Gabriel Damásio
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Revolta e frustração. São as palavras que resumem o sentimento dos familiares do adolescente Jonatha Carvalho dos Anjos, 16 anos, em relação às conclusões do inquérito policial que apurou as circunstancias de sua morte, ocorrida em 13 de março deste ano na região entre as cidades de Japoatã e Neópolis (Baixo São Francisco). Em coletiva de imprensa realizada na manhã de ontem, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) apresentou o relatório final da investigação sobre o desaparecimento e posterior assassinato do rapaz, cujo corpo foi encontrado 13 dias depois no povoado Tatu, em Japoatã, com uma marca de tiro na cabeça e sob estado de decomposição.
O resultado do inquérito, entregue ontem à tarde ao Ministério Público Estadual (MPE), não apontou nenhum autor ou suspeito da morte do adolescente, que havia sumido depois de uma operação realizada na região pelo Comando de Operações Especiais da Polícia Militar (COE). Na ocasião, três homens morreram em um suposto tiroteio com os policiais na rodovia SE-304, próximo a Japoatã: o taxista Anderson de Jesus Oliveira e os ex-presidiários Ricardo André Carvalho Pimentel, o ‘Fofo’ (primo de Jonatha), e Eraldo Santos de Jesus, o ‘Mago’. Apesar de confirmar que, no dia 13, Jonatha saiu de sua casa, no Cj. Eduardo Gomes, em São Cristóvão (Grande Aracaju), no carro onde estava Ricardo e Anderson, o inquérito acabou isentando os policiais envolvidos na operação de qualquer participação na morte do adolescente.
"Por conta de todo o exposto e de não ter encontrado provas técnicas, testemunhais, indícios, vestígios ou evidências da autoria do delito não foi indiciado nenhum dos policiais investigados e não houve êxito, até o momento, com relação à autoria do crime que ceifou a vida do adolescente", anunciou o delegado Jonathas Evangelista, chefe operacional da Coordenadoria de Polícia do Interior (Copci), acrescentando que o adolescente não foi visto com os suspeitos em Japoatã na hora do suposto confronto, e que entre os elementos que faltaram ser descobertos, está o projétil da arma que fez o disparo contra Jonatha, o qual não foi encontrado pelas equipes de perícia.
O resultado indignou os familiares do adolescente e dos outros três mortos, que antes mesmo do fim da coletiva, já manifestavam reprovação ao anúncio da polícia. "Isso é mentira! A gente sabe que isso é mentira! A polícia matou meu filho! Não agüento mais ouvir isso! Vou embora daqui, senão eu quebro tudo!", explodiu o pai adotivo de Jonatha, Rosinaldo Araújo Almeida, que ficou bastante nervoso e teve de ser contido pelo advogado da família, Anderson Cortez. A mãe da vítima, Patrícia Ayres Carvalho, e parentes de Ricardo André também demonstraram revolta e chegaram a chorar durante a coletiva.
Minutos depois, um pouco mais calmos, os pais de Jonatha prometeram ir "até as últimas conseqüências" para descobrir o que aconteceu com a vítima. "Eu vim aqui (na SSP) para saber quem matou o meu filho. Infelizmente, vou sair daqui sem respostas. Embora, no fundo do meu coração, a gente saiba quem matou, mas não tem como provar. Só que isso não acabou em pizza. Muito pelo contrário, esse caso só está começando. Eu quero saber quem matou o meu filho. Eu tenho esse direito como mãe e como cidadã. E vamos atrás da verdade, até o fim", jurou Patrícia, ao afirmar que vai à Brasília para denunciar o caso ao Ministério da Justiça e ao Supremo Tribunal Federal (STF), além de procurar os veículos de comunicação de alcance nacional.
Foragido pode esclarecer mortes de Jonatha e de cabo
Apesar do resultado, a conclusão do caso não é definitiva, garante a SSP. Segundo Jonathas Evangelista, resta ainda a prisão de Wanderson José dos Santos Silva, 35, o "Biscuí", suspeito pelo assassinato do cabo da Polícia Militar Helder Freitas, 39 anos, ocorrido em 3 de março no bairro Santa Maria (zona sul de Aracaju). O crime motivou a operação do COE, porque policiais da 9ª Delegacia Metropolitana (Santa Maria), que acompanhavam a operação, investigavam Eraldo e Ricardo como suspeitos de participação no crime, já que ambos foram companheiros de cela enquanto estavam presos. "A localização desse quarto envolvido pode elucidar e finalizar o caso da morte do PM Helder, como também ajudar a esclarecer a morte do adolescente Jonatha", assegura o coordenador da Copci.
No dia em que a operação do COE aconteceu, segundo a polícia, Ricardo foi ao encontro de Eraldo, que estava em Neópolis, em um Corsa Hatch de cor prata dirigido por Anderson. Foi quando Jonatha decidiu seguir com o primo e o taxista. "A família do jovem afirmou que ele não costumava sair com o primo Ricardo e que nesse dia resolveu ir até Neópolis na companhia do parente para uma festa no município. Não foi confirmada a realização dessa festa, portanto as investigações apontam a saída do jovem de Aracaju, mas não a sua chegada em Neópolis", disse o delegado Evangelista.
O coordenador cita ainda que o depoimento da esposa de Eraldo, que estava com ele em Neópolis, confirma a chegada de três homens em um carro prata, mas não reconhece se o adolescente estava entre eles. "Biscuí", que está foragido, foi relacionado como um dos ocupantes do carro – e participantes do tiroteio. "Ela confirma a presença de Ricardo e Wanderson, mas a terceira pessoa ela disse que não conhecia. Após apresentação da foto de Jonatha, ela descartou ser o terceiro ocupante do carro", ilustrou ele, descartando quaisquer sinais de tortura no corpo do adolescente, com exceção do tiro na cabeça.
Sobre o tiroteio, o inquérito não indicou testemunhas do suposto confronto entre os investigados e a polícia, pois o local era ermo e o fato aconteceu à noite. Todos os policiais que foram ouvidos informam que no momento da abordagem havia apenas três indivíduos e rechaçam a presença do adolescente no veículo no momento do confronto. As famílias dos mortos rejeitam a hipótese de confronto, pois sustentam que o Corsa não tinha nenhuma marca de tiros e que nenhum dos envolvidos estava armado. "Não teve tiroteio nenhum, porque o carro meu irmão não tinha nenhuma marca de unha, quanto mais de bala", afirma a irmã do taxista, Eliane Oliveira.
A mãe de Jonatha também criticou o trabalho de apuração da polícia, classificado por ela como "uma negação". Patrícia Ayres desconfia de que o resultado pode estar encobrindo a participação de policiais na morte do filho "Você acha que os policiais iriam dizer que o meu filho estava dentro do carro (Corsa)? Vocês acham que eles iriam confessar que o menino estava no carro? É lógico que não! Essa investigação no meu ponto de vista foi um fracasso", dispara ela. O advogado Anderson Cortez informou que vai estudar as peças do inquérito neste final de semana e, após isso, irá reunir as famílias dos mortos para anunciar como irá agir nos desdobramentos futuros do caso. (Gabriel Damásio)


