume fundamental, acrescidos de um relato minucioso sobre as circunstâncias e a luta, colhido in loco. Assim, os pré conceitos do escritor/jornalista, republicano convicto, terminariam vencidos pela proximidade com o homem e o ambiente agreste do Brasil profundo, a realidade em pouca carne e ossos salientes.
A honestidade do trabalho jamais agradou ao combatente exército verde e amarelo, afrontado pela ousadia de um personagem controverso, o líder maltrapilho e revoltado Antonio Conselheiro. 'Os sertões' sofreu contestações, campanhas difamatórias e até a censura franca dos anos de chumbo. A força própria do livro, contudo, jamais sucumbiu aos pruridos e as botinas de comandantes e generais.
Um olho na história, outro no tempo presente. A homenagem da Flip não poderia ser mais oportuna. Mais grave do que a crise do papel, o exercício jornalístico sofre hoje justificada desconfiança. A concentração dos meios de comunicação mais a promiscuidade política e patrimonial das redes de televisão ferem de morte o principal ativo dos profissionais batendo ponto nas redações da vida: a sua credibilidade. O único antídoto à mão, Euclides da Cunha ensina, é a apuração conscienciosa, a opinião embasada, amparada em fato, de claridade cristalina.
Verdade seja dita: O jornalismo cometido aqui e agora, implicações de natureza ética e técnica à parte, sofre uma falta de imaginação mesquinha. Não por falta de bons precedentes. A cobertura da guerra na Itália, inspiração para a crônica de Rubem Braga e Joel Silveira; a memória de 68 em reconstituição de Zuenir Ventura; as andanças e investigações de João do Rio, para citar exclusivamente os casos célebres, provam por A mais B: Bem feito, o jornalismo nosso de cada dia não fica devendo nada à melhor literatura.

* Rian Santos é jornalista

 


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