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Delírio de fome


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Publicado em 12 de janeiro de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Marcos Cardoso

Afirmar que a fome voltou é como dizer: houve um dia em que todos podiam ter o básico necessário para sobreviver. E isso não é verdade, esse dia nunca chegou. O mais pobre dos brasileiros já deve ter delirado como Fabiano variou quando a cachorra Baleia caçou um preá e o vaqueiro retratado miseravelmente por Graciliano Ramos enxergou a ressureição naquele bichinho crepitando na fogueira que estalava. Há delírios para todos os paladares.
Há os que desejam simplesmente ter um prato de sobras para comer e há quem julgue soberbamente a vida dos outros como contingência do destino. Ou, ainda pior, que não enxerga que seja possível num país tão grande haver famílias inteiras passando fome. Não me incomode com seus delírios miseráveis, por favor. Tenho mais com que me preocupar.
A fome não voltou porque ela nunca se foi. Como uma indesejada das gentes, sempre esteve nos espreitando por aí. Se antes era romantizada nas Vidas Secas nordestinas, hoje é realidade visível e crescente nas esquinas das grandes e pequenas cidades, nas aldeias indígenas, dormindo com os pés sujos nos bancos das praças, sob as marquises abandonadas quando chega o crepúsculo, nas cracolândias da vida. E da morte.
Mas a fome está dentro das casas também, das famílias carentes de benefícios sociais, de quem passou a se identificar eufemisticamente como microempreendedor individual ou tecnologicamente virou um aplicativo. A pandemia do século 21 juntou-se à praga histórica, aprofundando a pobreza que nunca deixou de existir e espalhando o vírus da fome.
O Brasil evoluiu na primeira década e meia deste século, quando parecia que finalmente venceria o problema crônico. Em 2014, algo considerado impossível aconteceu: o país deixou de constar no Mapa da Fome da ONU. Claro que a fome não foi erradicada, era apenas um levantamento estatístico. Mas havia um avanço incontestável e vislumbrou-se pela primeira vez a possibilidade de ela ser erradicada.
No entanto, a situação se deteriorou rapidamente a partir de 2015, desde bem antes do desembarque da pandemia de coronavírus, e agora o país voltou a níveis anteriores a 2004. A falta de políticas públicas e a má gestão dos recursos disponíveis fizeram recrudescer o problema.
Se em 2018 já se contavam 10 milhões de esfomeados, padecendo com a falta constante e diária de alimentos, após a nova peste que acometeu a humanidade esse número quase dobrou: havia 19 milhões de brasileiros em insegurança alimentar em 2020. A expectativa é que esse contingente de famintos tenha crescido em 2021.
Os números são da Penssan – Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, que identifica mais da metade da população brasileira sofrendo com algum grau de insegurança alimentar.
São quase 120 milhões de brasileiros hoje sem comida ou mal alimentados porque o governo não só ignorou o aumento da fome, como desarticulou todos os programas sociais e as estruturas construídas para reverter ou pelo menos amenizar esse problema vital. O discurso é ruim e a prática não é exequível.
Enquanto o governo delira, é no mínimo paradoxal que um dos maiores produtores de alimentos do mundo não tenha comida suficiente que chegue democraticamente à mesa de todos. Numa lógica incompreensível, o país colhe safras recordes e, contraditoriamente, milhões de brasileiros passam fome.
Resumo do dilema: o Brasil possui o maior rebanho bovino do mundo e o pobre está catando sobras de ossos de boi para comer. É o quarto maior produtor de frango e o pobre mal consegue comer pé de galinha. Também é o quarto maior produtor de feijão do mundo, mas a panela do pobre está irremediavelmente vazia. Até quando?

Marcos Cardoso, jornalista e escritor. Foi diretor de Redação do Jornal da Cidade, secretário de Comunicação da Prefeitura de Aracaju, diretor de Comunicação do Tribunal de Contas de Sergipe e é servidor de carreira da UFS. É autor dos livros “Sempre aos Domingos – Antologia de textos jornalísticos” e do romance “O Anofelino Solerte”.

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