O dito cujo Gabriel Perninha

Rian Santos


  • Baquetas pra que te quero

Rian Santos

Há quem diga que ba- terista não é músi- co. Para estes, as viradas de Ringo Star, por exemplo, pouco ou nada contribuíram com o repertório dos Beatles. Há quem diga qualquer coisa, aliás. Gênios das baquetas, gigantes da estatura de Buddy Rich, Neil Peart, Phil Selway, Wilson das Neves, Bill Brufford, seriam macacos adestrados, obedientes ao ritmo, puro feelling, escravos do instinto.
A questão aflora de novo, por força da ousadia de Gabriel Perninha. Sob o pseudônimo de Pernaf, ele jogou 'Poeira', a sua primeira investida autoral, nas principais plataformas de streaming. Eu vou me abster de fazer considerações mais demoradas sobre o single. O sujeito entrou em campo com o jogo ganho. Os feitos no corpo de projetos diversos, a exemplo das bandas El Presidente, Madame Javali, The Baggios, o credenciam para saltos até maiores. Mas, para dizer a verdade, 'Poeira' não fez a minha cabeça, não bateu, por assim dizer, não deu onda.
A questão de fundo, entretanto, permanece. O ingresso de Perninha no duo de blues rock criado por Júlio Andrade elevou os Baggios a outro patamar. A evolução está registrada na discografia da banda e, mais notável ainda, na lembrança de quem foi aos primeiros shows, na finada Rua da Cultura. Elvis Boamorte se revelaria, depois, um compositor inspirado. Como baterista, no entanto, pouco acrescentava às possibilidades do projeto. Suas limitações eram evidentes.
Mais do que acompanhar uma banda e marcar compassos, um baterista de qualidade é capaz de criar atmosferas, explorar timbres e imprimir a própria personalidade em uma canção. Ouça 'Edf. Futuro', da já citada El Presidente, com participação especial da menina Tori. Muito da energia comunicada pela música é obra do tom seco das peles, as batidas certeiras, o pulso a um tempo inflamado e contido. Armada de um excelente músico, em suma. No caso, o dito cujo Gabriel Perninha.


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