A solidão dos Professores Públicos Sergipanos

Opinião

 

* Tereza Cristina Cerqueira da Graça
Em 2015, quando estudava o sistema educativo portu
guês estabelecendo comparativos com o Brasil (tese 
de doutorado), publiquei um artigo intitulado "Escola à Vista". Nele, mostrei a transparência da escola portuguesa através dos seus sites na internet, chamando a atenção para a ausência da escola brasileira. Naquela ocasião, somente as escolas do Paraná estavam individualmente na rede mundial de computadores, mas de forma bastante limitada. Hoje, volto aos comparativos num item que, certamente, tem reflexos nessa falta de transparência: a solidão dos professores nas escolas brasileiras, particularmente, na escola pública sergipana - e não se trata apenas dos que estão nas salas de aula, mas também dos que exercem funções administrativas.
O sistema público português se organiza em agrupamentos escolares, onde uma escola grande, geralmente de nível médio, lidera um grupo de 6 a 8 escolas menores: uma relativa ao antigo ginásio, 2 ou 3 do antigo primário e mais 2 da educação infantil. Isto varia de acordo comos municípios e, principalmente, conforme as distâncias físicas entre elas. Há um diretor e um subdiretor, um Conselho Geral, um Conselho Administrativo e os coordenadores gerais de cada uma das unidades; funções exercidas por professores. 
A sociedade e os professores portugueses sabem que o magistério não se basta em si mesmo frente aos enormes desafios da educação pública nas últimas décadas. Por isso, contam com bibliotecários, técnicos em laboratórios, psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, educador social, educador visual, especialistas em educação especial, inclusive terapeutas da fala. Há outros profissionais conforme a orientação curricular, os projetos que desenvolve e o perfil dos alunos que atende. Em cada agrupamento tem um Serviço de Psicologia e Orientação que faz a ponte entre a escola e as famílias, identifica e orienta os problemas psicossociais e de aprendizagem,descobre vocações, dentre outras tarefas essenciais ao bem estar dos estudantes e à melhoria da qualidade do ensino. 
As equipes diretivas contam com coordenador administrativo, coordenador de pessoal auxiliar, tesoureiro, técnicos em informática, auxiliares de ação educativa, além do pessoal de apoio que conhecemos: vigilantes, porteiros, cozinheiro, faxineiros, etc. Aqueles e esses fazem parte do Quadro Não Docente do sistema educativo português. (Decreto-lei n. 184/2004 / Decreto-lei n. 137/2012). Dentro do projeto de autonomia determinado por legislação nacional, as escolas estabelecem parcerias com universidades, museus e outras instituições culturais, empresas, associações profissionais e comunitárias e Câmaras Municipais; instituições que ofertam cursos de formação continuada, como é o caso das universidades, ou contribuem no reaproveitamento dos livros escolares como faz o Movimento Nacional de Bancos de Livros - iniciativa de pais que repercute em todo o país. Tudo isso e muito mais se pode ver num site de qualquer agrupamento escolar. (ex:https://aebemposta.com>//<http://ebspinheiro.net>//https://www.aealexandreherculano.pt)
Sob o argumento de que outros profissionais estavam "invadindo nossa carreira", os professores sergipanos tiraram os chamados 'quadros coadjuvantes do magistério'. De fato, haviam médicos, dentistas, advogados, economistas, contadores e outros profissionais que nada tinham a ver com as funções da escola. Os contadores, por exemplo, atuavam como docentes, pois naquela época a única autonomia financeira que a escola gozava era "Caixa Escolar", quase um 'cofrinho tipo porquinho' onde o diretor juntava as moedas adquiridas em rifas, gincanas, festinhas. Jogamos a água da bacia com o menino dentro, pois psicólogos e assistentes sociais também faziam parte daquele quadro. Ficamos sós!
