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Caso XP lembra que censurar pesquisas é velho costume das ditaduras


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Publicado em 10 de junho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Paulo Moreira Leite

“Esforço bolsonarista para vetar pesquisa positiva para Lula não pode ser minimizado. Ditadura nasceu censurando pesquisas sobre Goulart”

Sabemos que o golpe de 31 de março de 1964 marcou uma mudança histórica de consequências terríveis e duradouras, com reflexos importantes em nossa vida pública, na economia e no comportamento da população.
Embora tenha perseguido e assassinado adversários ao longo de seus 21 anos de existência, inclusive no exterior, o regime nasceu acompanhado por uma fantasia ideológica conhecida– a ficção de que viera defender a democracia e a liberdade, que estariam sob ameaça do governo Goulart e seus aliados.
Essa fantasia ajuda a sustentar a lenda de que os tanques e fuzis, a cadeira de dragão e o pau de arara que logo se revelaram instrumentos de trabalho do novo regime não produziam atos criminosos, mas contavam com apoio da população, ladainha que chegou aos dias atuais pelos alto-falantes do governo Bolsonaro.
Em audiência no mesmo Congresso onde a deposição de Goulart fora consumada com meio século de antecedência, o então chanceler Ernesto Araújo declarou que o golpe fora necessário para “impedir que o país se transformasse numa ditadura”.
Já o ministro da Educação Velez Rodrigues declarou ao Valor Econômico que “o 31 de março foi uma decisão soberana da sociedade brasileira”. Evitando chamar as coisas pelo seu nome, o ministro da Educação de Bolsonaro chegou a definir a ditadura como um “regime democrático de força” e anunciou um projeto para que os “livros didáticos sejam progressivamente alterados para que nossas crianças conheçam a verdadeira história do Brasil”.
Sabemos que a verdade tinha outras cores e nomes e que o projeto de reescrever a história talvez esteja derrotado para sempre — quem sabe por um longo período, ao menos.
A verdade é que o governo Goulart era aprovado por 42% da população. (A título de comparação, Bolsonaro não passa de 25% de aprovação no Data Folha).
As chamadas reformas de base também contavam com respaldo importante, confirmado inclusive pelas primeiras eleições pós-regime, em 1965, favoráveis a candidatos de oposição, inclusive no Rio de Janeiro, berço civil do golpe.
Sem negar que a ditadura tenha nascido com apoio da classe média, do empresariado paulista e de setores da Igreja Católica, cabe recordar um ponto crucial da formação de nossa memória. Esses levantamentos foram mantidos por décadas sob censura, até que, décadas mais tarde, acabaram oram descobertos nos arquivos Edgard Leuenroth, da Universidade de Campinas. Esses papéis — alguns com dados datilografados à máquina — ajudam a mostrar que a versão ufanista do apoio da população ao golpe “beira o absurdo completo”, escreveu Oswaldo B. do Amaral no El País. (7/4/2019).
Por um longo período, contudo, em vez de fatos os meios de comunicação imprimiam as lendas convenientes.
Sabemos que as eleições são eventos de massa, que mobilizam parcelas imensas da sociedade, dividem as forças que dirigem o sistema político e disputam o comando do Estado.
A importância óbvia das pesquisas reside aqui. Elas alimentam o cálculo político, pavimentam alianças, podem estimular a mobilização dos anunciados vencedores e gerar desânimo nas fileiras derrotadas. Seu valor informativo é evidente, o peso político é inegável.
Por essa razão, as pesquisas são regulamentadas em lei e devem ser realizadas conforme regras conhecidas de todos. Se a divulgação de um número forjado é um ato criminoso, a sonegação de um fato relevante é só a outra face da mesma moeda.
Ao suspender um levantamento que, conforme a Folha de S. Paulo, anunciava um nova diferença a favor de Lula, a XP fez um jogo que só interessa às forças sem compromisso real com a democracia. É um mau presságio para a reta final de uma lição que pode mudar a história do país.
Alguma dúvida?

Paulo Moreira Leite é colunista do 247, ocupou postos executivos na VEJA e na Época, foi correspondente na França e nos EUA

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