O jornalismo deve dizer a Bolsonaro: não morreu aqui essa história

Opinião

 

* Moisés Mendes
Bolsonaro lançou um desafio ao jornalismo, quando disse, no seu papel preferido de caricatura de ditador, que os motivos da demissão dos chefes militares são assunto dele e do novo ministro da Defesa.
Só ele e o general Braga Netto saberiam o que aconteceu. E pronto. Essas foram as frases de Bolsonaro, na live de quarta-feira, dia seguinte ao da demissão em massa, referindo-se a Braga Netto:
"Ele me conhecia, eu conhecia ele e só nós sabemos o motivo disso tudo. Morreu aqui essa história. Não tem que discutir nada".
Claro que, se os envolvidos no caso são pelo menos seis, não há como só ele e Braga Netto saberem dos motivos. Ele, o novo ministro, o ministro que saiu e os demitidos do comando das três armas devem saber alguma coisa.
E o que eles sabem é o que até as emas do Alvorada estão sabendo há meses: que o plano refugado pelos quatro dispensados é o golpe. É óbvio. Mas até o óbvio esconde o que deseja esconder.
Bolsonaro deseja, como desejavam na ditadura, que o assunto morra aqui. Ele já havia dito ao general Eduardo Villas Bôas, em janeiro de 2019, na solenidade de posse de Fernando Azevedo e Silva no Ministério da Defesa:
"Muito obrigado comandante Villas Bôas, o que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui".
O teor da conversa pode morrer entre eles, mas todos nós sabemos o que levou Bolsonaro a fazer agradecimentos públicos ao general.
Villas Bôas era bajulado por ter emitido, como chefe do Exército, em abril de 2018, a nota com a advertência para que o Supremo não deixasse Lula livre. E Lula foi encarcerado. Hoje, o que se esconde com a demissão dos militares pode ser tão ou mais grave.
O jornalismo já está devendo a grande reportagem sobre o abatimento dos militares depois da humilhação a que Bolsonaro submeteu dois generais, um almirante e um tenente-brigadeiro, mandados embora porque não se comportavam como seus empregados.
Não é um assunto que possa morrer aqui. Um dos déficits brasileiros é o da falta de culto à memória, o exercício permanente, muitas vezes cansativo, mas decisivo para a democracia, de preservação da verdade.
Não há verdade histórica sem memória. Argentinos, uruguaios e chilenos sabem muito bem que precisam estar atentos ao que aconteceu, para que crueldades não se repitam. Eles exercitam a memória.
Autoritarismos e maldades só não irão se repetir se fatos públicos, envolvendo pessoas públicas, que interferem na vida de todos, não forem considerados segredos entre duas pessoas.
Bolsonaro não precisa dizer o que conversa com quem participa de suas decisões. Mas não pode dizer que os motivos do que decide são assuntos secretos.
A História mal contada é a que se submete a frases como essa de que a debandada no atacado de chefes militares morreu aqui.
Os ditadores desejaram que torturas, mortes e desaparecimentos fossem assassinados pela História e enterrados na mesma vala em que jogavam os que eles matavam.
Ditaduras torcem para que histórias desapareçam junto com os desaparecidos. Assim que foi dada como desaparecida por muito tempo a história do deputado Rubens Paiva.
Um dia comprovou-se, por obra do jornalismo, que Paiva desaparecera nas mãos de torturadores. Foi assassinado. O jornalista José Luís Costa, de Zero Hora, desmascarou a farsa do desaparecimento de Paiva.
Trocas de comandos não são a mesma coisa. Não. Mas as causas das trocas sugerem que o Brasil pode estar caminhando na direção de coisas parecidas com as da época em que mandavam matar inimigos e a História.
Bolsonaro está desafiando não só a capacidade de reação das Forças Armadas. Está dizendo ao jornalismo: o que eu sei vocês não ficarão sabendo, porque assim funciona e sobrevive um governo autoritário.
A história, como episódio, da demissão do alto comando das Forças Armadas interessa à História, como verdade. Não é um caso solto, muito menos uma deliberação administrativa ou um impasse casual entre comandante e comandados.
O Brasil foi relapso na abordagem da memória da ditadura, apesar da bravura de algumas iniciativas, como a do Brasil: Nunca Mais (viva Dom Paulo Evaristo Arns) e a da Comissão da Verdade.
São acervos de atos criminosos que não resultaram na perpetuação de gestos cotidianos de repulsa ao que aconteceu e em defesa da democracia.
O Brasil não se dedicou a ter nojo da ditadura e dos ditadores, como desejava Ulysses Guimarães. E o jornalismo deixou sua missão incompleta.
Bolsonaro sabe disso. Enterrar a História, com o conluio da grande imprensa, é uma ação decisiva para seu projeto de poder.
Moisés Mendes é jornalista, autor de "Todos querem ser Mujica" (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre, para o Jornalistas pela Democracia