Hoje, grande parte dos professores reconhece e clama pela ajuda desses últimos e de outros profissionais. O poder público argumenta que eles estão ali, bem pertinho, nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). Alguma escola pública conta efetivamente com esses profissionais? Ah, mas tem também equipes nas secretarias de educação que dão esse suporte! Responde algum burocrata. Será? Será que os problemas e desafios que uma escola pública de periferia enfrenta hoje podem ser minimizados pela atuação ocasional de um assistente social ou de um psicólogo? 
Diretores reclamam por gente especializada em gestão financeira. Alguns chegam a administrar recursos na ordem de meio milhão de reais, num único ano, divididos em diferentes programas federais e estaduais ou municipais. Isto aliado à difícil administração de pessoal e à execução de programas nacionais e locais de ensino-aprendizagem. O resultado são diretores em frequente estado de ansiedade, insegurança, vulnerabilidade; o mesmo acontece com presidentes de colegiados que compartilham algumas dessas responsabilidades. Alguns textos sobre o PDDE e programas estaduais e municipais de repasse de verbas para as escolas começam a refletir sobre esse lado não festejado da 'autonomia escolar". Muitos bons e honestos professores têm rejeitado esses cargos por conta da iminência de responder a processos de malversação de verba pública.
No início deste ano, o governo paulista tentou minorar este quadro, através da Resolução n. 17 de 02/02/2021 que admite a contratação de serviços de contabilidade pelas escolas. Recentemente, a SEDUC de Sergipe criou nas unidades de ensino médio integral a figura do Coordenador Administrativo Financeiro (CAF).Trata-se de um professor, alguns ex-diretores, recrutado mediante processo seletivo, para desempenhar a função. Ao que parece, se tornará, na prática, o contador da escola. Ambas são iniciativas neófitas que ainda não se pode avaliar.
Com mais de três décadas de experiência em gestão, conquistando progressiva autonomia pedagógica, administrativa e financeira, os professores e gestores portugueses têm mais estrada que nós. Além do suporte que vimos acima, eles têm regime de emprego público único com dedicação exclusiva a uma unidade de ensino. Mas, nem por isso, deixam de reclamar; de se sentirem assoberbados. E nós, vamos continuar sozinhos? 
Alguns dizem que brasileiros e portugueses são irmãos. Prefiro amigos, pois entre irmãos há sempre um mais velho a ensinar. Amigo a gente escolhe, partilha erros e acertos, ensina e aprende. O poeta luso Alexandre O'Neill (1924-1986) escreveu: "Amigo é erro corrigido/ Não o erro perseguido, explorado / É verdade partilhada, praticada / Amigo é solidão derrotada!" Para sairmos da solidão não temos que copiar o outro ou segui-lo cegamente, mas conhecer sua experiência sempre ajuda a melhor refletir sobre nós mesmos. Então, podemos atravessar o Atlântico atrás de algumas lições dos amigos portugueses. No século XVI a viagem durava três meses, hoje umas 8 horas. Todavia, o navio ou avião das tecnologias da informação nos deixará à porta de uma escola lusitana em apenas um segundo. É só entrar! 
* Tereza Cristina Cerqueira da Graça, doutora em Educação pela PUCRS. Professora aposentada das redes estadual e municipal e 2ª vice-presidente do IHGSE.

