O FUTURO NEGRO E A ESPERANÇA VERDE

Pela primeira vez na história do jornalismo um veículo de comunicação de Sergipe participa do maior evento mundial da ONU oferecendo aos leitores sergipanos dados, informações, opiniões e conclusões sob a ótica da nossa visão regional. Durante nove dias o Jornal do Dia acompanhou propostas, pronunciamentos, debates e discussões do Rio+20, no Riocentro, e da Cúpula dos Povos, evento paralelo realizado no Aterro do Flamengo.
O Rio+20 custou US$ 200 milhões, reuniu Chefes de Estados, Ministros e representantes de 188 países, 45 mil pessoas e 4.500 jornalistas de todo o mundo e deu ao Rio de Janeiro e ao Brasil uma projeção internacional de dimensões planetárias. Como anfitrião, o país primou pela qualidade da organização, pela liderança das negociações e pela ousadia das proposições progressistas. O evento deve seu nome a ECO 92, também realizada no Rio, quando uma das suas resoluções previa que 20 anos depois todos se reuniriam novamente para analisar os resultados e avançar sobre o futuro.
Já  a Cúpula dos Povos foi organizada por instituições sindicais e populares do Brasil que convidaram suas congêneres de todo mundo para discutir as mesmas questões, ou seja, o Rio+20 foi o parlatório dos que governam o mundo e a Cúpula dos Povos foi o fórum dos que são governados. É claro que as conclusões não foram as mesmas. Enquanto o Rio+20  emitiu um documento final com 48 itens, considerado pelos participantes da Cúpula como "um roteiro falido com falsas soluções defendidas pelos mesmos atores que provocaram a crise global", os participantes do evento oficial, embora fazendo ressalvas as suas próprias resoluções, afirmam que o encontro foi altamente positivo por cumprir o seu objetivo de "formular um plano para que a Humanidade se desenvolvesse de modo a garantir vida digna a todas as pessoas, administrando os recursos naturais para que as gerações futuras não fossem prejudicadas."
O que na verdade esteve em discussão nos dois eventos, por trás das colocações conservacionistas e preservacionistas, é uma questão muito mais séria, radical e importante: o modo de produção e de consumo que a Humanidade escolheu para viver. E a conclusão dos dois simpósios é uma só: escolhemos errado. A maneira pela qual  produzimos nossas riquezas está matando a vida no planeta e a vida das populações mais pobres. O nosso jeito desenfreado de consumir está exaurindo a natureza. O que está risco não é o planeta, ele está aí há 300 bilhões de anos e vai continuar por mais muitos bilhões. Não é mais possível crescer a qualquer preço, desrespeitando o meio ambiente em que vivemos e às custas da miséria da maioria. Por outro lado, não podemos continuar consumindo com tanta voracidade tantas inutilidades.
Os que mandam no mundo acham que a solução é a chamada green economy, a economia verde, ou seja, criar um desenvolvimento sustentável que nada mais é do que continuar o mesmo modo de produção mudando apenas algumas formas de maneira a não comprometer o meio ambiente, como combater a poluição e reciclar os detritos do consumo. Dentro desta visão, o documento final do Rio+20 prevê a redução das isenções de impostos que as nações praticam  nos combustíveis fósseis, não renováveis. O Brasil isenta o diesel de impostos. O documento incentiva a produção de energias renováveis, como o etanol e a energia solar.
O desenvolvimento sustentável custa mais caro do que o desenvolvimento predatório atualmente em vigor, então entra em discussão de quem vai pagar a conta. Para os países desenvolvidos ficar mais rico vai custar mais e, para os países em desenvolvimento, crescer vai ser mais difícil. O Brasil e a China fizeram uma proposta humanitária de se criar um fundo mundial de US$ 30 bilhões anuais para ajudar os países  mais pobres a se desenvolverem com sustentabilidade. A proposta não passou, os países ricos se fizeram de mortos. A Secretária de Estado americana Hilary Clinton fez uma doação risível de US$ 20 milhões para a sustentabilidade dos países da África, o valor é 10% do custo do avião que ela veio, o Air Force Two. Mas, por outro lado, foram aprovadas mais de 700 propostas que implicam em US$ 500 bilhões de investimentos no meio ambiente. O esperado fortalecimento do PNUMA-Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que deveria ser elevado ao status de agência, como a Unicef e a FAO, para frustração geral, não aconteceu.
Os que são mandados no mundo, reunidos na Cúpula dos Povos, subestimam os resultados do Rio+20 e reclamam contra as resoluções que consideram "pouco ambiciosas e sem ações concretas". Cobram a transferência de tecnologias para os países em desenvolvimento e são radicalmente contra a matriz energética atual. Acham que "a economia verde é a expressão financeira do capitalismo" e que não é a solução, mas apenas uma forma de renovação do mesmo sistema. Exigem o respeito pela história e pelos costumes das populações nos processos de desenvolvimento. O documento final da Cúpula dos Povos, ao contrário do documento do Rio+20, tem pontos muito claros, concretos e objetivos que vão desde a garantia do direito dos povos à terra e território urbano e rural até a democratização dos meios de comunicação. O próprio nome do encontro "Cúpula dos Povos na Rio+20 por Justiça Social e Ambiental em Defesa dos Bens Comuns, Contra a Mercantilização da Vida" define bem os objetivos do evento.
O nome do evento oficial era "Rio+20, o futuro que queremos". Quem melhor definiu o  objetivo e o resultado foi quem o presidiu: a Presidenta Dilma Roussef que declarou que "foi um ponto de partida… trouxemos a erradicação da pobreza para o centro do debate do futuro que queremos", coisa que ninguém tinha dito claramente durante os nove dias. Retirando do debate o fogo das paixões, tudo que aconteceu nos dois eventos foi muito importante para  o negro futuro do mundo que agora deposita no verde a esperança de que a espécie humana entenda que mudar suas escolhas é essencial para a continuidade da sua existência no planeta que continuará a existir apesar dela.

zorosantanna@gmail.com

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