Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
O coração de Dom Pedro I chegou a Brasília, em cerimônia coberta de pompa. Por algum motivo fugitivo, contam os historiadores, o imperador quis o músculo preservado em formol.
Há um quê de realismo fantástico, nisso de um coração exangue voar sobre os oceanos para ser recebido em país estrangeiro, com as honras devidas a um chefe de Estado, duzentos anos depois de seu último suspiro. Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, só teve imaginação para cem. Trata-se aqui de um acontecimento extraordinário, excepcional.
Vivo, o coração de Dom Pedro decerto bateu forte, alguma vez, tinha lá as suas vontades. Agora, no entanto, já não se anima, não precipita acontecimentos, não reage às pernas das moças, não dá pitaco em matéria de poesia, não sabe nada de política, nem de revoluções. Por que diabos o trouxeram de volta, portanto? Qual a razão de tanta cerimônia, então?
A justificativa oficial faz alusão ao bicentenário da independência do Brasil, proclamada por Dom Pedro, em carne e osso. No peito do imperador, o coração entupido de um nacionalismo viçoso irrigou o corpo e as idéias mais temerárias do sujeito, uma presa fácil das circunstâncias. A emoção mais inflamada corria e suas veias feito um cavalo desgovernado, fustigado por um “tum, tum” insistente, o pulso a galope. Deu no que deu.
O coração de Dom Pedro pousou em Brasília, após vencer o oceano, a bordo de uma caravela de asas metálicas. Está morto, já não bate, nem apanha, entretanto. Dessa vez, os povos originários do lugar, os índios nativos podem dormir em paz.


