Os 10 álbuns sergipanos da década

 

*Alisson Mota
Em Sergipe, a música tem 
sido tratada, através dos 
anos, sem a seriedade necessária pela maioria dos agentes envolvidos em toda a cadeia cultural. Se a falta de políticas públicas e o explícito desdém do Poder Público ocupam uma parcela significativa do destrato com as artes no estado, outra parcela se divide entre a própria classe artística e os profissionais envolvidos nas manifestações artísticas, desde produtores até técnicos de som e iluminadores. Muitas vezes o desânimo toma conta e os resultados acabam não sendo satisfatórios. O potencial acaba se perdendo por falta de esperança de um retorno digno a um trabalho bem-feito. Uns se mudam, outros desistem.
Resultado disso é que, num quadro geral, as artes – neste caso a música – acabam sendo levadas na esportiva. Não existe uma visão mais assertiva no sentido de consolidar um nicho de consumo artístico pelas bandas de cá. Por muitas vezes, esse nicho se limita a guetos onde os consumidores dos produtos culturais acabam se resumindo às pessoas que estão no entorno dos trabalhadores da cultura. A rigor, em Sergipe, você só consome um produto artístico que esteja fora do dito mainstream se você tiver o mínimo de contato com aquele artista que está produzindo.
Por essas e outras, não é difícil encontrar por aqui um desavisado banhado em senso comum que profira a frase "por aqui nada acontece" ou até mesmo "ninguém faz nada que preste em Sergipe". Para quem está envolvido na produção cultural, ainda que indiretamente, é doloroso ouvir tais colocações. Mas é preciso que elas sejam entendidas no seu sentido mais amplo: a cena precisa se levar a sério para ser levada a sério e ser considerada relevante, com valor.
Um dos Cérberos nesse quadro é a concentração midiática, que privilegia uma dupla de produtores-empresários que aparecem com novos enlatados ano após ano, usando artistas populares como verdadeiras galinhas dos ovos de ouro para a perpetuação da mediocridade artística no estado. Por outro lado, o estado, através dos órgãos que deveriam fomentar a diversidade cultural, coaduna com essa concentração, movimentando recursos e pessoal para intensificar o processo de desertificação cultural.
Partindo dessa problemática, surgiu a ideia no aCorde de realizar a lista de Álbuns Sergipanos da Década. Rafa Aragão, dj e pesquisador musical me fez a primeira provocação, logona virada da década. Imediatamente pensei em fazê-la também com a colaboração de Rian Santos, que é o maior responsável pelo acompanhamento, divulgação, catalogação e atribuição de valor à música feita na terra Serigy.
A principal intenção da lista é mostrar ao público, ao Poder Público e aos próprios artistas que a produção sergipana é relevante, original e tem potencial de ser disseminada dentro e fora dos limites estaduais. Não adianta partir para a tergiversação capitaneada pela lenda do Cacique Serigy. Aqui a gente mostra que sim, as coisas acontecem por aqui. E "de com força". Com mais dedicação e cuidado por parte de todos os envolvidos na cadeia cultural, as coisas podem dar certo.
A metodologia formada com a participação de três jornalistas na construção da lista foi pensada para ampliar o leque de análise das obras. Três profissionais que têm experiências e percursos diferentes dentro da cena cultural do estado, que num primeiro momento, a partir da elaboração das listas individuais, proporcionou a criação de um panorama da música feita em Sergipe. Num segundo momento, com a formulação da lista definitiva, se percebem as intersecções e quais são as obras mais relevantes, que conseguem abrir diálogo em diferentes espaços: seja num auditório que acompanha o espetáculo inerte ou numa dispersa ocupação de rua.
Nesta lista definitiva contamos com dez obras que contêm valor artístico incontestável. Mas para chegar nesses dez, foi preciso passar por, pelo menos, mais duas ou três dezenas de trabalhos com nível semelhante. As diferenças entre uns e outros é sutil e, como dito anteriormente, foram privilegiados aqueles mais universais, que têm maior capacidade de dialogar com públicos amplos. E isso é pra tentar afastar de vez a urucubaca que destina a música independente aos guetos. O potencial existe e precisa ser explorado. É esta a mensagem central da lista, para além da tarefa crítica de curadoria dos álbuns. A crítica aqui é um instrumento de atribuição de valor à cena musical de Sergipe.
É com o sentimento de esperança, com o olho banhado em sangue e matando a mediocridade à unha, que os Álbuns Sergipanos da Década vêm à tona. Aproveite, desfrute, ouça, conheça e mergulhe. Há muito mais a explorar do que essa pequena amostra que trazemos aqui.
*Jornalista, editor de aCorde.
Confira a lista:
Alex Sant’Anna – Enquanto Espera (2015)
Cabedal – O Novo Pastiche & O Pastiche Novo (2010)
Cidade Dormitório – Fraternidade-Terror (2019)
Maria Scombona – UnNu (2012)
Plástico Lunar – Dias Difíceis no Suriname (2015)
Renegadesof Punk – Coração Metrônomo (2012)
Sandyalê – Um no Enxame (2014)
Taco de Golfe – Folge (2018)
The Baggios – Brutown (2016)
Tori – Ignatia, (2019)

