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Chiquinho e a (in)visibilidade dos pobres da Atalaia


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Publicado em 10 de maio de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Tereza Cristina Cerqueira da Graça

Francisco dos Passos Santos nasceu numa das pequenas invasões da Atalaia, quase em frente ao mar. Vendendo queijo nos bares e nas areias da praia, acompanhou a evolução urbana do bairro que foi substituindo casas de veraneio de excêntricos abastados por casas de moradia fixa e, depois, por prédios residenciais de classe média. Quando a ‘ordem’ chegou, sua família montou barraco de madeira e plástico aproveitando um muro de uma casa ‘quase desabitada’ num trecho de uma rua ‘sem movimento’. Outras famílias também ali ficaram porque os trocados do queijo assado no fogareiro andante lhes garantiam o pão-de-cada-dia, nem sempre todo dia! Intervenções governamentais e ordens judiciais não impediram que a Vila do Queijo se formasse e esteja prestes a completar 40 anos, abrigando mais de 25 famílias.
Em pequenos espaços desprezados pelos abastados, outras invasões haviam se formado. No Grupo Verde (Escola Municipal Anísio Teixeira), o menino Francisco conheceu outros meninos e meninas e andou se danando no Alto do Morro, na Várzea, na Vila do Cemitério, na Cagadinhos, no Farol, na parte sul da Coroa do Meio. Mais tarde, já no Colégio Santos Dumont, conquistou amigos no Largo do São Conrado, na Três Porquinhos e na Malvinas, hoje Recanto da Paz. Nalgumas comunidades, conheceu meios-irmãos, primos, primas, padrinhos; em outras, vivenciou paixões, fez novos amigos, ganhou afilhados, tios e avós de consideração.
Ágil, conversador e desembaraçado, ampliava seu leque de conhecidos enquanto se desfazia do estoque de queijos que trazia de casa. Seu mundo se espraiava para além dos becos das invasões, das mesas dos bares e dos sombreiros da areia da praia. O amparo de ‘gente influente’ lhe abriu portas e apontou caminhos: fez ensino médio numa escola ‘de rico’, concluiu inglês e deu aulas em famosos institutos de idiomas, ganhou campeonatos de futevôlei pelo Brasil afora. Depois vieram o diploma de curso superior, a especialização latu sensu, a docência e a arte; resultados do seu senso de oportunidade, inteligência e determinação.
A arte do cordel e do forró já estava estabelecida como opção de vida, quando lançou seu primeiro livro em 2005 – um tributo ao sancristovense João Bebe-Água. Desde então, tem colocado a geografia, a história e a cultura sergipanas em versos, objetivando contribuir também com a formação educacional de crianças e jovens. Em 2008, estreou o grupo Forró de Mala e Cuia que conta com algumas composições suas. O rapaz da Vila do Queijo esteve na Áustria, participando de um evento de cultura popular, onde deu oficina de cordel para brasileiros e austríacos falantes da língua portuguesa.
As amizades do lado de lá não o fizeram abandonar as do lado de cá. Com os de lá estudou, frequentou restaurantes e bares ‘bacanas’, viajou, participou de festas, saraus, exposições, namorou, chorou abafado. Com os de cá também estudou, bateu pelada em campinhos improvisados, frequentou rinhas de galo, dançou forró, intermediou desavenças, ajudou nos mutirões, namorou, casou-se, teve filhos e chorou declarado.
Há décadas, a Prefeitura promove festas juninas nas comunidades e bairros da cidade, montando arraiais e pagando trios de forró. Nos anos 1980, o Arraial da Várzea acontecia num pequeno barracão montado num terreno baldio. Não raras vezes, o sanfoneiro chegava ‘tungado’ e tocava apenas para a dança descompassada de algum bêbado e para a mangação de um bando de moleques. Em 2012, já bem relacionado com grande parte dos artistas da música sergipana, Francisco resolveu capitanear um forró naquele mesmo espaço. Com Erivaldo de Carira, conseguiu atrair as famílias e fazer renascer o arraial de tempos áureos. No ano seguinte, a festa aconteceu na Associação de Pescadores da Atalaia e, também, foi sucesso de público. Era preciso arrumar um espaço maior onde pudesse reunir todas as comunidades. Assim, a convite do amigo Jó, o Forró da Comunidade foi para a Avenida Melício Machado, ocupando uma praça não urbanizada em frente a comunidade Recanto da Paz (antiga Malvinas).
Contando com o apoio de órgãos públicos na infraestrutura, a mobilização dos moradores e a gratuidade dos artistas, a 11ª edição do Forró da Comunidade aconteceu nos dias 22, 23 e 24 de abril. Impressiona a alegria dos casais velhos, maduros e jovens que rodopiam o salão; impressiona a satisfação dos vendedores de cerveja, refrigerantes e comidas típicas; impressiona o carinho e a deferência com os quais todo esse povo se dirige ao filho artista-ilustrado. Muita gente do lado de lá esteve no evento. Mas quem ‘apareceu’, fez a festa e se divertiu pra valer foram os muitos moradores das localidades, como Jó, Nina, Nem, Rosa, Dinho, Nilson e Alonsa do Recanto da Paz; Pedrinho, Sapatão, Ana, Ângela, Rosana, Lindonesa e Lió da Várzea; Dona Lourdes e Tuta da Vila do Queijo; Dona Norma do Alto do Morro; Betânia da Cagadinhos; Valmira do Largo do São Conrado; Marilda dos Três Porquinhos e Dona Liete da Vila do Cemitério.
O Caranguejo (apelido de infância) da Vila do Queijo escrevia cartas em inglês e as enviava pelo correio para os amigos estrangeiros. Alguém comentou que ele não era somente daqui; era do além-mar. Virou Chiquinho do Além Mar. É o organizador do Forró da Comunidade que coloca seu talento e suas conquistas à serviço da alegria da sua gente.

Tereza Cristina Cerqueira da Graça, professora aposentada. Doutora em Educação. 2ª Vice-Presidente do IHGSE.

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