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O darwinismo em Sergipe


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Publicado em 03 de agosto de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Antonio Samarone

O presidente da Academia Sergipana de Medicina anunciou no almoço da SOMESE, que a entidade iniciaria um serie de “tertúlias” pelo interior de Sergipe, e a primeira seria no centenário Gabinete de Leituras de Maruim.
Ponderei: ótimo, vamos poder discutir a importância do médico Guedes Cabral no alvorecer do movimento republicano em Sergipe. Segundo o historiador Adailton Andrade, Guedes Cabral foi orador do Gabinete de Leituras, por sete anos, o tempo que passou em Sergipe.
Senti que a minha lembrança não foi bem aceita. E quem foi Guedes Cabral, pensou a maioria.
Domingos Guedes Cabral nasceu em Salvador, em 29 de outubro de 1852, sendo seus pais o educador Domingos Guedes Cabral e Faustina Maria do Nascimento.
Tentou, inicialmente, a carreira jurídica. Depois, estudou Filosofia, mas terminou descobrindo que a Medicina seria a sua profissão. Para ele “a Medicina era a nova e única verdade filosófica”
Ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia em 1870 e por ela concluiu o curso médico no ano de 1875. A sua tese “Funções do Cérebro”, foi rejeitada pela Faculdade.
A tese que Domingos Guedes Cabral apresentou à Faculdade de Medicina da Bahia, “Funções do Cérebro”, defendia ideias darwinistas e materialistas.
Trata-se de um dos primeiros trabalhos de orientação darwinista produzido por um brasileiro, aceitando inclusive a descendência simiesca do homem.
Foi um assombro para uma Faculdade de Medicina voltada para a religião. A medicina brasileira não descende da tradição hipocrática, muito menos do iluminismo, ela é filha dos mosteiros portugueses e da medicina religiosa ensinada em Coimbra.
A tese de Guedes Cabral procurou localizar a alma humana no cérebro, e concluiu: “sensação, movimento, pensamento, sentimento, encontramo-los nós como propriedades dos elementos cerebrais. A alma. porém, não, nem lhe encontramos vestígios aí”.
A tese tirava da alma essas funções da psique humana. Comprou uma briga e pagou um preço alto por sua verdade.
Para receber a carta de doutor em medicina, Guedes Cabral precisou escrever uma nova tese, banal, repetitiva, com o tema: “Qual o melhor tratamento para a Febre Amarela”.
Funções do Cérebro era um trabalho de fôlego, com mais de duzentas páginas, na qual o autor demonstrava que conhecia as principais obras de anatomia, antropologia e fisiologia de sua época.
A Faculdade de Medicina da Bahia rejeitava até o paradigma celular.
Mesmo derrotado na Faculdade, Guedes Cabral reafirmava a sua opção pela ciência:
“A ciência falou primitivamente pela boca dos augures, das sibyllas, dos bardos, dos poetas, dos profetas e dos patriarcas; depois, pela dos alquimistas, dos metafísicos e dos monges; depois, pelos dos astrólogos, dos matemáticos, dos naturalistas e dos reformadores. É chegada a hora de render os postos, cabe a vez ao antropólogo e ao anatomista.”
Cansado de responder a editoriais em diversos jornais, em 1876, Guedes Cabral terminou por mudar-se para Laranjeiras, no estado de Sergipe, visando um ambiente tranquilo para exercer a sua clínica.
Acreditava ele que a tradição intelectual sergipana com o darwinismo, a tese de doutoramento apresentada por Sylvio Romero à Faculdade de Direito do Recife, propunha a aplicação do darwinismo ao Direito, inspirado no jurista alemão Rudolf Ihering, garantiria a ele uma boa recepção em Sergipe.
Puro ilusão, em vez de encontrar um local de paz e tranquilidade, onde pudesse começar sua carreira de médico, foi recebido de forma hostil por um editorial no jornal local, que convidava os habitantes da cidade a enfrentar o novo ateu que havia chegado.
Anos mais tarde, um religioso católico, o cônego Philadelfo de Oliveira, que escreveu a História de Laranjeiras, afirmava que as atitudes do jovem médico Guedes Cabral eram fruto do medo da morte. Esse medo seria o responsável por seu ateísmo e sua irritação com o mundo do sagrado.
Escreveu Philadelfo:
“Laranjeiras também teve sua luta religiosa, não chegando ao fanatismo, limitando-se a defender energicamente a sua religião e as suas tradições como legados sagrados dos seus antepassados. Todas as revoluções têm os seus precursores. A luta religiosa em Laranjeiras teve como precursor o Dr. Domingos Guedes Cabral, médico pela Academia da Bahia, onde foi perseguido por causa do seu irritante e inoportuno ateísmo. […]
Era o Dr. Guedes Cabral tuberculoso e eis a causa da irritabilidade e do seu desespero na vida. O céptico tinha, porém, grande inteligência, caráter rígido e inquebrantável.”
Guedes Cabral não cedeu!
Na visão de Jackson da Silva Lima, o médico Domingos Guedes Cabral se estabelecera em Laranjeiras, por volta de 1876, após ser banido de Salvador, enfrentou o clero e seculares que se insurgiram contra a sua tese de doutoramento – As funções do cérebro. Não vinha fazer filosofia, e sim clinicar. Mas, não ficou indiferente às provocações, quando fustigado por médicos e magistrados locais, incomodados com o seu “irritante e inoportuno ateísmo”.
Carcomido pela tuberculose, Guedes Cabral retornou à Salvador, com a saúde já bastante deteriorada, vindo a falecer prematuramente nessa cidade, a 27 de janeiro de 1883, com trinta e um anos de idade.
Na visão de Guedes Cabral, o que a sociedade via como “perverso” e o Direito como “criminoso”, a ciência chamaria “doente”; onde o catolicismo classificava como “diabólico” e os espiritualistas a “impossibilidade de manifestação do Eu psicológico”, a ciência explicava em termos de desarranjos anatômicos ou desvios fisiológicos.
O fim dos exorcismos, das penitenciárias, masmorras e patíbulos, pregava Guedes Cabral. Triunfando a ciência positiva, viveríamos sob o domínio da “mão sábia do mestre e da droga farmacêutica”.
A medicina católica do século XIX excomungou Guedes Cabral pelo seu materialismo, tentou bani-lo da história, apagar a sua memória. A Academia de Medicina de Sergipe precisa revogar o decreto de excomunhão de Guedes Cabral.
Para a medicina sergipana, os fatos mais relevantes ocorridos na Sala de Leituras de Maruim, foram as conferência de Guedes Cabral sobre a luta republicana, por volta de 1880.

Antonio Samarone é médico sanitarista.

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