O grande administrador do Cineteatro São João – Diógenes Freire Costa

* Carlos Modesto
Todas as vezes que eu passava pelo trecho central da Rua Capitão Salomão, enquanto mantinha-se erguida a fachada do que foi um dia o Cineteatro São João, recordava-me, sempre, de um homem, o inesquecível Diógenes Freire Costa. Um nome que jamais deveria ser apagado da memória dos estancianos, pois ele soube, de uma forma toda especial, dar vida às suas ideias, promovendo o desenvolvimento comercial, filantrópico e cultural da sua terra de berço, ganhando, durante a sua caminhada de vida, o carinho, o respeito e a admiração dos seus conterrâneos.
A altura de um homem mede-se por suas ações grandiosas, perpetuadas pelo roteiro reto de sua vida e, não por uma subida vertical de alguns metros e centímetros da sua escala biológica ou pela posse de bens materiais, que não são sabiamente usados em proveito de outros, não acrescentado nada de positivo durante sua jornada em seu ciclo de vida terreno.
Sou profundo admirador dessa figura extraordinária, pois Diógenes foi responsável direto pelos iniciais conhecimentos que adquiri sobre a Sétima Arte. E, assim, faço-lhe uma justa homenagem nesta matéria, de uma forma bastante pessoal. O talento maior de sua personalidade foi, sem dúvida, utilizado na função de administrador daquele quente e acanhado espaço de entretenimento sedutor, chamado carinhosamente de Cineteatro São João.
Através desse cinema, ele trouxe a Estância as melhores e espetaculares películas já feitas pelos grandes estúdios mundiais. Seus competentes operadores cinematográficos, principalmente Netinho e Benjamim, projetaram para o público estanciano esses filmes maravilhosos, muitos dos quais tornaram-se memoráveis.
Na sala umbrosa de projeção do Cineteatro São João ficou uma parte de minha vida de criança sonhadora, conservando nos recônditos do meu ser os momentos mágicos que mantive pelos anos seguintes, como belas recordações vividas e sentidas nessa casa de diversões.
Se Diógenes tivesse vivido numa grande metrópole, seu talento de exibidor de filmes talvez ombreasse entre aqueles que ficaram mais conhecidos no Brasil, e seu nome, certamente, seria citado nos compêndios cinematográficos.
Diógenes e o mundo do cinema – Em maio de 1927, ainda na fase do cinema mudo (mas a um passo do sonoro), Diógenes inaugura o Cineteatro Ideal, na Casa Inglesa, associado ao então comerciante Prudêncio Cunegundes de Melo. Logo depois, desfaz-se da sociedade do Ideal para comprar o Cineteatro São João, formando a empresa “Freire & Faria, ao lado de Oscar Lima de Faria, seu sócio. Este último logo se afasta e deixa o cinema sob a responsabilidade total de Diógenes.
Mais ou menos na metade da década de 1930, o Cinema Império (o primeiro sonoro da Estância), de propriedade do Sr. Raymundo Nóbrega de Mendonça, é fechado. Seu equipamento sonoro é vendido a Diógenes para ser usado no Cineteatro São João, tornando-se, assim, o único cinema da cidade.
O tempo passa e Diógenes continua mantendo o seu cinema, exibindo o que de melhor poderia ser conseguido em matéria de filmes, nos distribuidores da Bahia. Lê tudo a respeito das produções realizadas na época, nos folhetos publicitários que, geralmente, acompanhavam os filmes, e nas revistas especializadas, Cine Arte e A Cena Muda.
Diógenes era possuidor de uma vocação nata para as artes e comércio. Sem dispor dos recursos da publicidade através do rádio, do carro de som, e do serviço de alto-falantes, a propaganda dos filmes era feita boca a boca, por meio de anúncio nos semanários locais, que eram dominicais, e pela distribuição de folhetos de porta em porta, de rua em rua; aos domingos, principalmente, com acompanhamento de caixas e tambores. Também colocava, em certos pontos da cidade cartazes impressos, fornecidos pelas distribuidoras de filmes. Esses outdoors da época eram montados em armações de madeira. Além disso, Diógenes costumava pintar cartazes, (depois, o operador Benjamim de Souza Alves aprendeu esse ofício com os ensinamentos de Diógenes) em quadros de pano, uns menores e outros bem maiores, como dos filmes, Sangue por glória e O Rei dos reis, ainda no tempo do cinema mudo.
