"CID SEIXAS: MEMÓRIAS DE LITERATURA PORTUGESA E BAIADADES"

Opinião

 

*Gildeci de Oliveira Leite
Os dias da semana, acredito que posso arriscar. Eram nas terças e quintas-feiras, pela manhã? Não muito cedo! Pegar ônibus cheios, engarrafamento na metrópole baiana sempre foi uma confusão.  Os horários de aulas em minha época de graduação eram ímpares: 07:00 às 09:00; 09: às 11:00, assim por diante, o que dificultava o casamento com aulas de horários pares da Faculdade de Educação, por exemplo. Buscando mais um pouco na memória, parece haver alguma certeza de que as aulas de Literatura Portuguesa I eram às terças-feiras, formando par de horários dois dias depois. O professor em sua primeira aula conosco, chegou pontualmente, trouxe-nos em seus primeiros instantes, após as formalidades da apresentação, um de seus livros: "O trovadorismo galaico-português". Na época, as páginas monocromáticas eram ricamente diagramadas pelo autor em uma edição independente, brochura com espiral de plástico preta, folhas como camisas sociais perfeitamente engomadas. O preço era módico, até para estudantes trabalhadores e periféricos como eu e mais alguns colegas.
A maioria de nós achava uma impostura aparecer com cópias do livro do professor na sala de aula, expor a falta e a indelicadeza na frente dele seria muito feio, embora ele não reclamasse. Há pessoas mais corajosas do que nossas imaginações possam criar. Alguns desavisados perceberam, depois, que a cópia ou a xerox, como chamávamos, com ou sem encadernação ficaria mais cara. Não sei se alguém sorriu com os chistes. O autor deveria ter contatos com empresas gráficas para obter preço melhores, o que nos beneficiou muito. Cid Seixas preferia aulas dialogadas, guardando a medida prudente entre os risos e os deveres docentes, das discussões alimentadas por seus textos, por textos indicados. Às vezes até apresentava uma face um pouco emburrada, especialmente quando alunos e alunos se autodenunciavam em suas não leituras de artigos programados desde aulas anteriores. Entre cantigas amor, amigo, escárnio e maldizer, havia espaço para comparações com aspectos das literaturas brasileira e baiana, especialmente questões sobre Jorge Amado. Os links e hiperlinks eram motivados por nossos diálogos, com eficientes registros à lápis nas bordas da encadernação oficial, em papéis avulsos ou nas mais caras e constrangedoras cópias arrependidas, quantidade quase insignificante. Tenho até hoje o meu exemplar comprado ao autor.
Estava em meu território de deleite, pois se não havia ao menos uma disciplina para discussões sobre literatura baiana, meu professor de Literatura Portuguesa I fazia pontes e fornecia links para alimentar meus estudos amadianos. Até hoje, não há notícias desse componente curricular específico em outra instituição baiana, que não seja a nossa UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Brigamos horrores contra vozes autoritárias, equivocadas, arrogantes para mantermos no conjunto de componentes curriculares obrigatórios "Estudos da Produção Literária Baiana" na UNEB. A bem dizer, somos maioria, nós os que disseram e dizem da necessidade da manutenção do citado componente, mas os adversos são barulhentos e acreditam munir-se de argumentos mais intelectualizados e irrefutáveis. Quem sabe querem eles que aulas de literatura baiana peguem pongas devidamente apropriadas nas aulas de literatura portuguesa. Saberiam eles fazer coisas assim sem parecer desleixos com as ementas?
Na década seguinte, no primeiro semestre de 2001, Cid aceitou ser meu orientador de mestrado. O aceite foi uma das coisas mais naturais, após minha aprovação conversamos por telefone e falamos quase ao mesmo tempo sobre os quereres em comunhão. Logo em seguida, apresentou-me a Guido Guerra, Gilfrancisco, antes e depois a outros pesquisadores, como Francisco Ferreira de Lima, mais tarde meu colega da coirmã UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), por onde Seixas também deixou sua contribuição. Mesmo antes de imposições do isolamento social e da pandemia, Cid já havia aderido, parcialmente, a recursos das tecnologias da informação e da comunicação. Ele possui um blog hospedado na UFBA (Universidade Federal da Bahia), onde fiz a graduação, mas ainda é um pouco resistente a lives e outras formas de comunicação ao vivo pela internet,divide com o amigo Gilfrancisco um pouco da resistência. Talvez o que nos estranhe mais em relação à resistência às lives, é saber que ele já foi apresentador de TV. As auras das câmeras dos estúdios de TV devem ser distintas dos olhinhos das Webcam grudadas em computadores portáteis e smartphones ou daquelas pregadas em monitores de desktops.Acredito, que logo teremos um bate-papo no Canal Universidade da Gente, dilacerando a desconfiança de ambos - Cid e Gil - ao falarem diante de uma Webcam. Enquanto isso vamos à visita ao blog do mestre para aproveitar contribuições de décadas de estudos dedicados à literatura, à cultura. Eu folheio alguns livros de poesias e teorias do mestre.
*Gildeci de Oliveira Leite, escritor, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor da UNEB (Este texto possui uma versão intitulada "Cid Seixas: Memórias e perspectivas" com menos caracteres, encaminhada para o Jornal A Tarde em Salvador - Bahia)

