O luto de quem enfrenta a luta de classes

* Alexandre Machado Rosa

A expressão “assalto aos céus” sintetiza uma das experiências mais extraordinárias e, ao mesmo tempo, mais trágicas da história da luta de classes. A Comuna de Paris de 1871 colocou os trabalhadores parisienses no poder e, durante 72 dias, experimentaram formas radicalmente novas de organização política e social. Algo completamente novo, mesmo se tratando de uma revolução que modificou o mundo, a Revolução Francesa.
A Comuna obrigou Karl Marx a aprofundar sua compreensão sobre o Estado. A experiência demonstrou, na prática, que a classe trabalhadora não poderia simplesmente tomar a máquina estatal burguesa, ocupá-la e fazê-la funcionar em benefício de outros interesses, mesmo sendo interesses da ampla maioria social. Era necessário ir além e romper com aquela estrutura de poder e construir novas formas de poder popular, fundadas na efetiva participação e controles sociais, na revogabilidade dos mandatos e na substituição das instituições da velha ordem por organismos vinculados à própria classe trabalhadora e aos interesses sociais.
Mas a experiência durou pouco e a reação das classes dominantes foi brutal. A burguesia francesa, apoiada pelas forças que se organizaram contra a Comuna, não teve piedade. Vieram os fuzilamentos, as prisões, as deportações e a repressão. Durante a chamada Semana Sangrenta, milhares de homens, mulheres e crianças foram mortos sem piedade. O ódio de classes autorizava a barbárie.
Os que ousaram “assaltar os céus” pagaram um preço extraordinariamente alto. E talvez seja justamente aí que o luto encontre a luta de classes de forma escancarada, mostrando que o capital não se importa em moer a carne das classes trabalhadoras em nome da manutenção da velha ordem.
A morte sempre ocupou um lugar central na experiência humana e na luta de classes. Na mitologia grega, ela aparece como destino inevitável, uma dimensão que nem mesmo os deuses poderiam simplesmente abolir. No México, o Día de los Muertos, celebrado em 1º e 2º de novembro, transforma a memória dos mortos em celebração da vida, estabelecendo uma ponte simbólica entre aqueles que partiram e aqueles que permanecem.
Para os antigos egípcios, a morte não significava necessariamente o fim. Ela era compreendida como uma passagem para outra existência. A preservação do corpo, os rituais e os sarcófagos expressavam a crença de que a vida poderia continuar para além da existência terrena.
Enfim, são diferentes maneiras de responder à mesma pergunta: o que fazemos com os nossos mortos? Mas existe uma outra pergunta, talvez menos explorada: o que fazemos com os mortos produzidos pela luta de classes?
Porque há mortos que a história transforma em números. Há mortos que desaparecem dos livros. Há mortos que recebem monumentos. E há mortos que permanecem vivos na memória daqueles que continuam lutando.
A Comuna de Paris produziu seus próprios mártires. Não apenas porque aproximadamente 25 mil pessoas foram assassinadas em execuções, mas porque suas mortes passaram a representar algo maior do que suas próprias biografias. Eles se tornaram parte de uma memória coletiva sobre a possibilidade, mesmo que breve, contraditória e derrotada, de construir uma nova sociedade.
A derrota da Comuna também destruiu uma antiga ilusão presente em parte do pensamento socialista. A falsa ideia de que o Estado poderia ser compreendido simplesmente como um instrumento neutro, pronto para ser conquistado e colocado a serviço de outra classe. Tal tese só se sustenta como um castelo de cartas, frágil ao primeiro sopro.
A experiência de 1871 mostrou que as instituições do Estado não estão separadas das relações sociais que as sustentam. Marx viu na Comuna uma experiência histórica decisiva. Não uma receita pronta para o futuro, mas uma demonstração concreta de que a emancipação dos trabalhadores exigiria mais do que a simples ocupação das estruturas existentes. Era preciso transformá-las profundamente. Seria preciso quebrar a velha máquina de dominação por dentro. Destruindo suas engrenagens. Em síntese, era preciso criar outras formas de poder. E, talvez, seja por isso que o luto de quem enfrenta a luta de classes seja diferente. Porque lutar por uma transformação social significa conviver permanentemente com a memória daqueles que ficaram pelo caminho.
O luto, nesse sentido, não é apenas uma experiência privada. Pode também ser memória política. Lembrar os mortos da Comuna é lembrar que houve homens e mulheres que acreditaram ser possível mudar o mundo.
Lembrar os mortos das lutas populares é reconhecer que direitos que hoje parecem naturais foram, muitas vezes, conquistados por pessoas que não chegaram a desfrutá-los. Lembrar é também impedir que a morte seja utilizada como instrumento de apagamento.
Talvez o verdadeiro “assalto aos céus” esteja justamente aí. Não na ilusão de que a história é linear ou de que as revoluções são inevitavelmente vitoriosas. Mas na coragem de tentar. E na responsabilidade de lembrar aqueles que tentaram antes de nós.
Porque quem enfrenta a luta de classes aprende, cedo ou tarde, que também precisa aprender a conviver com o luto.
Lutar é também lembrar. E lembrar é uma forma de não deixar que os mortos sejam derrotados uma segunda vez. Lejeune Mirhan, sua luta continua.

* Alexandre Machado Rosa é professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e doutor em Saúde Coletiva.

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