O eclético Diógenes, por algum tempo, dedicou-se à pintura à “crayon”, tendo feito, entre outros quadros, os retratos de José Bonifácio e D. Pedro I, doados ao Grupo Escolar Gumercindo Bessa, ali extraviados antes mesmo da transferência da instituição da Praça Barão de Rio Branco para o novo local. Fez ainda a pintura mais célebre, a do galã mais famoso do cinema, Rodolfo Valentino, exposto na sala de espera do Cineteatro São João, obra esta, que de imediato chamava a atenção (e que muitas vezes admirei) de todos aqueles que lhes punham os olhos, ante sua perfeição. O desenho de Valentino era admirável. Não foi incluído na venda do cinema. Mais tarde, emprestado a um iniciante da arte, esse se foi da Estância sem devolvê-lo e da tela não se teve mais notícias.
No final do ano de 1944, um novo cinema é inaugurado na cidade, o Centro Educativo Gonçalo Prado. Construído pela Companhia Industrial da Estância (Fábrica Santa Cruz), era uma casa de diversão mais moderna, com um preço mais baixo que o São João. Com a concorrência, Diógenes via o seu espaço de entretenimento vazio, enquanto o público fugia em direção da Avenida Santa Cruz para frequentar o recente e luxuoso cinema rival.
Ele tinha que achar uma solução rápida, se quisesse continuar a manter o Cineteatro São João. Era o velho, poeirento, abafado e acanhado cinema versus um cinema novo, confortável, fresco e mais barato. Só tinha uma saída, pensou ele: “exibir superiores filmes!”. Imediatamente partiu para Salvador para tentar conseguir com os distribuidores as excelentes produções dos estúdios mais famosos. Uma luta que só terminou em setembro de 1951, com a venda do Cineteatro São João à Empresa Afonso Cavalcanti, para saldar as dívidas da sua casa comercial. Para ele, era o adeus definitivo que dava ao seu cinema.
Biografia – Filho de Jeremias Freire Costa e Edwirges Freire Costa, Diógenes Freire Costa nasceu em Estância SE, aos 10 de março de 1902, num sobradinho (não mais existente) na Rua Camerino, esquina com a Rua Capitão Francelino – antigo ABC.
Iniciou seus estudos em sua terra natal, no Colégio Americano, de missionários protestantes, no qual começou o namoro com a sua futura esposa Pepita. Levado pelos missionários americanos, foi fazer um curso complementar em Ponte Nova, Bahia, onde, ao mesmo tempo, trabalhava, como os demais alunos, para ajudar a manter a escola. Cerca de dois anos depois, estando de férias na Estância, não mais quis retornar a Ponte Nova.
Logo a seguir, partiu com um tio materno, para trabalhar no comércio de Itabuna, na Bahia, regressando aproximadamente quatro anos depois, quando iniciou a trabalhar para Epaminondas Esteves Lima, tio de sua futura esposa, o qual, após poucos anos, o fez seu sócio. Mais tarde, com o falecimento deste último, comprou a parte da viúva, tornando-se proprietário único da firma, que se localizava no Pernambuquinho, atual Rua Divaldo Costa (um dos seus filhos).
Em 1924, com 22 nos de idade, contraiu núpcias com Nivalda Carvalho Costa (Pepita) de 19 anos, quando passou a residir, em casa própria, posteriormente demolida e em cujo local foi construído o prédio da Padaria de Miguel Santana, na Rua General Pedra (antiga Rua da Baixa). Em 1932, comprou o sobrado do coronel Francisco Martins, na Rua Capitão Salomão n° 34 (hoje o INSS), morando no primeiro andar. Para o térreo transferiu os materiais da antiga loja do Pernambuquinho, instalando ali sua nova empresa.
