Rian Santos
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Os historiadores da Música Popular Brasileira atribuem à Jovem Guarda o status de movimento cultural, com o poder de transformar comportamentos e o mérito indiscutível de introduzir o rock em Terra Brasílis. Eu desconfio de tanta reverência. Se agora me atrevo a recomendar o álbum recém lançado ‘O Futuro Pertence À… Jovem Guarda’, apesar do tom obtuso do projeto, isto se deve exclusivamente à vitalidade inequívoca de Erasmo Carlos – ainda de pé, após bem vividos 80 anos.
Erasmo Carlos encarna ainda hoje uma espécie de Lado B do espírito brazuca. Compositor avesso às metáforas mais elaboradas, jamais fez pose de poeta e mensageiro de verdades alheias ao comum dos mortais. Ao contrário do artista popular consagrado pelo imaginário da brava gente, capaz de enfrentar ditaduras sanguinárias com palavras difíceis e as melhores intenções do mundo, o tremendão sempre fez música para tocar no rádio. E nunca foi perdoado pelo pecado de tanto sucesso.
Aprende-se na escola, nas aulas de história: No primeiro time da MPB, os valentes exilados pela censura e os refinamentos de acento jazzy da Bossa Nova, sexagenária. Erasmo não jogava nem de um lado, nem de outro. Ocupado com o amor de carne e osso e os espinhos da vida real, jamais afetou erudição ou cometeu uma canção panfletária de protesto.
As canções assinadas em parceria com Roberto Carlos, Rei como Elvis Presley, a inspirada carreira solo, dedicada a rocks sem nenhuma firula, sempre se pautou pela comunicação de sentimentos conhecidos de toda a gente, no conteúdo e na forma. As distorções talvez soassem um tanto estranhas para o gosto médio da época, como sugere uma ruidosa passeata contra a guitarra elétrica, mas as baladas sempre acertaram em cheio – um tiro certeiro no coração da claudicante indústria fonográfica tupiniquim.
A apresentação realizada no festival Rec Beat, em pleno carnaval pernambucano, muito antes da pandemia, atesta o acerto da fórmula. Poucos artistas podem sustentar um show inteiro amparado exclusivamente no apelo das canções, como ele fez ali. Firme e forte, apesar da voz pouca e dos cabelos brancos, Erasmo não precisou de piruetas e fantasias para domar a energia selvagem de uma banda formada por meninos ainda em fraldas, fedendo a mijo, nem teve de explicar a sua presença no palco para o prezado público. Bastou abrir a boca. A galera esteve o tempo inteiro na palma de sua mão.