* Moisés Mendes

Bolsonaro lançou um desafio ao jornalismo, quando disse, no seu papel preferido de caricatura de ditador, que os motivos da demissão dos chefes militares são assunto dele e do novo ministro da Defesa.
Só ele e o general Braga Netto saberiam o que aconteceu. E pronto. Essas foram as frases de Bolsonaro, na live de quarta-feira, dia seguinte ao da demissão em massa, referindo-se a Braga Netto:
"Ele me conhecia, eu conhecia ele e só nós sabemos o motivo disso tudo. Morreu aqui essa história. Não tem que discutir nada".
Claro que, se os envolvidos no caso são pelo menos seis, não há como só ele e Braga Netto saberem dos motivos. Ele, o novo ministro, o ministro que saiu e os demitidos do comando das três armas devem saber alguma coisa.
E o que eles sabem é o que até as emas do Alvorada estão sabendo há meses: que o plano refugado pelos quatro dispensados é o golpe. É óbvio. Mas até o óbvio esconde o que deseja esconder.
Bolsonaro deseja, como desejavam na ditadura, que o assunto morra aqui. Ele já havia dito ao general Eduardo Villas Bôas, em janeiro de 2019, na solenidade de posse de Fernando Azevedo e Silva no Ministério da Defesa:
"Muito obrigado comandante Villas Bôas, o que nós já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui".
O teor da conversa pode morrer entre eles, mas todos nós sabemos o que levou Bolsonaro a fazer agradecimentos públicos ao general.
Villas Bôas era bajulado por ter emitido, como chefe do Exército, em abril de 2018, a nota com a advertência para que o Supremo não deixasse Lula livre. E Lula foi encarcerado. Hoje, o que se esconde com a demissão dos militares pode ser tão ou mais grave.
O jornalismo já está devendo a grande reportagem sobre o abatimento dos militares depois da humilhação a que Bolsonaro submeteu dois generais, um almirante e um tenente-brigadeiro, mandados embora porque não se comportavam como seus empregados.
Não é um assunto que possa morrer aqui. Um dos déficits brasileiros é o da falta de culto à memória, o exercício permanente, muitas vezes cansativo, mas decisivo para a democracia, de preservação da verdade.
Não há verdade histórica sem memória. Argentinos, uruguaios e chilenos sabem muito bem que precisam estar atentos ao que aconteceu, para que crueldades não se repitam. Eles exercitam a memória.
Autoritarismos e maldades só não irão se repetir se fatos públicos, envolvendo pessoas públicas, que interferem na vida de todos, não forem considerados segredos entre duas pessoas.
Bolsonaro não precisa dizer o que conversa com quem participa de suas decisões. Mas não pode dizer que os motivos do que decide são assuntos secretos.
A História mal contada é a que se submete a frases como essa de que a debandada no atacado de chefes militares morreu aqui.
Os ditadores desejaram que torturas, mortes e desaparecimentos fossem assassinados pela História e enterrados na mesma vala em que jogavam os que eles matavam.
Ditaduras torcem para que histórias desapareçam junto com os desaparecidos. Assim que foi dada como desaparecida por muito tempo a história do deputado Rubens Paiva.
Um dia comprovou-se, por obra do jornalismo, que Paiva desaparecera nas mãos de torturadores. Foi assassinado. O jornalista José Luís Costa, de Zero Hora, desmascarou a farsa do desaparecimento de Paiva.
Trocas de comandos não são a mesma coisa. Não. Mas as causas das trocas sugerem que o Brasil pode estar caminhando na direção de coisas parecidas com as da época em que mandavam matar inimigos e a História.
Bolsonaro está desafiando não só a capacidade de reação das Forças Armadas. Está dizendo ao jornalismo: o que eu sei vocês não ficarão sabendo, porque assim funciona e sobrevive um governo autoritário.
A história, como episódio, da demissão do alto comando das Forças Armadas interessa à História, como verdade. Não é um caso solto, muito menos uma deliberação administrativa ou um impasse casual entre comandante e comandados.
O Brasil foi relapso na abordagem da memória da ditadura, apesar da bravura de algumas iniciativas, como a do Brasil: Nunca Mais (viva Dom Paulo Evaristo Arns) e a da Comissão da Verdade.
São acervos de atos criminosos que não resultaram na perpetuação de gestos cotidianos de repulsa ao que aconteceu e em defesa da democracia.
O Brasil não se dedicou a ter nojo da ditadura e dos ditadores, como desejava Ulysses Guimarães. E o jornalismo deixou sua missão incompleta.
Bolsonaro sabe disso. Enterrar a História, com o conluio da grande imprensa, é uma ação decisiva para seu projeto de poder.

Moisés Mendes é jornalista, autor de "Todos querem ser Mujica" (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre, para o Jornalistas pela Democracia

 


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