Gabriel Damásio
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O governo estadual voltará a enfrentar uma queda-de-braço com as entidades de classe da Segurança Pública, assim como aconteceu em 2007 e 2009, respectivamente durante os movimentos "Operação-Padrão", da Polícia Civil, e "Tolerância Zero", da Polícia Militar e Corpo de Bombeiros. Ontem à tarde, na Praça Fausto Cardoso, mais de 400 servidores das corporações participaram de uma assembleia que formalizou a união dos dois movimentos em um só, que vai se chamar "Polícia Legal".
A concentração aconteceu em frente à Assembleia Legislativa, durante a sessão ordinária de ontem. Os policiais estavam sem farda, desarmados e vestidos com coletes vermelhos com o nome do movimento. Reunidos em torno de um carro de som, eles procuraram manter a ordem e não bloquearam o trânsito no entorno da praça. Em seguida, após a votação, eles entraram na Assembleia e ocuparam todas as galerias, visando conversar com os deputados estaduais.
Na prática, a iniciativa vai repetir as estratégias adotadas no passado, sobretudo, a de mudar as rotinas e procedimentos de trabalho dos servidores, seguindo à risca as obrigações previstas na legislação, da forma exata como as regras estão escritas. O movimento começará hoje de manhã, quando os policiais começam a percorrer companhias da PM e delegacias da Civil. As visitas e reuniões acontecerão de forma aleatória, isto é, os locais a serem visitados serão escolhidos na hora pelos representantes do movimento.
Segundo o presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Sergipe (Sinpol), o objetivo é convencer os policiais a aderir ao movimento e trabalhar apenas dentro do que está previsto na lei. "Nós vamos trabalhar dentro da legalidade, vamos exigir as condições de trabalho que o governo tem que oferecer aos policiais. Nós não podemos mais dirigir viaturas com documentação irregular, não podemos dirigir viaturas porque não temos habilitação pra isso, não podemos usar coletes [balísticos] vencidos… tem policiais civis que vão às operações sem colete, na abnegação. Nós vamos convencer os colegas a não se abnegar mais, porque, infelizmente, o Governo do Estado não nos valoriza", afirmou.
Os militares, por sua vez, prometem suspender algumas práticas corriqueiras empregadas para agilizar o trabalho de rua. "Nós vamos fazer estritamente o que nós aprendemos na Academia de Polícia e o que está escrito na lei e nas nossas cartilhas. Se nos adotarmos essa operação, deixaremos de fazer aquele ‘plus’ a mais, mas continuaremos fazendo nosso trabalho. Ficaremos nas ruas, com as viaturas, normalmente, mas sem ir além do que a lei permite", explicou o representante da Associação dos Militares de Sergipe (Amese), sargento Edgard Menezes.
Os PMs, civis e bombeiros querem um reajuste salarial linear de até 11,5%, equivalente à reposição das perdas salariais sofridas pela categoria nos últimos anos. "Estamos discutindo aqui reajustes lineares, que são obrigação do governo. Ele não pagou e vem com discurso que não tem dinheiro. Isso mostra que não houve planejamento ao longo do tempo. É um final de governo que nos deixa muito triste, mas queremos conquistar o que é comum, que são os lineares", disse Moraes, destacando que cada uma das categorias que aderir ao "Polícia Legal" vai acrescentar suas reivindicações específicas.
Os PMs e bombeiros vão pedir que o governo envie e a Assembleia aprove a LOB (Lei de Organização Básica) e a Lei de Fixação de Efetivo, além da definição da carga horária e da exigência do curso superior para ingresso na corporação. A categoria também reclama dos atrasos nas promoções de postos, fazendo com que muitos praças fiquem muito tempo aguardando por uma mudança de patente – em alguns casos, há soldados com 19 anos de carreira no mesmo posto. Os agentes e escrivães da Civil, por sua vez, querem o pagamento parcelado do retroativo equivalente às revisões salariais entre 2008 e 2011, o mesmo que foi pago no ano passado pelo governo aos delegados de polícia – reacendendo o conflito entre as classes.
"Queremos que o governo nos diga o que fazer. O que não pode é o governo fazer de conta que nós não existimos, e é o que acontece hoje. O governo não dá uma resposta sequer, não temos direito nem a ouvir um ‘não’", reclama Moraes, sem descartar a possibilidade de uma greve. "Pode haver aquartelamento da PM e dos Bombeiros ou greve da Polícia Civil, mas isso vai depender de outras assembleias. Queremos que essa união faça a diferença. Não para pressionar a população, mas para pressionar o governo a valorizar os homens que mulheres que trabalham na Segurança Pública", frisa.
Mesmo com o endurecimento, os policiais afirmam que querem negociar com o governo e garantem que não irão criar dificuldades ou insegurança à população. "Eu ainda acredito no caminho do diálogo, que vamos ter uma conversa com o governador e resolver essa celeuma. A quantidade de militares reunidos aqui já mostra que eles estão coesos, que eles querem essas mudanças para o bem de uma polícia mais fortalecida, pra não deixar o crime avançar. Vamos buscar um entendimento nos bastidores, buscar conversar com o governador para ver se ele consegue fazer o que aconteceu em 2009, quando houve aquele tumulto todo e Jackson ajudou a abrir o diálogo", lembra o presidente da Amese, sargento Jorge Vieira.


