* Anderson Bruno
Sempre achei que o segredo de um bom filme está no seu roteiro. Na história que nos é contada. Afinal, é através da narrativa literária que somos embalados a acompanhar durante uma hora, duas horas ou até mais que isso, a jornada de suas personagens, seus dilemas, seus dramas, alegrias, e conflitos. "Philomena" (Reino Unido, Stephen Frears, 2013, 95 min) constrói com simplicidade e envolvente cadência um roteiro inspirado em acontecimentos reais.
Escrito por Steve Coogan e Jeff Pope, a partir do livro "O Filho Perdido de Philomena Lee" de Martin Smith, o roteiro da produção consegue desenvolver seu enredo cinematográfico envolvendo-nos na história da mulher que dá título ao filme. Amparado pela direção adulta, competente e direta de Stephen Frears, o longa-metragem possui outro trunfo para ser tão bom: Dame Judi Dench. Numa simples e poderosa interpretação, é dela a incumbência em nos transportar na biografia desta mulher. A edição de Valerio Bonelli intercala acontecimentos narrados por flash back perpassados há 50 anos.
A fotografia de Robbie Ryan enfatiza essa viagem no tempo por um simples (mas de impacto visual ativo) efeito granulado na tela. A opção pelo preto e branco foi deixada de lado. Essas imagens revelam Philomena envolta em seu drama junto ao seu recém-nascido, num convento instalado na Irlanda. A partir daí, tem-se todo o pano de fundo – de suma importância para os conflitos do filme – emoldurado dentro da hipocrisia humana versus espiritualidade cristã.
As instalações religiosas seriam o último lugar a se pensar no crime de tráfico de bebês. De certa forma, a produção acaba por se transformar numa espécie de ‘filme denúncia’ contra abusos realizados pela Igreja Católica e suas graves consequências. O contra ponto a essa discussão está no papel de Steve Coogan (também roteirista e produtor desse petardo). Seu personagem Martin (o próprio escritor do livro que deu origem ao filme), um jornalista gente fina – porém de personalidade egocêntrica e de humor ironicamente ácido – é o responsável pelo puxar da outra ponta da corda estirada por Philomena.
A mediação de forças tem como pilar central os dogmas católicos para sua base discursiva. Enquanto ela mantém sua fé inabalável – mesmo num sofrimento de 50 anos originado justamente por representantes diretos da Igreja – ele se mantém no patamar de ateu que não entende a não revolta desta mulher mediante seu drama de vida.
É interessante observar essa dobradinha pela consistência discursiva do roteiro e pela química do casal central. A dupla de intérpretes ajuda com seu profissionalismo a tornar interessante a jornada dessa Senhora pela verdade sem deixar que, em nenhum momento, seu texto fílmico fique apelativo (liturgia, sexo e homossexualidade são bases do flime). A consistência de sua narrativa nos faz pensar de forma analítica e crítica a – assim como no filme – arranjar ou não culpados. Julgá-los ou não. É o próprio livre arbítrio dramatizado.
"Philomena" está aí para provar que o verdadeiro espetáculo do cinema está em nos conduzir simplesmente através de uma boa história. A junção de forças como a direção, os atores e outras funções organizadas de maneira séria, coerente e competente apenas ajudam a lapidar um bruto diamante para que ele brilhe na tela grande e encha nossos olhos com sua beleza.
Que o diga os closes fotografados na senil Judi Dench. Seu brilho dramático beira a perfeição.
* Anderson Bruno é crítico audiovisual.