*Alisson Mota

Em Sergipe, a música tem  sido tratada, através dos  anos, sem a seriedade necessária pela maioria dos agentes envolvidos em toda a cadeia cultural. Se a falta de políticas públicas e o explícito desdém do Poder Público ocupam uma parcela significativa do destrato com as artes no estado, outra parcela se divide entre a própria classe artística e os profissionais envolvidos nas manifestações artísticas, desde produtores até técnicos de som e iluminadores. Muitas vezes o desânimo toma conta e os resultados acabam não sendo satisfatórios. O potencial acaba se perdendo por falta de esperança de um retorno digno a um trabalho bem-feito. Uns se mudam, outros desistem.
Resultado disso é que, num quadro geral, as artes – neste caso a música – acabam sendo levadas na esportiva. Não existe uma visão mais assertiva no sentido de consolidar um nicho de consumo artístico pelas bandas de cá. Por muitas vezes, esse nicho se limita a guetos onde os consumidores dos produtos culturais acabam se resumindo às pessoas que estão no entorno dos trabalhadores da cultura. A rigor, em Sergipe, você só consome um produto artístico que esteja fora do dito mainstream se você tiver o mínimo de contato com aquele artista que está produzindo.
Por essas e outras, não é difícil encontrar por aqui um desavisado banhado em senso comum que profira a frase "por aqui nada acontece" ou até mesmo "ninguém faz nada que preste em Sergipe". Para quem está envolvido na produção cultural, ainda que indiretamente, é doloroso ouvir tais colocações. Mas é preciso que elas sejam entendidas no seu sentido mais amplo: a cena precisa se levar a sério para ser levada a sério e ser considerada relevante, com valor.
Um dos Cérberos nesse quadro é a concentração midiática, que privilegia uma dupla de produtores-empresários que aparecem com novos enlatados ano após ano, usando artistas populares como verdadeiras galinhas dos ovos de ouro para a perpetuação da mediocridade artística no estado. Por outro lado, o estado, através dos órgãos que deveriam fomentar a diversidade cultural, coaduna com essa concentração, movimentando recursos e pessoal para intensificar o processo de desertificação cultural.
Partindo dessa problemática, surgiu a ideia no aCorde de realizar a lista de Álbuns Sergipanos da Década. Rafa Aragão, dj e pesquisador musical me fez a primeira provocação, logona virada da década. Imediatamente pensei em fazê-la também com a colaboração de Rian Santos, que é o maior responsável pelo acompanhamento, divulgação, catalogação e atribuição de valor à música feita na terra Serigy.
A principal intenção da lista é mostrar ao público, ao Poder Público e aos próprios artistas que a produção sergipana é relevante, original e tem potencial de ser disseminada dentro e fora dos limites estaduais. Não adianta partir para a tergiversação capitaneada pela lenda do Cacique Serigy. Aqui a gente mostra que sim, as coisas acontecem por aqui. E "de com força". Com mais dedicação e cuidado por parte de todos os envolvidos na cadeia cultural, as coisas podem dar certo.
A metodologia formada com a participação de três jornalistas na construção da lista foi pensada para ampliar o leque de análise das obras. Três profissionais que têm experiências e percursos diferentes dentro da cena cultural do estado, que num primeiro momento, a partir da elaboração das listas individuais, proporcionou a criação de um panorama da música feita em Sergipe. Num segundo momento, com a formulação da lista definitiva, se percebem as intersecções e quais são as obras mais relevantes, que conseguem abrir diálogo em diferentes espaços: seja num auditório que acompanha o espetáculo inerte ou numa dispersa ocupação de rua.
Nesta lista definitiva contamos com dez obras que contêm valor artístico incontestável. Mas para chegar nesses dez, foi preciso passar por, pelo menos, mais duas ou três dezenas de trabalhos com nível semelhante. As diferenças entre uns e outros é sutil e, como dito anteriormente, foram privilegiados aqueles mais universais, que têm maior capacidade de dialogar com públicos amplos. E isso é pra tentar afastar de vez a urucubaca que destina a música independente aos guetos. O potencial existe e precisa ser explorado. É esta a mensagem central da lista, para além da tarefa crítica de curadoria dos álbuns. A crítica aqui é um instrumento de atribuição de valor à cena musical de Sergipe.
É com o sentimento de esperança, com o olho banhado em sangue e matando a mediocridade à unha, que os Álbuns Sergipanos da Década vêm à tona. Aproveite, desfrute, ouça, conheça e mergulhe. Há muito mais a explorar do que essa pequena amostra que trazemos aqui.

*Jornalista, editor de aCorde.

Confira a lista:
Alex Sant’Anna – Enquanto Espera (2015)
Cabedal – O Novo Pastiche & O Pastiche Novo (2010)
Cidade Dormitório – Fraternidade-Terror (2019)
Maria Scombona – UnNu (2012)
Plástico Lunar – Dias Difíceis no Suriname (2015)
Renegadesof Punk – Coração Metrônomo (2012)
Sandyalê – Um no Enxame (2014)
Taco de Golfe – Folge (2018)
The Baggios – Brutown (2016)
Tori – Ignatia, (2019)

 

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