*Gildeci de Oliveira Leite

Os dias da semana, acredito que posso arriscar. Eram nas terças e quintas-feiras, pela manhã? Não muito cedo! Pegar ônibus cheios, engarrafamento na metrópole baiana sempre foi uma confusão.  Os horários de aulas em minha época de graduação eram ímpares: 07:00 às 09:00; 09: às 11:00, assim por diante, o que dificultava o casamento com aulas de horários pares da Faculdade de Educação, por exemplo. Buscando mais um pouco na memória, parece haver alguma certeza de que as aulas de Literatura Portuguesa I eram às terças-feiras, formando par de horários dois dias depois. O professor em sua primeira aula conosco, chegou pontualmente, trouxe-nos em seus primeiros instantes, após as formalidades da apresentação, um de seus livros: "O trovadorismo galaico-português". Na época, as páginas monocromáticas eram ricamente diagramadas pelo autor em uma edição independente, brochura com espiral de plástico preta, folhas como camisas sociais perfeitamente engomadas. O preço era módico, até para estudantes trabalhadores e periféricos como eu e mais alguns colegas.
A maioria de nós achava uma impostura aparecer com cópias do livro do professor na sala de aula, expor a falta e a indelicadeza na frente dele seria muito feio, embora ele não reclamasse. Há pessoas mais corajosas do que nossas imaginações possam criar. Alguns desavisados perceberam, depois, que a cópia ou a xerox, como chamávamos, com ou sem encadernação ficaria mais cara. Não sei se alguém sorriu com os chistes. O autor deveria ter contatos com empresas gráficas para obter preço melhores, o que nos beneficiou muito. Cid Seixas preferia aulas dialogadas, guardando a medida prudente entre os risos e os deveres docentes, das discussões alimentadas por seus textos, por textos indicados. Às vezes até apresentava uma face um pouco emburrada, especialmente quando alunos e alunos se autodenunciavam em suas não leituras de artigos programados desde aulas anteriores. Entre cantigas amor, amigo, escárnio e maldizer, havia espaço para comparações com aspectos das literaturas brasileira e baiana, especialmente questões sobre Jorge Amado. Os links e hiperlinks eram motivados por nossos diálogos, com eficientes registros à lápis nas bordas da encadernação oficial, em papéis avulsos ou nas mais caras e constrangedoras cópias arrependidas, quantidade quase insignificante. Tenho até hoje o meu exemplar comprado ao autor.
Estava em meu território de deleite, pois se não havia ao menos uma disciplina para discussões sobre literatura baiana, meu professor de Literatura Portuguesa I fazia pontes e fornecia links para alimentar meus estudos amadianos. Até hoje, não há notícias desse componente curricular específico em outra instituição baiana, que não seja a nossa UNEB (Universidade do Estado da Bahia). Brigamos horrores contra vozes autoritárias, equivocadas, arrogantes para mantermos no conjunto de componentes curriculares obrigatórios "Estudos da Produção Literária Baiana" na UNEB. A bem dizer, somos maioria, nós os que disseram e dizem da necessidade da manutenção do citado componente, mas os adversos são barulhentos e acreditam munir-se de argumentos mais intelectualizados e irrefutáveis. Quem sabe querem eles que aulas de literatura baiana peguem pongas devidamente apropriadas nas aulas de literatura portuguesa. Saberiam eles fazer coisas assim sem parecer desleixos com as ementas?
Na década seguinte, no primeiro semestre de 2001, Cid aceitou ser meu orientador de mestrado. O aceite foi uma das coisas mais naturais, após minha aprovação conversamos por telefone e falamos quase ao mesmo tempo sobre os quereres em comunhão. Logo em seguida, apresentou-me a Guido Guerra, Gilfrancisco, antes e depois a outros pesquisadores, como Francisco Ferreira de Lima, mais tarde meu colega da coirmã UEFS (Universidade Estadual de Feira de Santana), por onde Seixas também deixou sua contribuição. Mesmo antes de imposições do isolamento social e da pandemia, Cid já havia aderido, parcialmente, a recursos das tecnologias da informação e da comunicação. Ele possui um blog hospedado na UFBA (Universidade Federal da Bahia), onde fiz a graduação, mas ainda é um pouco resistente a lives e outras formas de comunicação ao vivo pela internet,divide com o amigo Gilfrancisco um pouco da resistência. Talvez o que nos estranhe mais em relação à resistência às lives, é saber que ele já foi apresentador de TV. As auras das câmeras dos estúdios de TV devem ser distintas dos olhinhos das Webcam grudadas em computadores portáteis e smartphones ou daquelas pregadas em monitores de desktops.Acredito, que logo teremos um bate-papo no Canal Universidade da Gente, dilacerando a desconfiança de ambos - Cid e Gil - ao falarem diante de uma Webcam. Enquanto isso vamos à visita ao blog do mestre para aproveitar contribuições de décadas de estudos dedicados à literatura, à cultura. Eu folheio alguns livros de poesias e teorias do mestre.

*Gildeci de Oliveira Leite, escritor, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professor da UNEB (Este texto possui uma versão intitulada "Cid Seixas: Memórias e perspectivas" com menos caracteres, encaminhada para o Jornal A Tarde em Salvador - Bahia)

 


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