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ESQUERDA MILITAR: O MAJOR JOÃO TELES DE MENEZES COMO EMPRESÁRIO


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Publicado em 26 de julho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Afonso Nascimento

Ninguém escolhe a profissão de militar para ficar rico. Um militar pode pertencer a uma família abastada e seguir uma carreira castrense, herdar a riqueza familiar e continuar rico, mesmo recebendo salários de classe média das forças armadas. Pode acontecer também de o militar de direita acumular riqueza, como ocorreu durante o regime militar, ocupando cargos dirigentes em empresas multinacionais e grandes empresas nacionais ou, ainda, ocupar cargos ministeriais em governos militares ou não e fundar empresa que venda a expertise ou informações que o mercado valorize (Ver a esse respeito CAMPOS, Pedro et VASCONCELOS, Cláudio B. de. A Aliança empresarial-militar e a ditadura brasileira: a atuação de empresários nas escolas militares e de integrantes das forças armadas em companhias privadas durante o regime pós-1064. BRASILIANA: Journal for Brazilian Studies.Vol.10, no. 22021.).
Muitas outras possibilidades podem ser levantadas, caso seja o objetivo do pesquisador. Não é este o meu caso. Para mim, basta repetir que o caminho das grandes fortunas ou de fortunas não é aquele das profissões de militares de direita ou de esquerda. E isso parece mais difícil quando se está a falar de um militar comunista. Este, porém, foi o caso de um militar sergipano do Exército brasileiro, homem íntegro, dedicado à família, aos amigos e à política do qual tratarei abaixo.
Quando o militar comunista João Teles de Menezes morreu em 1981, deixou um patrimônio considerável, na casa de vários milhões. Segundo a contadora Maria Conceição N. Duarte, contratada para fazer o cálculo dos ativos do major, ele era um homem rico naquela data. Possuía duas empresas, sendo a primeira voltada para atividades agropecuárias (a sua fazenda Várzea Grande) e era o diretor-presidente da Cooperativa Sergipense de Laticínios (CSL), da qual era o acionista majoritário. Além dessas duas propriedades, também possuía muito dinheiro investido em banco, gado bovino, dinheiro em conta corrente, créditos a receber, terrenos, casas etc.
Quais as fontes dos investimentos do major? É preciso dizer que, se ele recebeu alguma herança, essa informação não foi revelada por nenhum de seus parentes entrevistados. A sua principal fonte de renda foi o seu salário de major aposentado, que era (como até hoje é) muito bom. Esse texto trabalha com a hipótese de acordo com a qual a prosperidade econômica do major está ligada ao seu tempo livre como militar reformado, às indenizações obtidas na Justiça de causas relativas a problemas em sua carreira de militar e às economias que fez ao longo de sua vida profissional como militar. Para reforçar o que foi dito, avanço que o major construiu com sua esposa uma prole de oitos filhos e filhas! No período de sua retirada da vida militar ativa em 1947, as filhas e os filhos do major já eram adultos e já estavam construindo suas próprias famílias.
Como empresário do seu agronegócio, o major tinha suas contradições. O major possuía, em sua fazenda, uma “bodega” na qual vendia mercadorias procuradas por seus trabalhadores em compras a crédito ou à vista. Disso se não diferenciava do patronato rural sergipano. Por que seria diferente com o major? Além disso não há nenhum problema em ser comunista e empresário em uma sociedade capitalista. Frederico Engels, intelectual comunista que escreveu trabalhos com Carlos Marx, era industrial. E possuía muitos trabalhadores a seu serviço! Não era bem esse o caso do major, cujo maior número de trabalhadores se concentrava na fábrica de laticínios, regidos pela legislação trabalhista urbana.
Qual é a importância da prosperidade ou ascensão econômica do major para a sua militância no Setor Militar e participação política como quadro do Partido Comunista Brasileiro (PCB)? Antes, é importante dizer que organizações e partidos políticos precisam, para funcionar, ser financiados. Não basta o voluntarismo de seus quadros mais aguerridos.
No Inquérito Policial Militar de 1952 (mencionado em outro texto), sobre a farsa da “Revolução Comunista” de Sergipe, podem ser encontradas listas de pessoas na cúpula do Estado e da sociedade civil que contribuíam financeiramente para o PCB, mesmo sem serem comunistas. Além dessas doações, os comunistas costumavam circular muitas rifas disso e daquilo e vendiam seus jornais clandestinos. Não foi encontrado, por ora, nenhum registro do famoso “ouro de Moscou”.
Não detenho informação para afirmar que o major financiava “regularmente” o PCB, mas que o fazia em certas ocasiões. Como esse militar de esquerda possuía diversos bens imobiliários (casas, sítios, etc.), militantes comunistas civis e militares se serviram desses espaços para realizar reuniões clandestinas. Em outras palavras, não precisam alugar imóveis, tendo essa infraestrutura disponibilizada pelo major, a qual pode ser monetariamente calculada.
As fugas de Agonalto Pacheco em 1964 e a de Wellington Mangueira e de sua esposa em 1973 implicaram o acesso a recursos (carros, espaços para esconderijos, etc.) que só alguém com dinheiro poderia ajudar. Avançando um pouco mais, o major financiou a campanha de sua filha Etodea Teles de Menezes (aliás, uma das pessoas corresponsáveis pelo sucesso empresarial do major!), quando a lançou candidata a deputada estadual em 1947.
Sabe-se que o major contribuiu para campanhas eleitorais de candidatos do PCB ou apoiados pelo PCB, que eram filiados à UDN e depois ao MDB, durante o regime militar. (Cf. depoimento de Wellington Mangueira ao autor, em julho de 2022.) Infelizmente, nenhuma dessas pessoas, quando contactadas, quiseram se pronunciar sobre essa ajuda financeira do major, direta ou indiretamente. Essa contribuição também incluía dinheiro para viagens, gastos com impressos, etc.
Como o major era um homem muito organizado e metódico, seria interessante ter o acesso aos seus livros de contas em que ele anotava suas despesas com o “partidão”. Alguém poderia rechaçar isso dizendo que, justamente por ser organizado e metódico, ele não guardava registros dessas informações. Outrossim, Gilberto Teles de Menezes, que não era parente do major e, sim, tesoureiro do PCB durante um certo tempo, bem que poderia prestar informações sobre essas contribuições financeiras do major. Desgraçadamente, ele faleceu já há algum tempo.
Financiando o PCB antes de 1964, o major estava contribuindo para a revolução que nunca aconteceu (“the revolution that never was”, título de livro de brazilianista). Ao pagar contas irregularmente das atividades eleitorais e outras do PCB no pós-1964, estava financiando a resistência democrática ao regime militar. É verdade que esse tipo de financiamento eleitoral constituía uma prática hoje conhecida como “caixa 2”, o que não era exclusividade da oposição ao regime, mas também da situação.
Resumindo, mas sem esgotar o assunto, o major João Teles de Menezes, além de militar com missões bem sucedidas em diversos estados brasileiros (Bahia, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, etc.), encontrou tempo para construir também uma carreira de empresário. Fazendo isso, ele, de uma certa forma, na idade madura e na velhice, retomou o seu projeto de adolescente e de jovem comerciante de prosperar economicamente. Foi um self-mad man como empresário.

Afonso Nascimento, professor de Direito da UFS.

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