Mundos no mundo

Rian Santos


  • 20 anos de carreira, 01 álbum na praça

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O ódio mobiliza. Pen
so no artista local 
(não em razão de um pecado original, o de nascer onde Judas perdeu as botas. Mas por não dispor de força nos pulmões para ultrapassar as fronteiras sensíveis da terrinha) com grande número de seguidores engajados nas redes sociais. Gente da música, do teatro, do audiovisual. Há deles com talento genuíno, apesar de suplantado pela necessidade de reforço positivo. Quanto mais virulência, mais likes.
Penso, por exemplo, numa cantora com 20 anos de carreira e somente um álbum na praça. Compositora inspirada, presença de palco impressionante, voz sempre bem colocada. Mas passa o dia inteiro à cata de treta no que chama de "facetruque". Entre uma acusação e outra, imagino, sobra pouco tempo para compor, registrar as próprias canções, viabilizar o projeto de um disco inédito. Prioridades.
Penso também na atriz das ocupações e passeatas. Desde quando passou a entoar os jargões fabricados no calor do embate partidário, mais à esquerda do que o próprio Lula, nunca mais se fez pele de outro personagem. Sucumbiu à fantasia construída para si mesma - a de artista engajada, feminista, emponderada (palavrinha mais tacanha, essa!). Em termos artísticos, no entanto, restou aleijada.
Penso, sobretudo, em toda a inteligência amealhada pelo Fórum Audiovisual de Sergipe, uma reunião de escritores medíocres de manifestos. Não oferecem nem mesmo o refresco das redações hiperbólicas, próprias das vanguardas. Nada disso. Não há espaço, em sua luta, para qualquer investimento criativo na linguagem - no documento mais recente, grafaram "somatizar" ao invés de "somar". Não querem nada com Breton. Se realizassem filmes com a mesma frequência com que lançam Notas de Repúdio e petardos do gênero, certamente já teriam revelado um novo Glauber Rocha.
Cá pra nós, a minha cisma não é com um, nem com outro, em particular - embora seja alvo recorrente de ataques gratuitos na internet. A minha indisposição maior é justamente com a homogeneização do discurso dito "político" entoado por estas plagas, de uma pobreza flagrante. Sobrou o arremedo de uma suposta luta de classes, o nós contra eles. E, no entanto, como bem canta o mano Caetano, somente a frase, o conceito, o enredo, o verso é que podem lançar mundos no mundo.

Rian Santos

O ódio mobiliza. Pen so no artista local  (não em razão de um pecado original, o de nascer onde Judas perdeu as botas. Mas por não dispor de força nos pulmões para ultrapassar as fronteiras sensíveis da terrinha) com grande número de seguidores engajados nas redes sociais. Gente da música, do teatro, do audiovisual. Há deles com talento genuíno, apesar de suplantado pela necessidade de reforço positivo. Quanto mais virulência, mais likes.
Penso, por exemplo, numa cantora com 20 anos de carreira e somente um álbum na praça. Compositora inspirada, presença de palco impressionante, voz sempre bem colocada. Mas passa o dia inteiro à cata de treta no que chama de "facetruque". Entre uma acusação e outra, imagino, sobra pouco tempo para compor, registrar as próprias canções, viabilizar o projeto de um disco inédito. Prioridades.
Penso também na atriz das ocupações e passeatas. Desde quando passou a entoar os jargões fabricados no calor do embate partidário, mais à esquerda do que o próprio Lula, nunca mais se fez pele de outro personagem. Sucumbiu à fantasia construída para si mesma - a de artista engajada, feminista, emponderada (palavrinha mais tacanha, essa!). Em termos artísticos, no entanto, restou aleijada.
Penso, sobretudo, em toda a inteligência amealhada pelo Fórum Audiovisual de Sergipe, uma reunião de escritores medíocres de manifestos. Não oferecem nem mesmo o refresco das redações hiperbólicas, próprias das vanguardas. Nada disso. Não há espaço, em sua luta, para qualquer investimento criativo na linguagem - no documento mais recente, grafaram "somatizar" ao invés de "somar". Não querem nada com Breton. Se realizassem filmes com a mesma frequência com que lançam Notas de Repúdio e petardos do gênero, certamente já teriam revelado um novo Glauber Rocha.
Cá pra nós, a minha cisma não é com um, nem com outro, em particular - embora seja alvo recorrente de ataques gratuitos na internet. A minha indisposição maior é justamente com a homogeneização do discurso dito "político" entoado por estas plagas, de uma pobreza flagrante. Sobrou o arremedo de uma suposta luta de classes, o nós contra eles. E, no entanto, como bem canta o mano Caetano, somente a frase, o conceito, o enredo, o verso é que podem lançar mundos no mundo.

 


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