Quando a tranca bate

Rian Santos


  • A melhor Literatura pode mudar o curso de uma vida

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Tenho quase certeza de 
já ter afirmado aqui: a 
Literatura não salva ninguém. Se o fiz, assim, peremptório, cometi uma grande bobagem, traído por uma frase de efeito. É muito raro. Por vezes, no entanto, a leitura de um livro evoca uma força estranha, capaz de mover montanhas, céus e terra, alterar a rotação dos astros. A melhor Literatura pode mudar o curso de uma vida, sim.
Eis a aposta do Governo de Sergipe. Um projeto sob a responsabilidade das secretarias de Justiça e de Educação pretende trocar tempo de cadeia por páginas viradas. A ideia está ancorada na convicção de que os livros, vejam vocês, podem servir como instrumento de ressocialização. 
A iniciativa tem, desde já, o meu aplauso entusiasmado. Ao invés de trabalhos forçados, como querem os reacionários de plantão no púlpito do WhatsApp, a ironia fina do grande Machado de Assis. Em lugar do suor derramado nos campos, nas oficinas, nas fábricas, a ourivesaria do espírito. Meio mundo de intelectuais cheios de pose, com agenda lotada, ingressou surdamente no reino das palavras por receio de machucar as mãos no trabalho pesado. Eu mesmo encaro qualquer circunlóquio metido a besta a fim de fugir do batente.
O sucesso do projeto vai depender da qualidade das bibliotecas a disposição da malandragem, além da natureza da mediação realizada entre escritores e detentos. Convém evitar idealizações, proselitismos, romantismos. A poesia completa de um Olavo Bilac, por exemplo, não pode nem ser cogitada. Quando a tranca bate, quem tem os pés acorrentados, imagino, não quer saber de ouvir estrelas.

Rian Santos

Tenho quase certeza de  já ter afirmado aqui: a  Literatura não salva ninguém. Se o fiz, assim, peremptório, cometi uma grande bobagem, traído por uma frase de efeito. É muito raro. Por vezes, no entanto, a leitura de um livro evoca uma força estranha, capaz de mover montanhas, céus e terra, alterar a rotação dos astros. A melhor Literatura pode mudar o curso de uma vida, sim.
Eis a aposta do Governo de Sergipe. Um projeto sob a responsabilidade das secretarias de Justiça e de Educação pretende trocar tempo de cadeia por páginas viradas. A ideia está ancorada na convicção de que os livros, vejam vocês, podem servir como instrumento de ressocialização. 
A iniciativa tem, desde já, o meu aplauso entusiasmado. Ao invés de trabalhos forçados, como querem os reacionários de plantão no púlpito do WhatsApp, a ironia fina do grande Machado de Assis. Em lugar do suor derramado nos campos, nas oficinas, nas fábricas, a ourivesaria do espírito. Meio mundo de intelectuais cheios de pose, com agenda lotada, ingressou surdamente no reino das palavras por receio de machucar as mãos no trabalho pesado. Eu mesmo encaro qualquer circunlóquio metido a besta a fim de fugir do batente.
O sucesso do projeto vai depender da qualidade das bibliotecas a disposição da malandragem, além da natureza da mediação realizada entre escritores e detentos. Convém evitar idealizações, proselitismos, romantismos. A poesia completa de um Olavo Bilac, por exemplo, não pode nem ser cogitada. Quando a tranca bate, quem tem os pés acorrentados, imagino, não quer saber de ouvir estrelas.

 


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