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A volta das quadrilhas juninas


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Publicado em 10 de junho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Gilson Sousa

Foi dada a largada para a temporada de apresentações das quadrilhas juninas de Sergipe em 2022. Os principais grupos passaram os últimos meses mergulhados em exaustivos ensaios, tentando recuperar o fôlego após dois anos parados por conta da pandemia do coronavírus no mundo. Os concursos estão de volta e com eles o retrato do que representa a quadrilha junina na atualidade. A dicotomia Tradição X Estilização está mais presente do que nunca. Assim como, infelizmente, a notória redução no número de grupos no território sergipano.
Houve época, nos anos 1980 e 1990, em que a Liga de Quadrilhas Juninas registrava mais de 200 grupos organizados de brincantes dos festejos juninos em Sergipe. Hoje, esse número gira em torno de 40, sendo que a grande maioria deles está no interior do estado. E por qual motivo isso acontece? Como pode uma manifestação cultural tão autêntica e tão admirada em nossa região se definhar tanto? As respostas variam entre a falta de apoio concreto do poder público, o desinteresse das pessoas e, também, a inversão de valores na produção cultural midiática observada em todo o país. Essa junção de fatores negativos ajuda a aniquilar uma tradição no meio social.
A história registra que a quadrilha junina Século XX (foto), formada numa comunidade do bairro Industrial, zona Norte de Aracaju, é a mais antiga do estado em atividade. Fundada em 1964, agora em 2022 ela completou em março 58 anos ininterruptos de atividades. No cenário nacional, a sergipana Século XX é a quarta mais antiga. A mais experiente de todas é a quadrilha junina Lajedo Seco, de João Pessoa (PB), que tem 76 anos de existência; a segunda é a Quadrilha do Sampaio, do Rio de Janeiro (RJ), com 66 anos de existência; a terceira é a quadrilha junina Rainha da Juventude, de Belém (PA), com 57 anos de atividades. Todas elas, é claro, adaptadas à modernidade dos festejos juninos.
Importante ressaltar que em Sergipe a estilização, mesmo que de forma incipiente, começou com a quadrilha junina bicampeã brasileira, a Chapéu de Couro, do inesquecível marcador Cardosinho. Já no início dos anos 1990, a Chapéu de Couro padronizou os trajes dos cavalheiros e damas com a temática do vaqueiro. E isso, jamais, significa dizer que esse grupo pertencia à classe dos estilizados. Pelo contrário, pois era um dos maiores defensores do tradicionalismo, principalmente n que diz respeito às partes da dança junina. No entanto, até então, outras quadrilhas de grande porte em Sergipe, como Arrastapé, Unidos em São João, Século XX, Maracangaia, Forrobodó, Forró da Maranhão, Ciganinha, não tinham aderido a tal novidade nos trajes. As vestimentas de matuto ainda predominavam na maioria dos grupos.
Hoje, muitas das quadrilhas optam pela estilização, principalmente nas disputas dos concursos. A exigência de tema (enredo), cenários, figurinos, repertório musical que muitas vezes despreza a música raiz nordestina, ajuda a desfazer uma imagem construída na tradição das festas juninas. O auge desse processo se dá até hoje com a quadrilha Unidos em Asa Branca, um grupo que impressiona tanto pela grandiosidade no número de componentes levados aos espetáculos, quanto pela descaracterização gritante dos passos juninos em suas coreografias. Ciente disso, com justiça, a Unidos até mudou sua razão social para Grupo Cênico, e não mais quadrilha junina. É uma evolução num cenário cultural tão diverso e encantador.
Todavia, independentemente do estilo do grupo, é preciso dizer que quem apenas aprecia os espetáculos não faz ideia do trabalho e muito menos do custo financeiro empreendido para que uma quadrilha junina de grande porte se apresente diante do público. Centenas de reias são gastos ao longo do trajeto. Uma produção que envolve o trabalho remunerado de diversas costureiras, artesãos, coreógrafos, músicos, auxiliares, motoristas, além de armarinhos e outros pontos comerciais. E isso, quase sempre, é bancado pelo bolso dos próprios componentes da quadrilha. A exceção foi justamente no período de pandemia, no qual a providencial ajuda da Lei Aldir Blanc (recursos garantidos pelo Congresso Nacional, contra a vontade do atual presidente da República), tirou as quadrilhas do sufoco. Houve também uma ajuda financeira vinda através de emendas parlamentares de alguns poucos deputados estaduais sensíveis à causa cultural.
Ainda sobre ajuda, em 2019 a Câmara de Vereadores de Aracaju aprovou uma emenda ao Orçamento garantindo recursos para as quadrilhas juninas, mas infelizmente foi barrada pelo atual prefeito da cidade. Portanto, nesse emaranhado de problemas e soluções, os resistentes grupos juninos vão dando prosseguimento à tradição dos festejos, muito mais por conta da abnegação dos integrantes, até que chegue o dia em que o respeito e a valorização sejam a tônica do movimento cultural. Caso contrário, as portas estarão abertas para o desaparecimento daquilo que um dia chamamos de Quadrilha Junina.

Gilson Sousa, jornalista e pesquisador da cultura popular; Mestre em Comunicação pela UFS.

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