Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br
Uma manifestação pacífica, ordeira e sem violência em toda a cidade de Aracaju. Os protestos que reuniram cerca de 16 mil pessoas (segundo dados da Polícia Militar) – mais de 20 mil, segundo os organizadores – e se arrastaram até o fim da noite de ontem em duas grandes avenidas registraram poucas ocorrências policiais. Até o fechamento desta edição, sete pessoas foram detidas por pequenos furtos e tentativas de depredação do patrimônio público. Outros dois adolescentes foram apreendidos na Rua Maruim, no Centro, próximo à área de concentração dos protestos. Eles estavam armados com facas e, segundo informações, iriam fazer assaltos em meio ao protesto.
Por volta das 18h45, um coquetel molotov – garrafa de gasolina com um pavio aceso – foi jogada contra o prédio da Companhia Estadual de Habitação e Obras Públicas (Cehop), na Avenida Adélia Franco, Distrito Industrial (zona sul). O artefato atingiu o portão da repartição e causou um incêndio, que foi rapidamente apagado por policiais militares que acompanhavam a passeata no entorno da avenida. Eles tentaram prender o rapaz que jogou a garrafa, mas o suspeito conseguiu fugir. A atitude do vândalo foi reprovada pelos outros manifestantes, que lhe deram uma sonora vaia.
Já às 20h30, quando o ato público começava a ser encerrado, um grupo de 20 pessoas entrou em um supermercado na Avenida Heráclito Rollemberg, no São Conrado (zona sul), e roubou vários produtos. No entanto, não se confirmou qualquer ligação entre o grupo e os manifestantes. O estabelecimento, da rede Todo Dia, estava aberto no momento da invasão. Duas equipes do Grupamento Especial Tático de Ações com Motos (Getam) chegou rápido ao local, mas os ladrões conseguiram fugir.
A segurança das passeatas contou com uma medida inédita: mais de 100 policiais à paisana se misturaram em meio aos manifestantes, incluindo o comandante-geral da corporação, coronel Maurício Iunes, e outros integrantes do Comando, além de integrantes do Grupo de Gestão de Crises e Conflitos (GGCC) e do Serviço Reservado (PM-2). Além de fazer a segurança, eles também orientavam o trânsito, liberavam a passagem de ambulâncias e apartavam algumas discussões mais acirradas com integrantes de partidos políticos que tentavam fazer discursos no protesto e foram hostilizados pelos outros participantes do ato.
Os militares também repassavam informações ao Quartel do Comando Geral da PM (QCG), no Centro, onde foi montada uma central de monitoramento com imagens de câmeras do Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp) e da Superintendência Municipal de Transportes e Trânsito (SMTT). As imagens eram acompanhadas um grupo de delegados e comandantes de área, liderados pelo secretário-adjunto de Segurança Pública, João Batista Santos Júnior. Além dos policiais à paisana, outros policiais de serviço, incluindo o Batalhão de Polícia de Choque (BPChq), foram colocados de prontidão no QCG e em outras bases estratégicas da cidade. Uma parte da tropa acompanhava as duas frentes da manifestação em ruas paralelas aos trajetos.
Ontem à noite, a PM divulgou um comunicado em sua página oficial no Facebook, parabenizando os manifestantes sergipanos pelo comportamento pacífico ao longo do protesto. "O comando está satisfeito pela população compreender que todos possuem o direito de reivindicar por melhorias sociais e que o papel da Polícia Militar é garantir a tranquilidade e segurança de cada um dos presentes, além de preservar o patrimônio público. Portanto, parabéns a todos os participantes pelo desempenho e comprometimento com a ordem pública, além do respeito oferecido aos Policiais Militares do Estado de Sergipe. A população sergipana deu um exemplo de cidadania a todo o país, pelo caráter ordeiro da manifestação", comemorou a corporação.
Impasse contornado – A segurança do ato público foi definida depois de um impasse entre o Comando da PM e o Movimento Não Pago. Na terça-feira, oficiais do GGCC procuraram os coordenadores do Não Pago para conversar sobre a organização da passeata. No entanto, o movimento exigiu que a reunião fosse em um local neutro – foi oferecido o auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SE) – para que os líderes não fossem ao QCG. "Tal cuidado se deve aos fatos ocorridos nos últimos atos contra o aumento da tarifa. No dia 17 de maio, sete manifestantes foram detidos injustificadamente e de forma truculenta, mesmo depois de terminada a manifestação pacífica. Haviam até mesmo policiais sem identificação", alegou uma nota divulgada na terça-feira pelo Não Pago.
O impasse foi contornado após a intervenção da OAB, cujo presidente Carlos Augusto Nascimento se ofereceu para ir com os líderes do movimento ao quartel da PM.
A reunião começou no final da manhã de ontem e terminou no começo da tarde em um clima amistoso, com o coronel Iunes e outros oficiais do comando da PM vestidos à paisana. Além da definição de que os militares fardados acompanhariam o protesto à distância, houve a recomendação de que os manifestantes não usassem máscaras, a fim de identificar os vândalos infiltrados. "Nós temos cerca de 70 equipamentos de monitoramento e nós iremos identificar as pessoas que forem de encontro à ordem pública. Aqueles que ultrapassarem a questão da civilidade e cidadania, a PM se fará presente e fará as prisões. A população vai se unir à PM no intuito de propiciarmos uma festa pacifica e democrática para a sociedade", disse.


