No éter

Rian Santos


  • Paulinho Araújo

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
É preciso maldizer. Sem 
dó, nem piedade. 
Com uma faca entre os dentes. Quando o mundo está de cabeça pra baixo, como agora, as palavras mais necessárias ferem fundo, derrubam ídolos de pedra, ofendem, desmentem.
Morro de preguiça quando um artista engajado abre a boca. Na melhor das hipóteses, ele repete palavras gastas como "luta", "golpe", "revolução". Repete feito papagaio, sem atentar para as razões objetivas do enunciado. Fala pelos cotovelos, coberto das melhores intenções, mas não move uma palha. Seria mais honesto se fazer de morto. Entre as quatro paredes do próprio conforto, o artista engajado descansa o punho erguido nas redes sociais e abana o rabo, contente.
Outros, a exemplo de Paulinho Araújo - O diáfano, nem se dão ao trabalho de esticar o pescoço para fora do próprio umbigo. Pouco lhe importa que 350 mil pessoas tenham parado embaixo da terra, sem direito às cerimônias do adeus. Em release distribuído com o fim de divulgar o lançamento de um single sem graça, o alecrim dourado da música sergipana afirma que a pandemia em curso promove o "despertar de um novo ser".
É de cair o cu da bunda! Neste momento, há 14 milhões de brasileiros desempregados, largados à própria sorte, na Rua da Amargura, abandonados ao Deus Dará. O resultado se vê nos cruzamentos das capitais, em semblantes famélicos. A fome está escrita com todas as letras mal desenhadas, em forma de garranchos sobre o papelão sujo que senhoras de idade, meninos e meninas exibem no sinal fechado. Para quem?
Paulinho Araújo (o marmanjo se apresenta assim, num diminutivo mimado) articula discursos no éter, onde a sua voz anasalada vira pó de estrela antes de reverberar em matéria de gente. Canta para ninguém, perdido nos píncaros egóicos do maior desprendimento. Lá do alto, beato, o artista não reconhece alegrias palpáveis, não distingue a vida dura e, por vezes, deliciosa dos homens de mãos calejadas. Descarnado, ele cantas de olhos fechados, impressionado apenas consigo mesmo.

Rian Santos

É preciso maldizer. Sem  dó, nem piedade.  Com uma faca entre os dentes. Quando o mundo está de cabeça pra baixo, como agora, as palavras mais necessárias ferem fundo, derrubam ídolos de pedra, ofendem, desmentem.
Morro de preguiça quando um artista engajado abre a boca. Na melhor das hipóteses, ele repete palavras gastas como "luta", "golpe", "revolução". Repete feito papagaio, sem atentar para as razões objetivas do enunciado. Fala pelos cotovelos, coberto das melhores intenções, mas não move uma palha. Seria mais honesto se fazer de morto. Entre as quatro paredes do próprio conforto, o artista engajado descansa o punho erguido nas redes sociais e abana o rabo, contente.
Outros, a exemplo de Paulinho Araújo - O diáfano, nem se dão ao trabalho de esticar o pescoço para fora do próprio umbigo. Pouco lhe importa que 350 mil pessoas tenham parado embaixo da terra, sem direito às cerimônias do adeus. Em release distribuído com o fim de divulgar o lançamento de um single sem graça, o alecrim dourado da música sergipana afirma que a pandemia em curso promove o "despertar de um novo ser".
É de cair o cu da bunda! Neste momento, há 14 milhões de brasileiros desempregados, largados à própria sorte, na Rua da Amargura, abandonados ao Deus Dará. O resultado se vê nos cruzamentos das capitais, em semblantes famélicos. A fome está escrita com todas as letras mal desenhadas, em forma de garranchos sobre o papelão sujo que senhoras de idade, meninos e meninas exibem no sinal fechado. Para quem?
Paulinho Araújo (o marmanjo se apresenta assim, num diminutivo mimado) articula discursos no éter, onde a sua voz anasalada vira pó de estrela antes de reverberar em matéria de gente. Canta para ninguém, perdido nos píncaros egóicos do maior desprendimento. Lá do alto, beato, o artista não reconhece alegrias palpáveis, não distingue a vida dura e, por vezes, deliciosa dos homens de mãos calejadas. Descarnado, ele cantas de olhos fechados, impressionado apenas consigo mesmo.

 


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