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O ocaso do PSDB


Publicado em 24 de novembro de 2021
Por Jornal Do Dia


* Wellington Duarte

Quando foi formado o Movimento de Unidade Progressista (MUP), dentro do então Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), que vencera com autoridade o pleito geral (menos presidente) em novembro de 1986, elegendo 260 dos 486 deputados; 38 das 49 cadeiras em disputa pelo Senado; e vencendo o pleito nos governos estaduais em 22 dos 23 estados em disputa, a grande questão era : por que esse movimento floresceu dentro de um partido tão poderoso, que muitos chamavam de “a nova Arena”, em lembrança ao período em que o BraZil tinha 2 partidos, tal era o poderio pemedebista.

Mas o MUP nascia criticando a guinada à direita do PMDB, que absorvera quadros do Partido da Democracia Social, PDS, sucedâneo direto da Arena, e do Partido da Frente Liberal, PFL, uma costela conservadora dissidente do PDS, que formara a Aliança Democrática com o PMDB, para garantir a eleição indireta de Tancredo Neves, um conservador mineiro, que nunca chegou a exercer o mandato, vindo a falecer e o seu vice, José Sarney, um “coronel” maranhense, que tivera a clareza do ocaso da Ditadura, bandeou-se para o PMDB, passando a ser a face conservadora dessa grande federação democrática.

O grande articulador, o então senador por São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, junto com figuras de centro, como o governador Franco Montoro, decidiram em outubro de 1987 formar o Partido da Social-Democracia Brasileira, PSDB, revelando sua pretensão em tornar-se o herdeiro da velha social-democracia europeia, que, dentro do capitalismo, propunha políticas de bem-estar social. O partido foi oficialmente criado em junho de 1988 e entre os seus signatários encontramos Bresser Pereira, Geraldo Alckmin, Afonso Arinos de Melo Franco, Artur da Távola, José Serra e…Renan Calheiros. Nasceu com 39 deputados federais e 9 senadores (coisas de Pindorama!).

Partido que nascera como sendo de centro-esquerda, no seu primeiro embate, as eleições presidenciais de 1989, viu seu candidato, Mario Covas, recolher 7,8 milhões de votos (11,5% dos votos válidos), mas foi suplantado por Leonel Brizola (16,5%), Lula (17,2%) e o “caçador de marajás”, Fernando Collor (30,5%). No segundo turno o PSDB apoiou Lula e consolidou como um partido efetivamente de centro-esquerda.

Não deixa de ser melancólico, um partido que nasceu para ser implementador da social-democracia no BraZil, esteja agora, passados 33 anos desde a sua fundação, numa situação que beira ao cômico, com candidatos se estapeando publicamente e produzindo uma eleição interna que daria muito material para os Irmãos Marx produzirem uma comédia pastelão.

Não cabe nesse artigo fazer uma análise mais profunda sobre a decadência do PSDB, pois existem muitos fatores a serem elencados, mas observado seu desempenho eleitoral para a Câmara de Deputados, desde que foi criado, é claramente decadente e o seu ápice foi quando da eleição de 1994, montada numa peça publicitária imbatível do Plano Real, quando chegou a 107 deputados (de 503). De 1994 até 2014, o PSDB foi caindo nas votações, mas mantendo-se como um dos principais partidos do país, até a hecatombe eleitoral de 2018, quando foi empurrado para a soleira da porta do poder parlamentar, elegendo apenas 29 deputados.

Podemos dizer que a trajetória eleitoral decadente do PSDB se inicia com sua guinada à direita, ao aliar-se com o PFL, em 1994, uma aliança duradoura, diga-se de passagem, que nunca foi bem digerida pelas lideranças de centro-esquerda mais afinadas com a social-democracia. Montoro faleceu em 1999 e Mario Covas, em 2001, deixando um espaço logo preenchido por FHC, Serra e Alckmin, que redesenharam o PSDB, tornando-o, na prática, um partido de centro com muitos flertes à direita, e com um discurso cada vez mais antipetista, principalmente devido às disputas em São Paulo.

As derrotas de Serra em 2002, quando obteve 23,2% de votos no primeiro turno e 38,7% no segundo turno, batido por Lula (46,4% e 61,3%); de Alckmin em 2006 (41,6% e 39,2%), também derrotado por Lula (48,6% e 60,8%); novamente de Serra em 2010 (32,6% e 43,9%), dessa vez perdendo para Dilma Rousseff (46,9% e 56,1%), fizeram emergir lideranças jovens, como a do governador de Minas, Aécio Neves, que não tinha nenhuma relação com o pensamento social-democrático, sendo mais afeito ao pensamento pragmático do pensamento conservador mineiro e que levou o PSDB a um furiosa campanha em 2014, quando todas as cartas foram jogadas na sua candidatura e que foi derrotada (33,6% e 48,4%) novamente por Dilma (41,2% e 51,6%).

Nesse momento, a feição do PSDB passa a ser de partido do conluio. O PSDB chegava ao seu fundo do poço, tratando de articular a derrubada de Dilma Rousseff, sendo um dos pilares do Golpe de 2016, ano em que João Dória, considerado um “arrivista” por membros históricos do PSDB, toma o partido em São Paulo e se torna sua principal liderança. Dória, declaradamente de direita, encaminha o PSDB cada vez mais para o conservadorismo, o que o levou à catástrofe de 2018, quando Alckmin enterrou o PSDB, ao receber pífios 4,8% dos votos e a bancada caiu para menos de 30 deputados.

O PSDB não tem força política para ser a tão propalada “terceira via”. Perdeu o “bonde”. Se antes tinha a pretensão de competir com Ciro Gomes, agora vê a elite “eleger” Sérgio Moro, como seu “limpinho e cheiroso”, deixando para trás um PSDB que se tornou, de fato, um grande “MDB” conservador. Talvez historicamente o PSDB tenha chegado ao seu fim, mas a história não é linear e pode ser que, um dia, o PSDB retorne ao seu leito natural, mas sinceramente acho que seu tempo passou.

* Wellington Duarte, professor do Departamento de Economia da Universidade Federal do Rio Gande do Norte – UFRN, doutor em Ciência Política e presidente do Sindicato dos Professores da UFRN (ADURN-sindicato)

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