Sinal vermelho

Rian Santos


  • Na igreja, o pastor Silas Malafaia se tornou um homem rico
Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Muito cuidado ao 
sintonizar o rádio 
nas emissoras da Fundação Aperipê. A depender do horário, ao invés da boa música Serigy, em lugar do papo gostoso da querida Tanit Bezerra, o ouvinte é interpelado pelos berros de um pastor.
Ontem, a caminho do Jornal do Dia, pedi licença a Tom Zé para limpar os ouvidos com o sotaque local, saudoso dos bons e velhos tempos da Fundação, quando a fina flor de uma cena tão próxima de nós (e, num paradoxo sofrido, tão distante da maioria) abria a boca na frequência mais fina do estado. Sinal vermelho, ao fim da reprodução de um CD do baiano de Irará, ligo o rádio e tenho a impressão de ouvir um exorcismo, com transmissão ao vivo.
O sujeito berrava. No templo, imagino, a performance deve comover os convertidos. Estão todos na mesma onda, afinal. No meio do tráfego, ao contrário, a vulgaridade do discurso fica ainda mais saliente. Ateu, graças a Deus, sou capaz de reconhecer beleza em quase todos os cultos, da liturgia católica aos rituais do candomblé. Nas igrejas de doutrina evangélica, contudo, a linguagem comercial se sobrepõe a qualquer noção de transcendência. Importa gozar os bens terrenos, a qualquer custo. Para tanto, vale até evocar o santo nome em vão. 
Os crentes estão em todo canto: Na televisão, no rádio, nas redes sociais, nos pontos de ônibus, até no Parlamento. Falam pelos cotovelos, sobre quase tudo. Têm muito a dizer sobre vacinas, política, comércio, sexo, sucesso, prosperidade. Em minha tão breve experiência, num cruzamento da cidade, só não ouvi o pastor falar no amor de Deus.

Rian Santos

Muito cuidado ao  sintonizar o rádio  nas emissoras da Fundação Aperipê. A depender do horário, ao invés da boa música Serigy, em lugar do papo gostoso da querida Tanit Bezerra, o ouvinte é interpelado pelos berros de um pastor.
Ontem, a caminho do Jornal do Dia, pedi licença a Tom Zé para limpar os ouvidos com o sotaque local, saudoso dos bons e velhos tempos da Fundação, quando a fina flor de uma cena tão próxima de nós (e, num paradoxo sofrido, tão distante da maioria) abria a boca na frequência mais fina do estado. Sinal vermelho, ao fim da reprodução de um CD do baiano de Irará, ligo o rádio e tenho a impressão de ouvir um exorcismo, com transmissão ao vivo.
O sujeito berrava. No templo, imagino, a performance deve comover os convertidos. Estão todos na mesma onda, afinal. No meio do tráfego, ao contrário, a vulgaridade do discurso fica ainda mais saliente. Ateu, graças a Deus, sou capaz de reconhecer beleza em quase todos os cultos, da liturgia católica aos rituais do candomblé. Nas igrejas de doutrina evangélica, contudo, a linguagem comercial se sobrepõe a qualquer noção de transcendência. Importa gozar os bens terrenos, a qualquer custo. Para tanto, vale até evocar o santo nome em vão. 
Os crentes estão em todo canto: Na televisão, no rádio, nas redes sociais, nos pontos de ônibus, até no Parlamento. Falam pelos cotovelos, sobre quase tudo. Têm muito a dizer sobre vacinas, política, comércio, sexo, sucesso, prosperidade. Em minha tão breve experiência, num cruzamento da cidade, só não ouvi o pastor falar no amor de Deus.


COMPARTILHAR NAS REDES SOCIAIS