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Golpistas, prestem atenção no que aconteceu na Bolívia


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Publicado em 14 de junho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Moisés Mendes

A ex-senadora Jeanine Añez, agora condenada a 10 anos de cadeia, é a gaiata que teve inesperado protagonismo no golpe boliviano, quando não deveria ter sido nem figurante.
Por isso Bolsonaro força a barra quando tenta se comparar a Jeanine, como fez nos Estados Unidos ao dizer que ela e ele são perseguidos pelo Judiciário. Jeanine foi a laranja do golpe. Bolsonaro apresenta-se como chefe da articulação de uma trama golpista.
A coincidência entre o golpe de 2019 na Bolívia e o golpe que se anuncia aqui, por enquanto como blefe, é que também lá a desculpa foi a de que as eleições não eram confiáveis.
Essa foi a sequência do golpe. O uruguaio Luis Almagro, secretário da Organização dos Estados Americanos, avaliza a estratégia dos golpistas e anuncia que a reeleição de Evo Morales, no dia 24 de outubro, estava sob suspeita.
O golpista Almagro pôs fogo na Bolívia ao sugerir que havia fraude. Luis Camacho, o Bolsonaro deles, articula-se com a OEA e atiça uma revolta militar. A Polícia Nacional, a PM ostensiva boliviana, sob comando federal, inicia um motim contra Evo.
No dia 10 de novembro, Evo deixa o governo. E aqui começam os recados aos golpistas brasileiros. Naquele dia, os chefes militares haviam anunciado que estavam com o golpe.
A sequência é um desastre. O chefe das Forças Armadas, general Williams Kaliman, lê um comunicado pedindo que Evo renuncie, com todos os chefes militares e da Polícia Nacional sentados ou em pé em torno dele.
Mas logo depois foge para os Estados Unidos, porque não daria conta da confusão. O covarde Kaliman sabia que ninguém iria querer assumir a cadeira de Evo.
Mas Jeanine, segunda vice-presidente do Senado e quinta na sucessão, encara a bronca. O que se tem logo depois é uma série de massacres contra o povo que se rebela com a queda de Evo.
Jeanine e os militares das três armas e da Polícia Nacional ordenam repressões que resultam em 36 mortes, com chacinas em La Paz, Senkata e Sacaba.
Um ano depois, em outubro de 2020, os golpistas perdem a eleição convocada depois do golpe. O golpismo estava certo de que, convocada a eleição, tomaria o governo pelo voto.
O Movimento ao Socialismo, de Evo, venceu e elegeu Luis Arce. Jeanine achou que iria se habilitar a continuar no poder, mas, sem força política, havia desistido de concorrer.
Desde março do ano passado o Ministério Público e a Justiça estão prendendo os golpistas preventivamente, os civis e os militares.
Jeanine, os chefes das três armas, o chefe da Polícia Nacional e subordinados e mais ministros que assumiram depois do golpe foram presos. Milicianos armados também foram alcançados pela Justiça e encarcerados.
Os militares foram agora condenados junto com Jeanine, com exceção de três que já haviam confessado participação no golpe e sofreram penas mais brandas, com três anos de cadeia.
Mas duas figuras continuam escapando. O general covarde Williams Kaliman, que pode estar no Brasil, e o líder do reduto fascista de Santa Cruz de la Sierra, Luis Camacho, o verdadeiro líder civil do golpe.
Kaliman escapou porque abandonou os comparsas, e Camacho porque ganhou imunidade ao ser eleito logo depois governador de Santa Cruz de la Sierra. Especulações de que o Ministério Público poderia pegá-lo nunca se confirmaram.
Então, Bolsonaro não é, como pensa ser, uma imitação de Jeanine. A ex-senadora medíocre é a coitada do golpe. Incapaz de compreender a guerra, seguiu em frente na ilusão de que seria uma heroína.
Já Bolsonaro considera-se líder do golpe anunciado, mesmo que os verdadeiros chefes sejam os militares. Não há no Brasil uma figura equivalente a Camacho.
Ainda não há também como comparar os militares, porque lá eles foram empurrados para o golpe pelo motim da Polícia Nacional. Aqui, eles são protagonistas das ameaças ao TSE, repetindo quase tudo o que Bolsonaro diz.
O golpe na Bolívia foi a última tentativa de tomada do poder por forças fardadas na região, mesmo que induzidas a agir pela ação de civis que depois saltaram fora.
O que a Bolívia nos ensina é que lá a democracia soube reagir. A população deu a senha para que as instituições funcionassem na plenitude. Devolveu pelo voto o poder ao partido golpeado e exigiu que a Justiça fosse feita.
Não ocorreram, como tentaram fazer no Brasil com o lavajatismo, ações justiceiras. Houve a reação a um golpe e às ações criminosas de grupos que atentaram contra a democracia e cometeram desmandos e assassinatos.
As suspeitas de fraude levantadas pela OEA foram derrubadas por auditorias independentes, entre as quais uma encomendada pelo jornal The New York Times e outra realizada por cientistas do Massachusetts Institute of Technology (MIT).
A farsa montada pelos golpistas, de que Evo não havia sido derrubado, mas sim renunciado, foi desmentida pelos fatos. Evo deixou o governo para evitar uma guerra civil que quase aconteceu.
O golpe boliviano expôs comandantes militares acovardados, que se acusaram entre si, depois de presos preventivamente, e nos conduz a uma pergunta inevitável: é possível que os chefes militares segurem no Brasil um levante comandado por Bolsonaro?

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre (Jornalistas pela Democracia)

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