Um teto todo delas

Rian Santos


  • Virginia Woolf escreveu como quem atirasse pérolas aos porcos

 

Rian Santos 
riansantos@jornaldodiase.com.br
Faz tempo que não 
leio um romance tão 
absorvente como a série napolitana de Elena Ferrante. Centenas de páginas foram vencidas em poucos dias, sem nenhuma pressa e até alguma pena de alcançar um inevitável ponto final. A impressão é tamanha, a ponto de me obrigar a dar o braço a torcer, e repetir um raro ponto pacífico do movimento feminista. Citando Virginia Woolf: O mulherio precisa sim de um teto todo seu.
Entre todos os artefatos de minha vaidade, a pequena biblioteca plantada bem no meio da sala se destaca. Há, nas prateleiras abarrotadas, uma amostra heterogênea do mundo inteiro. Das anoitecidas vozes cantadas por Mia Couto aos gemidos afogados em rum barato nas ruínas sujas de Pedro Juan Gutiérrez. As mulheres, no entanto, por si mesmas não falam nunca. Virginia Woolf e Elena Ferrante, aqui em casa e em todas as bibliotecas, são exceções à regra.
A mim, pouco me importam as palavras exaustas dos movimentos identitários. Ocorre que o silêncio de alguns nos deixa a todos mais pobres. Calem Machado de Assis e Lima Barreto, dois crioulos ousados, que tomaram para si a dignidade da palavra, na marra, e observem o rombo cavado nas letras brasileiras. Este seria um buraco sem fundo.
Não se julga um livro pela assinatura do autor na capa. Também seria estúpido deduzir que a inteligência da humanidade foi toda preservada em documentos de cultura. Daí as lacunas de sensibilidade em todos os tempos, em todos os cantos, ainda aqui e agora. O materialismo histórico é uma construção repleta de falhas. Walter Benjamin já nos advertiu sobre as mentiras sussurradas pelo anjo da história.
Contra todas as aparências, as mulheres sempre escreveram, certas de lançar pérolas aos porcos. Ano passado, a pesquisadora Danielle Rodrigues realizou a curadoria da exposição 'Escritoras sergipanas', reunindo 17 mulheres da nossa literatura em diversos segmentos, no acervo da biblioteca Epiphânio Doria. Com fotos e informações biográficas, a mostra propunha a imersão na produção das escritoras locais. Núbia Marques, Ilma Fontes, Izabel Nascimento... Hoje, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, esta página adverte, mais uma vez: Só permanece na sombra confortável da própria ignorância quem quer.

Rian Santos

Faz tempo que não  leio um romance tão  absorvente como a série napolitana de Elena Ferrante. Centenas de páginas foram vencidas em poucos dias, sem nenhuma pressa e até alguma pena de alcançar um inevitável ponto final. A impressão é tamanha, a ponto de me obrigar a dar o braço a torcer, e repetir um raro ponto pacífico do movimento feminista. Citando Virginia Woolf: O mulherio precisa sim de um teto todo seu.
Entre todos os artefatos de minha vaidade, a pequena biblioteca plantada bem no meio da sala se destaca. Há, nas prateleiras abarrotadas, uma amostra heterogênea do mundo inteiro. Das anoitecidas vozes cantadas por Mia Couto aos gemidos afogados em rum barato nas ruínas sujas de Pedro Juan Gutiérrez. As mulheres, no entanto, por si mesmas não falam nunca. Virginia Woolf e Elena Ferrante, aqui em casa e em todas as bibliotecas, são exceções à regra.
A mim, pouco me importam as palavras exaustas dos movimentos identitários. Ocorre que o silêncio de alguns nos deixa a todos mais pobres. Calem Machado de Assis e Lima Barreto, dois crioulos ousados, que tomaram para si a dignidade da palavra, na marra, e observem o rombo cavado nas letras brasileiras. Este seria um buraco sem fundo.
Não se julga um livro pela assinatura do autor na capa. Também seria estúpido deduzir que a inteligência da humanidade foi toda preservada em documentos de cultura. Daí as lacunas de sensibilidade em todos os tempos, em todos os cantos, ainda aqui e agora. O materialismo histórico é uma construção repleta de falhas. Walter Benjamin já nos advertiu sobre as mentiras sussurradas pelo anjo da história.
Contra todas as aparências, as mulheres sempre escreveram, certas de lançar pérolas aos porcos. Ano passado, a pesquisadora Danielle Rodrigues realizou a curadoria da exposição 'Escritoras sergipanas', reunindo 17 mulheres da nossa literatura em diversos segmentos, no acervo da biblioteca Epiphânio Doria. Com fotos e informações biográficas, a mostra propunha a imersão na produção das escritoras locais. Núbia Marques, Ilma Fontes, Izabel Nascimento... Hoje, às vésperas do Dia Internacional da Mulher, esta página adverte, mais uma vez: Só permanece na sombra confortável da própria ignorância quem quer.

 


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