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O cientista que previu o fim trágico de Sergio Moro


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Publicado em 26 de maio de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Moisés Mendes, para o Jornalistas pela Democracia

Sergio Moro está chegando, agora como réu, perto do destino imaginado em 2016 pelo físico, engenheiro e pensador Rogério Cerqueira Leite. Em outubro daquele ano, o cientista escreveu na Folha:
“A história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública”.
Cerqueira Leite recorria às controvérsias mortais de tempos medievais e alertava o juiz para o que aconteceu com Girolamo Savonarola.
O padre dominicano combateu os que seriam na época os ‘esquerdistas’ do Renascimento, desafiou a própria Igreja atacando a corrupção e apresentou-se como defensor puro da fé católica. Foi queimado em Florença no final do século 15.
O tema do artigo do cientista era a caçada a Lula, no auge da Lava-Jato, logo depois do golpe contra Dilma Rousseff. Sergio Moro parecia intocável. O texto previu, seis anos antes, o que acontece agora:
“Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes. Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira”.
O juiz levou tão a sério a ameaça da fogueira que, em resposta à Folha, lamentou o fato de o cientista “chegar a sugerir atos de violência contra o ora magistrado”.
Cerqueira teve de pedir espaço para a tréplica e escreveu, com ironia explícita, em carta publicada pela mesma Folha:
“O fogo a que me refiro é o fogo da história. Intelectos condicionados por princípios de intolerância não percebem a diferença entre metáforas e ações concretas”.
É bom observar que Moro vê Cerqueira Leite incentivando ataques “contra o ora magistrado”. A palavra ‘ora’ continha, já em 2016, o prenúncio do que aconteceria.
O juiz parecia saber da sua temporalidade. Cerqueira jamais iria se referir a si mesmo como o “ora cientista”. Mas Moro denunciava sua condição provisória de magistrado.
Por que tanta sinceridade com sua situação de autoridade de passagem? Talvez porque ali Moro já imaginasse que um dia buscaria a imunidade que combatia nos políticos.
Fez a opção errada, foi em direção a Bolsonaro e se esqueceu de que o Supremo, tal qual a alta hierarquia da Igreja que observava as demagogias de Savonarola, iria cobrar a conta por ter sido afrontada.
Savonarola se achava o cara da sua época, como pregador moralista e populista, mais ou menos como alguns juízes, procuradores e pastores de tempos bolsonarianos.
Moro ainda tentou um atalho. Pensava que, depois de mandar no Supremo e enfrentar o “sistema”, contra tudo e contra todos, iria fazer parte desse mesmo sistema, aliando-se ao que a política tinha de pior.
Foi acolhido e logo expelido pela extrema direita e enquadrado como juiz suspeito pelo poder maior do Judiciário que ele desqualificava como ora magistrado.
O Supremo excomungou Moro, como a Igreja havia feito com Savonarola, e o que lhe resta agora é rezar a caminho da fogueira.
Vale a pena rememorar o episódio, porque Moro ofereceu à Folha boa parte da sua ignorância. Não entendeu o sarcasmo, que poderia ter respondido no mesmo tom, e disse que o jornal deveria evitar “a publicação de opiniões panfletárias-partidárias e que veiculam somente preconceito e rancor, sem qualquer base factual”.
Exaltou a tradição e a história da Folha, manchada pelo artigo de Cerqueira Leite, sem ser ao menos alertado por sua assessoria de que o autor do texto era conselheiro editorial da própria Folha e um dos mais respeitados cientistas brasileiros.
Seis anos depois, Cerqueira continua fazendo história, e Sergio Moro teve sua caminhada de justiceiro interrompida pelo fogo que se ergueu à sua frente.
Não conseguiu integrar os esquemas que dizia abominar, não teve forças para enfrentar o sistema de Justiça que desrespeitava e não tem parceiros poderosos nem a base popular que imaginava ter.
Cerqueira Leite só errou em um detalhe da previsão. Lula e o PT continuam atuantes, e mesmo assim Moro foi abandonado pelas elites e pela classe média.
O ex-juiz mobilizador de incendiários moralistas encaminha-se para o centro da fogueira. Uma fogueira simbólica, é bom que se esclareça, para que ele não pense de novo em labaredas, calor e outras coisas muito concretas.
Mas, de qualquer forma, é uma fogueira e tanto. Que deve engolir muitos outros mais adiante.

Moisés Mendes é jornalista, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim). Foi editor especial e colunista de Zero hora, de Porto Alegre.

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