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Presente de grego


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Publicado em 21 de janeiro de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Lacerda Júnior

– Ô Zé! Zé! Onde você tá? – gritava Rosita.
– Tô aqui na oficina, muié! Que gritaria da moléstia é essa? – respondeu, irritado, o mecânico.
– Amanhã é o aniversário do Vital. Ele vai fazer 16 anos e você prometeu que iria dar uma moto pra ele – falou Rosita.
– Mas muié ele ainda é menor, e a lei não permite ele pilotar moto ainda – falou o mecânico, preocupado.
– Zé, lá na loja do Tonho Bengala tá vendendo aquelas motinhas que parecem uma bicicleta e dizem que não precisa nem emplacar, e a maioria dos guris aqui da rua tem – falou Rosita.
– Mais muié! Ele ainda é muito criança pra dirigir nesse trânsito maluco – falou Zé.
– Que nada, Zé! Você é mão de vaca e não tá querendo é gastar dinheiro – gritou Rosita.
– Tá bom, Rosita. Vamos lá no Tonho Bengala comprar esse troço.
No dia seguinte estavam todos os amigos do jovem Vital na casa do mecânico Zé Motor para comemorar o tão esperado aniversário.
– É hora! É hora! Rá-Tim-Bum! Cabeçote! Cabeçote! Cabeçote – cantavam os convidados, exclamando bem alto o apelido de Vital que, por trabalhar com o pai na oficina e ter uma tremenda cabeçorra, chamavam-no de cabeçote.
– Agora é a hora dos presentes – anunciou, empolgada, Rosita.
O jovem foi abrindo presente a presente, mas sua ansiedade era ver o que seus pais tinham lhe comprado.
– Cabeçote, seu presente tá lá na oficina – disse com voz apreensiva Zé Motor.
– Uhuuuuuuu! – gritou cabeçote quando viu estacionado na garagem um ciclomotor igualzinho ao de seus colegas da escola.
– Papai, você é o cara! Isso é o que sempre quis ganhar! Todos os meus colegas da escola têm um. Só eu que não tinha. Agora sou igualzinho a eles – falou, empolgado, Cabeçote.
– Agora, filho, você vai me prometer que vai tomar cuidado. Veja o que aconteceu com seu irmão Carburado por conta de imprudência. Até hoje não me conformo por ele ter perdido as pernas naquele acidente. Se acontecer alguma coisa com você eu não vou me perdoar nunca – falou Zé Motor com a voz embargada.
– Esquenta não, pai! Vou me cuidar – falou Cabeçote, piscando o olho para o pai.
Desde aquele dia, Cabeçote passou a ir à escola todos os dias com o ciclomotor. Mas um dia…
– Rosita! Rosita! Seu Zé! Seu Zé! – gritava aflita a vizinha da casa em frente à oficina.
– O que foi vizinha? – perguntou Zé Motor após sair rapidamente debaixo de um carro que consertava.
– Ê! Ê! Eu vinha da feira quando… quando… – parou a vizinha.
– Quando o que, vizinha? – questionou Zé Motor, agoniado.
– Quando eu vi o Cabeçote vindo pela contramão de ciclomotor com uns amigos e um caminhão não os esperava e acabou… – parou novamente a vizinha.
– Acabou o quê?! – gritou Zé.
– É melhor o senhor ir lá ver. Foi lá na esquina da escola – falou a vizinha.
Zé Motor correu para o local e logo que se aproximou percebeu uma multidão.
– Sai da frente! Sai da frente! É meu filho! É meu filho! – gritava o mecânico.
– Amigo, o senhor não pode passar daqui – falou um policial segurando o mecânico.
– É meu filho! – exclamou o mecânico.
– Infelizmente seu filho se foi, amigo. Seu filho vinha pilotando este ciclomotor na contramão de direção e acabou colidindo com este caminhão – falou o policial com voz triste.
– Nãããããããõ! – gritou o mecânico.
No chão, ao lado do corpo do jovem Vital Cabeçote, estava o ciclomotor dado de presente. No tanque do veículo figurava uma frase que Zé Motor ainda não tinha percebido, que dizia:
“Papai, você é o cara. Este presente foi você que me deu”.
Na semana seguinte ao acidente, o diretor da escola que Cabeçote estudava suspendeu as aulas e convidou os alunos e suas famílias para um evento denominado “Em memória de Vital”. O foco da palestra era alertar as famílias acerca do risco de se dar de presente ciclomotores a menores, pois estes não possuem ainda o nível de responsabilidade necessária para a condução desses veículos. Por isso, por vezes eles cometem as mais perigosas infrações de trânsito e se envolvem nos mais graves acidentes que quando não lhes furtam a vida os acometem de sequelas irreversíveis.

Lacerda Júnior , mestre em Educação e especialista em Segurança e Educação para o Trânsito.

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