Os muros e as grades

Rian Santos


  • Cadeia não é lugar de gente

Rian Santos

Não posso me dizer  um abolicionista  penal, não tenho cacife intelectual para tanto. A minha diferença com os muros e as grades da cadeia deriva das cismas próprias de um poeta. Imagino a bandidagem ociosa, mastigando pecados na masmorra, à espera da forca com a mão no pescoço. Tremo por mim mesmo.
Um lagarto de couro gelado subiu a minha espinha ao saber que os internos do sistema penal sergipano estarão privados de visitas íntimas. A determinação da Secretaria de Justiça, do Trabalho e da Defesa do Consumidor (Sejuc) vale já a partir de sábado, tendo em vista o recrudescimento da pandemia.
Pobre do homem privado do amor. O divino talvez não interesse a assassinos de sangue frio, estelionatários tirados a espertos, pais divorciados com a pensão atrasada e vagabundos enquadrados na Lei Maria da Penha. O amor físico, ao contrário, é uma questão de higiene.
Álvares de Azevedo, o poeta donzelo, completou vinte e um anos sem conhecer, nem de longe, o amor de uma mulher. Morreu tuberculoso, como convinha a um Werther dos trópicos. Jamais haverá criatura mais tacanha na história da humanidade. A sua experiência atrofiada rendeu alguns versos repletos de adjetivos inflamados e bebedeiras tristes, de estudante. Mais nada.
O secretário Cristiano Barreto, da Sejuc, certamente tem dados e razões muito justas para tomar uma decisão assim extrema. Pensa como um homem sensato, para quem o crime tem de ser recompensado com punições exemplares e privações de todas as ordens. Aqui se faz, aqui se paga. Convém lembrar, no entanto, que o preso terá de voltar, um dia, ao convívio social. No escuro da cela, em condições desumanas, sem a esperança do gozo mais breve, o condenado pode até esquecer de ser gente.


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