* Tereza Cristina Cerqueira da Graça

Em 2015, quando estudava o sistema educativo portu guês estabelecendo comparativos com o Brasil (tese  de doutorado), publiquei um artigo intitulado "Escola à Vista". Nele, mostrei a transparência da escola portuguesa através dos seus sites na internet, chamando a atenção para a ausência da escola brasileira. Naquela ocasião, somente as escolas do Paraná estavam individualmente na rede mundial de computadores, mas de forma bastante limitada. Hoje, volto aos comparativos num item que, certamente, tem reflexos nessa falta de transparência: a solidão dos professores nas escolas brasileiras, particularmente, na escola pública sergipana - e não se trata apenas dos que estão nas salas de aula, mas também dos que exercem funções administrativas.
O sistema público português se organiza em agrupamentos escolares, onde uma escola grande, geralmente de nível médio, lidera um grupo de 6 a 8 escolas menores: uma relativa ao antigo ginásio, 2 ou 3 do antigo primário e mais 2 da educação infantil. Isto varia de acordo comos municípios e, principalmente, conforme as distâncias físicas entre elas. Há um diretor e um subdiretor, um Conselho Geral, um Conselho Administrativo e os coordenadores gerais de cada uma das unidades; funções exercidas por professores. 
A sociedade e os professores portugueses sabem que o magistério não se basta em si mesmo frente aos enormes desafios da educação pública nas últimas décadas. Por isso, contam com bibliotecários, técnicos em laboratórios, psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, educador social, educador visual, especialistas em educação especial, inclusive terapeutas da fala. Há outros profissionais conforme a orientação curricular, os projetos que desenvolve e o perfil dos alunos que atende. Em cada agrupamento tem um Serviço de Psicologia e Orientação que faz a ponte entre a escola e as famílias, identifica e orienta os problemas psicossociais e de aprendizagem,descobre vocações, dentre outras tarefas essenciais ao bem estar dos estudantes e à melhoria da qualidade do ensino. 
As equipes diretivas contam com coordenador administrativo, coordenador de pessoal auxiliar, tesoureiro, técnicos em informática, auxiliares de ação educativa, além do pessoal de apoio que conhecemos: vigilantes, porteiros, cozinheiro, faxineiros, etc. Aqueles e esses fazem parte do Quadro Não Docente do sistema educativo português. (Decreto-lei n. 184/2004 / Decreto-lei n. 137/2012). Dentro do projeto de autonomia determinado por legislação nacional, as escolas estabelecem parcerias com universidades, museus e outras instituições culturais, empresas, associações profissionais e comunitárias e Câmaras Municipais; instituições que ofertam cursos de formação continuada, como é o caso das universidades, ou contribuem no reaproveitamento dos livros escolares como faz o Movimento Nacional de Bancos de Livros - iniciativa de pais que repercute em todo o país. Tudo isso e muito mais se pode ver num site de qualquer agrupamento escolar. (ex:https://aebemposta.com>//<http://ebspinheiro.net>//https://www.aealexandreherculano.pt)
Sob o argumento de que outros profissionais estavam "invadindo nossa carreira", os professores sergipanos tiraram os chamados 'quadros coadjuvantes do magistério'. De fato, haviam médicos, dentistas, advogados, economistas, contadores e outros profissionais que nada tinham a ver com as funções da escola. Os contadores, por exemplo, atuavam como docentes, pois naquela época a única autonomia financeira que a escola gozava era "Caixa Escolar", quase um 'cofrinho tipo porquinho' onde o diretor juntava as moedas adquiridas em rifas, gincanas, festinhas. Jogamos a água da bacia com o menino dentro, pois psicólogos e assistentes sociais também faziam parte daquele quadro. Ficamos sós!
Hoje, grande parte dos professores reconhece e clama pela ajuda desses últimos e de outros profissionais. O poder público argumenta que eles estão ali, bem pertinho, nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). Alguma escola pública conta efetivamente com esses profissionais? Ah, mas tem também equipes nas secretarias de educação que dão esse suporte! Responde algum burocrata. Será? Será que os problemas e desafios que uma escola pública de periferia enfrenta hoje podem ser minimizados pela atuação ocasional de um assistente social ou de um psicólogo? 
Diretores reclamam por gente especializada em gestão financeira. Alguns chegam a administrar recursos na ordem de meio milhão de reais, num único ano, divididos em diferentes programas federais e estaduais ou municipais. Isto aliado à difícil administração de pessoal e à execução de programas nacionais e locais de ensino-aprendizagem. O resultado são diretores em frequente estado de ansiedade, insegurança, vulnerabilidade; o mesmo acontece com presidentes de colegiados que compartilham algumas dessas responsabilidades. Alguns textos sobre o PDDE e programas estaduais e municipais de repasse de verbas para as escolas começam a refletir sobre esse lado não festejado da 'autonomia escolar". Muitos bons e honestos professores têm rejeitado esses cargos por conta da iminência de responder a processos de malversação de verba pública.
No início deste ano, o governo paulista tentou minorar este quadro, através da Resolução n. 17 de 02/02/2021 que admite a contratação de serviços de contabilidade pelas escolas. Recentemente, a SEDUC de Sergipe criou nas unidades de ensino médio integral a figura do Coordenador Administrativo Financeiro (CAF).Trata-se de um professor, alguns ex-diretores, recrutado mediante processo seletivo, para desempenhar a função. Ao que parece, se tornará, na prática, o contador da escola. Ambas são iniciativas neófitas que ainda não se pode avaliar.
Com mais de três décadas de experiência em gestão, conquistando progressiva autonomia pedagógica, administrativa e financeira, os professores e gestores portugueses têm mais estrada que nós. Além do suporte que vimos acima, eles têm regime de emprego público único com dedicação exclusiva a uma unidade de ensino. Mas, nem por isso, deixam de reclamar; de se sentirem assoberbados. E nós, vamos continuar sozinhos? 
Alguns dizem que brasileiros e portugueses são irmãos. Prefiro amigos, pois entre irmãos há sempre um mais velho a ensinar. Amigo a gente escolhe, partilha erros e acertos, ensina e aprende. O poeta luso Alexandre O'Neill (1924-1986) escreveu: "Amigo é erro corrigido/ Não o erro perseguido, explorado / É verdade partilhada, praticada / Amigo é solidão derrotada!" Para sairmos da solidão não temos que copiar o outro ou segui-lo cegamente, mas conhecer sua experiência sempre ajuda a melhor refletir sobre nós mesmos. Então, podemos atravessar o Atlântico atrás de algumas lições dos amigos portugueses. No século XVI a viagem durava três meses, hoje umas 8 horas. Todavia, o navio ou avião das tecnologias da informação nos deixará à porta de uma escola lusitana em apenas um segundo. É só entrar! 

* Tereza Cristina Cerqueira da Graça, doutora em Educação pela PUCRS. Professora aposentada das redes estadual e municipal e 2ª vice-presidente do IHGSE.

 


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