Comerciante em secos e molhados e de variedades de artigos. Diógenes competia com firmas comerciais tradicionais, como a de João Pompeu, Gileno Rodrigues Carvalho, João Delé, Osmar Freire, Domingos Alves da Silva, José Pinheiro Alvelos e Leopoldo Araújo Souza.
Mesmo com essa concorrência, Diógenes chegou a ser um dos grandes comerciantes da Estância, com sua loja ocupando todo o térreo do seu sobrado e parte do quintal, onde ficavam os depósitos. Além dos fregueses do varejo, havia os de atacado e os comerciantes menores da cidade e dos municípios vizinhos, que se utilizavam, para sua locomoção, de cavalos e burros, como, também, de carros de bois, para o transporte de mercadorias. Seus fregueses guardavam os animais no quintal do sobrado, uma área bem espaçosa que tinha até cocheira. Alguns clientes que vinham de fora, com Diógenes almoçavam, quando não, amarravam os animais nas argolas de ferro que havia no meio-fio da calçada em frente da loja. Era um costume da época. Algumas dessas argolas até certo tempo ainda podiam ser vistas em várias partes da cidade.
No pós-guerra, o comércio modificou-se e ele tentou, talvez tardiamente, usar cacheiros-viajantes, para dinamizar os negócios. Alguns desses representantes eram incompetentes. Outros, sem a devida responsabilidade, terminaram causando-lhes prejuízos. Diógenes não soube acompanhar os novos tempos. Viu, então, pouco a pouco, os seus negócios desmoronarem-se. Homem honrado, e para cumprir seus compromissos, vendeu o Cineteatro São João; mesmo assim, o resultado da transação não evitou o definitivo cerramento das portas da sua casa comercial, já na década de 1950.
Sem recursos, entra para o fabrico de picolés, que exporta para as cidades vizinhas, mantendo uma sorveteria na cidade. Teve, de uma forma incansável e admirável, a ajuda de sua esposa Pepita, já conhecida pela excelência dos seus pratos e licores e que se tornou também exímia no preparo de picolés e sorvetes. Posteriormente, deixou esse ramo e ingressou na produção de sabão, ofício no qual seu pai havia sido um mestre no passado, em sua fábrica instalada na Rua Formosa.
Apesar de possuir um temperamento calado e retraído, foi presidente da Sociedade Musical Lira Carlos Gomes, no período de 1931-32. Teve participação pessoal ativa, física e financeiramente, na construção do campo de futebol do Cruzeiro, clube (atualmente extinto), do qual ele foi tesoureiro. Contribuiu, também, para a construção da sede social. Emprestou os salões do seu sobrado para a realização de um baile, objetivando angariar fundos em prol do clube.
Ele não foi um intelectual, porém, visitava a Livraria e Papelaria Modelo, de João Nascimento Filho, local onde se reuniam os intelectuais da cidade, Diógenes interessava-se pelos acontecimentos nacionais e internacionais e, por isso, lia jornais, revistas e ouvia os noticiários radiofônicos, acompanhando, com muita atenção, o desenrolar da Segunda Guerra Mundial, o que lhe dava contentamento com a oportunidade de conferir seus conhecimentos geográficos.
Protestante presbiteriano, depois de certo tempo, sem abandonar a religião, deixou de frequentar a igreja na qual, aliás, até fazia parte do coral como tenor e sempre recebia e hospedava pastores em sua casa. Nos últimos anos de sua existência, no entanto, passou a procurar a igreja. Sentindo que se despedia da vida, pediu a presença de pastores e orações.
Afastado da família (por razões particulares), faleceu em Aracaju, sendo seu corpo trasladado, para ser sepultado em Estância, no cemitério Nossa Senhora da Piedade, em 25 de julho de 1986. Tinha 84 anos de idade. Deixou viúva D. Pepita e oito dos nove filhos do casal: Diovalda, Dermeval, Dinorah, Dilnah, Divaldo, Dorival, Dione e Denise.
Diógenes Freire Costa será eternamente lembrado na história dos cinemas da Estância, como o mais expressivo exibidor e administrador de cinema que existiu na cidade.
* Carlos Modesto é escritor
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