O adeus de Marcos Roberto

Tenho um senso de navegador para me localizar e força para tornar a içar as velas, vontade para tornar a pegar o vento; e mesmo quando perco a terra e tudo o que amei, as estrelas estão encobertas e estou disposto, sofrendo a dor das perdas – mesmo então, os milagres surgirão em volta para ser celebrados, e eu também hei de celebrá-los. E ainda confiarei que uma nova costa há de se erguer para vir ao meu encontro, e lá, naquele lugar, hei de encontrar coisas novas para amar.

O que mais me preocupava nos últimos dias era a tosse do meu companheiro de quarto, o bom amigo Marcos Roberto. Há algum tempo vinha sendo persistente, até piorando, apesar dos xaropes que Dona Caçula, nossa "mãezona", empurrava pela sua goela abaixo. Quando a situação se agravou, chamamos um médico que, após examiná-lo, disse que era uma infecção nos brônquios, recomendando imediata hospitalização.

Marquinhos nunca foi de reclamar e a gente nunca sabia se ele estava sentindo dores ou não, mas tenho certeza que aquela tosse arrasadora devia ser terrivelmente dolorosa. Tão frequentemente quanto possível eu o visitava no hospital e lia as revistas Cinelândia e Cinemim, para ele, que fazia questão de saber tudo sobre a área a que pertencia, o cinema. Mas quando dormia enquanto lia, eu ficava furioso, pensando: Por que ele não fica acordado e me escuta?

Assim ficou Marquinhos, o meu querido amigo, tão bonito e tão vulnerável, lá deitado, morrendo lentamente. Ainda guardo um sentimento de culpa porque acho que não fiz o suficiente para ajudar o meu amigo naqueles últimos e tristes dias. Me torturo pensando que falhei com ele, realmente me torturo. A gente supera dor física, solidão, desapontamento e desamor, mas a gente nunca consegue superar a dor da perda. Esta dura para sempre.

O que posso dizer de Marcos Roberto? Um ator de pornochanchadas, um homem muito complexo, coração bravo e inventivo, completamente enigmático e mais excêntrico do que qualquer outra pessoa que eu tenha conhecido. Mas também, simplesmente tímido. Não era gay, mas de vez em quando botava roupa de mulher, peruca, sapatos de saltos alto, carregava na maquiagem e saía desfilando pela avenida Nossa Senhora de Copacabana afora, parando na Galeria Alaska (reduto da viadagem ensandecida) para se deleitar com o assédio de componentes de todas as tribos, todos fascinados pela sua beleza sedutora.

Ninguém desconfiava que por trás daquele disfarce se escondia o garanhão de tantos filmes eróticos, Marcos Roberto, o bem dotado, campeão invicto de tantas maratonas sexuais. Ele se divertia com isso e voltava para casa com a certeza de que era um bom ator. Ele tinha necessidade disso, se é que o(a) leitor(a) me entende.
Enfim, eu e o Marcos Roberto, éramos bons amigos, sim. Ele era objetivo, direto, sem rodeios e terrivelmente útil em praticamente qualquer circunstância possível de imaginar.

Deixe-me enfatizar que AMIGO era a palavra exata para definir a nossa relação. Na realidade, Marquinhos nunca me pediu nada. De minha parte, eu não poderia imaginar que chegaria ao extremo de, por exemplo, ser companheiro de elenco de alguma de suas pornochanchadas. Não por preconceito, é claro, mas porque eu queria mesmo era ser uma ator clássico, a nível e Laurence Olivier e conquistar também a minha Vivien Leigh… (Extraído do meu livro de memórias inédito, "Um Estanciano Arteiro no Rio de Janeiro).

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