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VIDAS HUMANAS IMPORTAM, SIM


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Publicado em 28 de julho de 2022
Por Jornal Do Dia Se


Vânia Azevedo

As imagens de centenas de covas abertas e corpos embrulhados em sacos plásticos (como um amontoado de lixo hospitalar) ainda estão vivas na nossa memória, da mesma maneira que o sofrimento pela perda de amigos e familiares está longe de ser uma dor superada. No entanto, a pressa que se tem de voltar ao que se entende por normal chega a ser estúpida, se levarmos em consideração que a pandemia não acabou, e que a cada comemoração que implica em multidão, a conta vem logo em seguida com o aumento de casos de Covid e novas cepas circulando no estado. De igual modo que acreditar que haver tomado duas doses do imunizante para a Covid-19 são suficientes para garantir imunidade é um risco que, decididamente, não vale a pena correr.
Temos vivido momentos de desafios diários, onde viver (mais do que nunca) é ser capaz de sobreviver às viroses, à violência urbana, as dores da alma, a intolerância, o descaso das autoridades com as pessoas em situação de vulnerabilidade e a invasão da Rússia à Ucrânia. E quando o dia finalmente termina, não haver se tornado uma vítima da ansiedade é tão raro quanto um dia sem poluir o planeta.
A exemplo da Segunda Guerra Mundial, a Europa sempre acaba pagando um preço maior que o resto do mundo (por sua localização onde sempre nasce o conflito), e agora não é diferente: por se tratar de duas nações que abastecem os demais países, não só com gêneros alimentícios e fertilizantes, como também no setor energético. A nossa conexão com o mundo pela internet já não nos deixa mais alheios aos acontecimentosque, de uma maneira ou de outra, nos fazem perceber que as consequências das medidas tomadas por chefes de nações estrangeiras acabam respigando em nós brasileiros.
No entanto, se pararmos para analisar, diariamente somos atingidos pelos mísseis das medidas provisórias (MP) que nos tiram a tranquilidade;do jogo do poder cujas armas escolhidas atingem nossas vidas, mexem com os nossos medos e detonam a nossa saúde mental. Nunca nesse país se procurou tanto psiquiatras e psicólogos!
Para justificar a política econômica de um governo cujo desgoverno tem marcado sua trajetória, a crise de combustíveis assume o protagonismo dos nossos problemas econômicos (mesmo quando sabemos qual o nosso maior problema). Por outro lado, não podemos esquecer que vivemos aqui a nossa própria guerra, onde 33,1 milhões de pessoas não têm o que comer, e morar embaixo da ponte já não resolve o problema, pois nem mesmo temos pontes suficientes para abrigar a miséria que campeia o país. Os nossos desabrigados lotariam com facilidade os maiores estádios de futebol que possuímos; os nossos desempregados também são os mesmos que engrossam as estatísticas de problemas como ansiedade, suicídio, violência no lar (com destaque para o feminicídio) e violência urbana. São consequências da batalha.
Se na guerra o aparato bélico do inimigo destrói construções civis matando e desabrigando pessoas, aqui as armas são outras: enchentes, mau uso do dinheiro público, desvio de verbas e gestões fraudulentas que determinam o poder de destruição de uma expressiva parcela da população, vivendo refém de manobras eleitoreiras para sobreviver ao caos da pobreza que se estabeleceu nesse país.
De certo mesmo o que temos é que, como em qualquer guerra, o que menos importa para os líderes, infelizmente, são as pessoas: logo elas não passarão de números nas estatísticas. Assim foi com Stalin, com Hitler, com Mussolini…Como tem sido com Putin (e o puto que governa nosso país). Assim são famílias inteiras que perderam a vida, ou seus familiares nas avalanches provocadas pelas recentes chuvas que preencheram os noticiários do país. Como se a destruição de um país não passasse pela destruição de pessoas, famílias, vidas, com histórias e sonhos. Vidas que são ignoradas como se não passassem de um imenso formigueiro que, depois de atingido, viaja pelo espaço; e as que sobrevivem são remendadas como roupas velhas em hospitais de campanha, até que surja o próximo ataque. Ingrato é também o destino daqueles que partem guiados por grupos de ajuda humanitária, para rumos ignorados, sem destino, sem qualquer identidade ou fragmento de sua história, deixando para trás as cinzas do que foi um dia uma vida normal, com amigos, vizinhos, uma rotina, um sonho. De repente tudo é passado. Leva apenas o que cabe na memória, quase sempre cheia de lembranças que já não há com quem dividir.

Vânia Azevedo é professora.

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