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Sobre hábitos e monges


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Publicado em 26 de maio de 2022
Por Jornal Do Dia Se


José Fernandes de Lima

Usamos a palavra hábito quando queremos falar de uma vestimenta especial utilizada por praticantes de determinadas denominações religiosas. O dicionário diz que ela pode também ser usada para identificar uma mania ou um comportamento que se repete.
Há um ditado popular que diz: o hábito não faz o monge.
Usamos esse ditado para dizer que não devemos julgar as pessoas pela aparência. Para dizer que o fato de uma pessoa estar usando um hábito religioso não significa que seja necessariamente religioso. O fato de uma pessoa estar se comportando de determinada maneira não significa que ela tenha sempre esse mesmo comportamento.
O ditado pretende servir de alerta para aquelas pessoas que costumam fazer julgamentos precipitados. Aquelas pessoas que, por serem apressadas, são incapazes de observar os diversos ângulos da questão e, em geral, cometem erros de julgamento.
Se esse ditado fosse adotado pelos policiais brasileiros, por exemplo, poderia evitar os julgamentos precipitados que eles costumam fazer quando abordam as pessoas mais pobres e as tratam como criminosas.
No caso acima, a palavra hábito foi utilizada com o significado de vestimenta e foi desdobrada no sentido da aparência.
Algumas vezes, o mesmo ditado é utilizado no sentido inverso, ou seja, há quem diga que “é o hábito que faz o monge”.
Quando utilizada dessa forma, a palavra hábito adquire outro sentido. Deixa de ser vestimenta e passa a ter o significado de comportamento, mania, modo de vida.
Quem costuma utilizar o ditado com esse significado são os mestres da autoajuda e os treinadores esportivos. Quando eles dizem que é o hábito que faz o monge, querem dizer que se você repetir um determinado procedimento muitas vezes, acabará por adquirir determinados comportamentos. Querem estimular você para que treine um pouco mais e com mais afinco.
A educação pela via da repetição foi durante muito tempo aceita como metodologia. Era repetindo que a gente aprendia a tabuada, por exemplo.
Há uma teoria que fala das 10 mil horas. Os seus defensores afirmam que se um indivíduo praticar 10 mil horas de qualquer atividade, tornar-se-á um expert no assunto. Citam estudos com pianistas e com atletas que desenvolveram suas técnicas, no nível de excelência, depois de praticar durante 10 mil horas.
Os monges são conhecidos por terem comportamentos especiais. Costumam viver isolados em mosteiros e conventos, usam roupas simples e levam uma vida muito regrada. Em geral são ligados a ordens religiosas. Investem boa parte do tempo aprendendo a rezar e a meditar.
Houve um monge que deu uma grande contribuição para a ciência. Seu nome era Gregor Mendel, ele viveu de 1822 a 1884 e é considerado um grande cientista.
Mendel descobriu como as características eram transmitidas de pais para filhos muito antes se sabermos sobre a divisão celular e sobre a estrutura do DNA.
Morando em um convento, ele plantou ervilhas durante muito tempo e observou o comportamento das plantas resultantes dos diversos cruzamentos. Suas observações trouxeram as primeiras ideias sobre a transmissão hereditária.
Os resultados obtidos foram publicados nos anais da Sociedade de História Natural de Brunn, em 1865. Seu trabalho só foi reconhecido muito tempo depois da sua morte.
Os estudos realizados por Mendel foram essenciais para o desenvolvimento da genética.
A história de Mendel guarda relação com a discussão sobre os ditados acima porque nela a palavra hábito aparece com os dois sentidos descritos no dicionário.
Por ser um monge de fato, ele usava hábito e por ser um grande estudioso tinha o salutar hábito de fazer pesquisa científica.
O reconhecimento foi tardio, mas Gregor Mendel foi finalmente reconhecido como um grande cientista e o fundador da genética.

José Fernandes de Lima é físico e professor.

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