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A REVOLUÇÃO VERDE NÃO RESISTE AO FUTURO: OS AGROQUÍMICOS


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Publicado em 08 de julho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


* Clayton Campagnolla e Manoel Moacir Costa Macêdo

O uso inadequado de agrotóxicos produz efeitos indesejáveis à saúde dos trabalhadores rurais, deixa resíduos em alimentos e nos solos, induz a resistência de pragas, patógenos, plantas invasoras e o surgimento de novas pragas e doenças. Outra relevante externalidade é a perda de organismos benéficos, a exemplo dos predadores naturais de pragas, polinizadores e microorganismos do solo nos locais de produção agropecuária.O uso de agrotóxicos combinado com a devastação dos habitats naturais reduz a habilidade dos agroecossistemas em manter o funcionamento adequado dos ciclos da natureza gerando desequilíbrios. Tais fatos associados à prática de monocultivos contribuem para a ocorrência mais frequente de pragas, doenças, plantas invasoras e a dependência dos agrotóxicos.
Estão disponíveis no mercado brasileiro em torno de 2.600 agrotóxicos formulados e registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), responsável pela análise da eficiência dos agrotóxicos no controle de pragas, doenças e plantas invasoras. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) posiciona cada produto por classe toxicológica em acordo com a periculosidade e riscos de seu uso na saúde humana. O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (IBAMA) classifica os agrotóxicos pelo potencial de danos ao meio ambiente. Constata-se um aumento de novos registros no período de 2017 a março de 2021, com 1.069 novos agrotóxicos disponibilizados aos produtores, isso representa 40% do total registrado. Quanto à classificação ambiental, 82% dos agrotóxicos pertencem às categorias de “produto altamente perigoso”, “produto muito perigoso” e “produto perigoso ao meio ambiente”.
Até 2018, entre 40e 50% dos produtos registrados anualmente pertenciam às classes “extremamente e altamente tóxicos”. Em 2019, uma nova classificação toxicológica, reduziu este grupo a 34% do total registrado. Em 2020, cerca de 50% dos registros classificou os agrotóxicos em uma nova categoria: “improvável de causar dano agudo”. Esta categoria considera que esses agrotóxicos não provocam a morte das pessoas ao tocar, inalar ou ingerir o produto, embora ofereçam riscos graves de intoxicação e até cegueira e lesões graves na pele. Com a nova classificação, as duas categorias mais altas de toxicidade, extremamente e altamente tóxicos, que abrangiam cerca de 50% dos agrotóxicos, agora abrangem apenas 6,2% desses produtos.
O uso de fertilizantes sintéticos tem a função de melhorar e manter a fertilidade dos solos para o aumento da produtividade das lavouras. Eles seguiram uma curva crescente de utilização, com aumento de quatro vezes no período de 1996 a 2016. O Brasil é o quarto consumidor mundial de fertilizantes, atrás da China, Índia e Estados Unidos. A produção de grãos é responsável por 70% de seu consumo. Em 2018, as chamadas commodities agrícolas, a exemplo da soja, consumiu 44% do total de fertilizantes, seguida do milho, com 17% do consumo. O uso intensivo de fertilizantes sintéticos pode alterar os efeitos dos microorgaismos benéficos ao solo e poluir os mananciais comprometendo a qualidade das águas. Além disso, são produtos finitos dependentes de recursos naturais para sua produção, como é o caso do fósforo e do potássio, cujos fertilizantes são produzidos a partir de rochas na natureza.
A degradação dos solos também ocorre pelo monocultivo e práticas inadequadas de manejo da produção. Ao contrário do que ocorre em países do hemisfério Norte, no Brasil, 95% do rebanho bovino é criado em pastagens. O excesso de lotação de animais e o manejo inadequado dos pastos resultam na degradação. Em 2017, de 158 milhões de hectares de pastagens, 58 milhões, ou seja 37% do total, estavam com algum grau de degradação.
Algumas reflexões merecem atenção no contexto da modernização da agricultura brasileira. A Revolução Verde é sustentável mesmo com os avanços tecnológicos recentes? Qual o limite de produtividade dos cultivos vis-à-vis os custos ambientais? Como incorporar de modo integrado os desafios ambientais, o desemprego e os impactos à saúde, inclusive na nutrição, e a produção agropecuária? Como promover o equilíbrio entre produção para exportação e para oferta de alimentos saudáveis ao mercado interno?
Muitas questões carecem de respostas e encaminhamentos. Elas irão exigir mudanças estruturais nos sistemas de produção agropecuário com o suporte de políticas públicas para este fim. Outro modo de produzir é possível, com restrições ao uso de pacotes tecnológicos intensivos em agroquímicos, e com possibilidades apropriadas a cada local do sistema produtivo.

* Clayton Campagnolla e Manoel Moacir Costa Macêdo são engenheiros agrônomos e respectivamente ex-presidente da EMBRAPA e ex-dirigente de Unidades Descentralizadas e Central da EMBRAPA.

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