Aracaju capenga sem Ilma

Cultura

 

* Antonio Passos
Estar em Aracaju, olhar o mundo lá fora chegando embalado no brilho dos meios de comunicação de massa e, assim mesmo, continuar sentindo um vigor, uma beleza local e uma satisfação por estar aqui. Qual o segredo de sentir uma pequena cidade tão grande quanto qualquer outra muito maior lá de fora? Infinitas devem ser as respostas para essa pergunta. A minha resposta particular tem a ver com quatro figuras que ainda adolescente as avistei de longe e depois vi de perto e passei a considerar os quatro mais longevos pilares daquilo que um dia deve ter sido, em tempo real, a contracultura Serigy - por ordem de permanência: Lu Spinelli, Amaral Cavalcante, Ilma Fontes e Joubert Moraes.
Desfrutei de alguma proximidade com todos. E como desfrutei! A proximidade mais dura foi com a madrinha Ilma Fontes. Digo madrinha porque foi ela quem me iniciou em uma atividade que exerci profissionalmente por anos e, agora, neste exato momento, quando digito esta vírgula, continuo de algum modo exercendo - uma cachaça como já ouvi se dizer: o jornalismo.
Ilma era a editora do jornal Pipiri (uma esquecida publicação que merece resgate do banquete das traças e fungos), publicado pela então Secretaria de Cultura do Município de Aracaju, depois transformada em Funcaju. Eu trabalhava no órgão como pesquisador e me foi solicitado um texto sobre a pesquisa em curso. Escrevi e entreguei. Ilma leu, publicou e disse algo mais ou menos assim: você escreve bem, vou lhe levar para a Folha da Praia. 
Levou mesmo! Mas a explosão contracultural de Ilma era demais pra mim, eu não tinha estatura para acompanhá-la. Certa vez, durante uma visita a uma casa na Rua de Laranjeiras, onde Ilma morava, sem rodeios, ela me disse na lata: 
- Cara, você é muito conservador! 
E bote conservador nisso. Comparados a ela, poucos não eram e não são, até hoje, 03/04/2021, o dia no qual, como escreveu Jozailto Lima, a indomável Moquinha "pulou pro outro lado". Não foi de Covid-19, ressalta a notícia. Até aí Ilma foi Ilma.
Esses quatro pilares da contracultura Serigy foram tempero decisivo no delicioso prato que a minha imaginação juvenil fez de Aracaju com sua inquietação. Com o pulo de Ilma, três estão do outro lado: Lu, Amaral e ela. Em tudo essas figuras são marcadas pela irreverência. Como até Caetano disse que a longevidade é das mulheres, permanece entre nós Joubert.
Aceite daqui o meu abraço respeitoso, Ilma - posto que sou um conservador. Eu que confessei ter visto um pedaço do meu mundo desaparecer no dia em que nos deixou João Gilberto, não posso deixar de dizer o mesmo de você, agora que não a veremos mais caminhar ao lado do seu cachorro manso nos arredores da Rua da Frente, pelo bairro São José. A irreverência em Aracaju fica mais capenga sem você.
* Antonio Passos é jornalista.

* Antonio Passos

Estar em Aracaju, olhar o mundo lá fora chegando embalado no brilho dos meios de comunicação de massa e, assim mesmo, continuar sentindo um vigor, uma beleza local e uma satisfação por estar aqui. Qual o segredo de sentir uma pequena cidade tão grande quanto qualquer outra muito maior lá de fora? Infinitas devem ser as respostas para essa pergunta. A minha resposta particular tem a ver com quatro figuras que ainda adolescente as avistei de longe e depois vi de perto e passei a considerar os quatro mais longevos pilares daquilo que um dia deve ter sido, em tempo real, a contracultura Serigy - por ordem de permanência: Lu Spinelli, Amaral Cavalcante, Ilma Fontes e Joubert Moraes.
Desfrutei de alguma proximidade com todos. E como desfrutei! A proximidade mais dura foi com a madrinha Ilma Fontes. Digo madrinha porque foi ela quem me iniciou em uma atividade que exerci profissionalmente por anos e, agora, neste exato momento, quando digito esta vírgula, continuo de algum modo exercendo - uma cachaça como já ouvi se dizer: o jornalismo.
Ilma era a editora do jornal Pipiri (uma esquecida publicação que merece resgate do banquete das traças e fungos), publicado pela então Secretaria de Cultura do Município de Aracaju, depois transformada em Funcaju. Eu trabalhava no órgão como pesquisador e me foi solicitado um texto sobre a pesquisa em curso. Escrevi e entreguei. Ilma leu, publicou e disse algo mais ou menos assim: você escreve bem, vou lhe levar para a Folha da Praia. 
Levou mesmo! Mas a explosão contracultural de Ilma era demais pra mim, eu não tinha estatura para acompanhá-la. Certa vez, durante uma visita a uma casa na Rua de Laranjeiras, onde Ilma morava, sem rodeios, ela me disse na lata: 
- Cara, você é muito conservador! 
E bote conservador nisso. Comparados a ela, poucos não eram e não são, até hoje, 03/04/2021, o dia no qual, como escreveu Jozailto Lima, a indomável Moquinha "pulou pro outro lado". Não foi de Covid-19, ressalta a notícia. Até aí Ilma foi Ilma.
Esses quatro pilares da contracultura Serigy foram tempero decisivo no delicioso prato que a minha imaginação juvenil fez de Aracaju com sua inquietação. Com o pulo de Ilma, três estão do outro lado: Lu, Amaral e ela. Em tudo essas figuras são marcadas pela irreverência. Como até Caetano disse que a longevidade é das mulheres, permanece entre nós Joubert.
Aceite daqui o meu abraço respeitoso, Ilma - posto que sou um conservador. Eu que confessei ter visto um pedaço do meu mundo desaparecer no dia em que nos deixou João Gilberto, não posso deixar de dizer o mesmo de você, agora que não a veremos mais caminhar ao lado do seu cachorro manso nos arredores da Rua da Frente, pelo bairro São José. A irreverência em Aracaju fica mais capenga sem você.

* Antonio Passos é jornalista.

 


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