* Lelê Teles
"O que você vê quando se vê no espelho?", perguntou-me o mestre Cafuna.
Asé, saudou-me o velho ifá assim que adentrei, descalço, na tenda da cafunagem.
Mestre Cafuna colocou o samovar no fogareiro, inclinou-se e soprou as brasas rubras.
Em seguida, deitou-se em seu pontiagudo catre de pregos; magro como um faquir e leve como o vento.
Eu me estendi na maca de bambu ao seu lado e, em silêncio ficamos, até a água fervilhar.
Lá fora, o sol preparava-se para descansar, espreguiçando seus longos braços em raios multicoloridos que abraçavam as nuvens.
Um delicioso cheiro de terra molhada invadia os alvos e diáfanos tecidos da tenda, revelando que chovia não muito longe dali.
Ao fim, o velho ergueu-se e, de forma reverente, despejou o líquido fervilhante nas duas xícaras, preparando a infusão; ato contínuo, exalou um fragrante aroma de raízes, ervas, folhas e flores maceradas.
Sentamos diante um do outro e, em lótus, meditamos a sorver o líquido tórrido.
Mestre Cafuna trajava, como sempre, uma túnica alvíssima, dela emergia o pescoço negro, a cara negra, cabelos e barbas encanecidos.
O sorriso era leve, nunca gargalhão, e os olhos luziam uma energia tranquilizadora. Tudo ali era paz.
Eu preparava meu espírito para os festejos do kwanzaa, por isso fui em busca do mestre dos mestres.
Enfim, voltei a deitar-me no leito de bambu e o velho cobriu-me os olhos com duas postas de gengibre, mergulhando-me na escuridão.
Então, ele enfiou os dedos longos por entre os meus cachos e afagou-me a cabeça, num delicioso e profilático cafuné.
O exercício de relaxamento durava 25 minutos.
Enquanto cafunava-me, ele murmurava, mugindo, um monótono é mágico mantra; tântricamente.
"O que você vê quando se vê no espelho?", perguntou-me, depois de cafunar.
Ainda deitado e de olhos vendados pelas raízes, pensei nas pessoas que veem cravos, espinhas, rugas, cabelos brancos, adiposidade e toda sorte de negatividades que atribuem a si mesmas.
"Eu vejo Deus", respondi.
"Humhum… é o que vê oxum quando se depara com sua imagem", disse o sapientíssimo ancião, satisfeito com a minha resposta.
Creem, alguns, que o único propósito do espelho de oxum é satisfazer sua vaidade.
Se isso fosse verdade, a deusa seria escrava da sua beleza e mergulharia dentro de si, como narciso, aprisionando-se para sempre no reflexo que a refletia, sem refletir sobre si mesma.
Mas o que oxum via no espelho que ela via, era a divindade que havia nela e que a via.
Mãe oxum carrega sempre consigo o espelho para não se perder de vista.
Quando se olha de frente, enxerga toda a ancestralidade que há por trás dela.
Por que relato essa minha consulta ao criador do cafunismo? Porque estamos a encerrar um ano horrendo para todos nós e é preciso começar o novo ano livrando-se de toxidades, negatividades e elevando a autoestima.
É hora de olhar-se menos com olhar do outro e passar a ver a si mesmo; ver-se como és: imagem e semelhança da divindade, essa é a verdade!
Se você se olhar no espelho buscando em si mesmo uma alteridade, como se procurasse um outro em si, reificando-se como um objeto abjeto projetado pelos outros, negando quem você é e como você está, estará caindo numa armadilha perigosa.
Seu espírito projeta o que você pensa, você é aquilo que você vê em você mesmo.
Se, há séculos, estão a maldizer a cor da tua pele, o teu cabelo, o teu nariz e os teus lábios e, ao se deparar consigo no espelho, é isso que você enxerga, você é um prisioneiro.
Eles sabem que o espelho pode ser uma ferramenta libertadora ou um armadilha poderosa.
Não se esqueça que, na antiguidade, o grande arquimedes usou um gigantesco espelho catóptrico como uma arma, para irradiar fogo contra os navios que tentavam invadir a antiga ilha da sicília.
Foi o espelho quem matou a medusa e não a adaga de Kadmo.
A horrenda górgona não suportou olhar para si mesma e petrificou-se.
Antigas e importantes civilizações como a chinesa, a grega, a egípcia e a asteca faziam uso de espelhos nas mais variadas acepções: mágicas, religiosas, astronômicas etc.
Lembra-te que os hemisférios do teu cérebro é uma dualidade, não uma dicotomia, e que o teu corpo, na sua parte exterior, é todo espelhado: o que tem no direito, tem no esquerdo.
os mitificadores contam-nos a história de vampiros que, sendo eles entidades sem alma, não se viam refletidos em espelho.
O que justificaria o espelho como a janela da tua alma.
É claro que trata-se de uma metáfora, senão tratar-se-ia de uma fuleiragem, uma vez que aquelas vampirescas criaturas sem alma, deveriam ser corporificação de coisa etérea e, não, puramente matéria.
O espelho há muito é usado como uma armadilha para reprimir as meninas que, tornando-as obsessivas por retocar qualquer sinal de defeito ou imperfeição, lastimam-se diante da própria imagem… ou afogam-se nela, narcisicamente.
Quando, no conto de fadas, a rainha má perguntava ao seu espelho se havia no mundo alguém mais linda do que ela, e a resposta era que a beleza estava em uma mulher branca como a neve, imagino que isso deva ser especialmente cruel para as meninas negras.
Seja como for, veja a beleza e a grandeza que há em você, projeta em ti a imagem da realeza dos ancestrais que te protegem por trás.
Teu espírito emana o que você enxerga, você é o que você vê, o que você crê.
Saiba que a selfie é o anti self, porque é uma imagem que você projeta pensando em como quer ser visto e não em como se vê.
ê grande, espírito livre, e livra-te de todo o mal.
Amei.
E em 2020, vê se se enxerga.
Saravá.
* Lelê Teles é jornalista, publicitário e roteirista

