Por uma educação através da música

 

* Saulo Ferreira 
Há muito tenho o privilégio de lidar com o ensino de música, passando por diversos ambientes e apresentando-a a diferentes públicos. A experiência em sala de aula trouxe-me inúmeras reflexões sobre a concreta relevância da arte para a formação de cidadãos atentos e preocupados com o coletivo. Aqui não me proponho expor os inúmeros benefícios que a música nos oferece, por considerar o muito já dito sobre. Atento-me ao possível contraponto entre música, educação e cotidiano; onde a Educação Musical – enquanto área do conhecimento – passa a ganhar significados mais amplos.
Entendo o ato de ensinar como uma tarefa repleta de desafios e sacrifícios que são convertidos em um bem maior. No livro "A Alegria de Ensinar" (1994), Ruben Alves compara tal ato ao fenômeno da gravidez, no qual a mulher opta por enfrentar as dores do parto, bem como todo o processo gestacional, em prol da maternidade; considerando as transformações vitais peculiares ao fato de ser mãe. Enquanto professores, nos cabe um olhar cauteloso sobre a criação de pontes que permitam aos estudantes o acesso ao conhecimento musical que, ressignificado, possibilite uma compreensão que não se encerre na visão tecnicista ou no distanciamento das realidades. 
Trago como exemplo uma aula de prática musical em grupo, na qual os participantes são levados a interpretar uma determinada obra. Neste ambiente, é comum a variedade de instrumentos musicas, tal como sua capacidade de projeção sonora. Assim, para que um solista seja claramente ouvido, cabe aos demais músicos prezar por uma dinâmica que o privilegie, pois aquele momento a ele pertence. Em outras palavras, o que mantém a harmonia em um grupo musical, independente de sua formação, é a preocupação em ouvir o outro tal como a si mesmo e, em respeito a ele, oferecer-lhe o devido suporte sonoro. Eis uma porta de entrada para um campo de reflexões sobre o sentido de educar através da música.
Pauto meu breve discurso nas ideias de Mário Sérgio Cortella, que contrapõe os conceitos de "educação" e "escolarização". Cortella afirma que as famílias têm delegado à escola o papel que lhes cabe, ou seja, os pais transferem para tal instituição a responsabilidade de formar seus filhos no intuito de compensar aquilo que não capazes de oferecer em casa. O fato é que tal atitude reflete diretamente em nosso cotidiano quando, por exemplo, vemos o lixo ser arremessado das janelas dos carros populares e dos importados. Ou ainda, quando presenciamos a descortesia de condutores que preferem correr o risco de gerar incidentes de trânsito a respeitar o espaço que pertence ao outro. Neste caso, não estamos nos restringindo ao conhecimento adquirido nas salas de aula, referimo-nos aos valores que deixam de ser aprendidos em casa, no seio da família, mediante a correções, reflexões e bons exemplos.    
Ao instigarmos nossos alunos a refletirem sobre como as condutas referentes ao ambiente musical podem ser aplicadas fora dele, estamos abrindo portas para uma discussão mais ampla, na qual a música é vista como uma poderosa ferramenta no processo de formação do indivíduo. Pais e mestres devem estar unidos, cientes dos desafios e dos ganhos, como a mãe que suporta as dores pelo amor ao filho, ou ainda, como o grupo que dá suporte ao solista. Seja a música um elo de ligação entre a sociedade e os mais nobres valores; por 
uma educação através dela. 
* Saulo Ferreira , guitarrista, compositor e professor, graduado em Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Sergipe e mestre em Educação Musical pela Universidade Federal da Bahia. Em 2018, foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural, maior honraria pública da cultura no país. 

* Saulo Ferreira 

Há muito tenho o privilégio de lidar com o ensino de música, passando por diversos ambientes e apresentando-a a diferentes públicos. A experiência em sala de aula trouxe-me inúmeras reflexões sobre a concreta relevância da arte para a formação de cidadãos atentos e preocupados com o coletivo. Aqui não me proponho expor os inúmeros benefícios que a música nos oferece, por considerar o muito já dito sobre. Atento-me ao possível contraponto entre música, educação e cotidiano; onde a Educação Musical – enquanto área do conhecimento – passa a ganhar significados mais amplos.
Entendo o ato de ensinar como uma tarefa repleta de desafios e sacrifícios que são convertidos em um bem maior. No livro "A Alegria de Ensinar" (1994), Ruben Alves compara tal ato ao fenômeno da gravidez, no qual a mulher opta por enfrentar as dores do parto, bem como todo o processo gestacional, em prol da maternidade; considerando as transformações vitais peculiares ao fato de ser mãe. Enquanto professores, nos cabe um olhar cauteloso sobre a criação de pontes que permitam aos estudantes o acesso ao conhecimento musical que, ressignificado, possibilite uma compreensão que não se encerre na visão tecnicista ou no distanciamento das realidades. 
Trago como exemplo uma aula de prática musical em grupo, na qual os participantes são levados a interpretar uma determinada obra. Neste ambiente, é comum a variedade de instrumentos musicas, tal como sua capacidade de projeção sonora. Assim, para que um solista seja claramente ouvido, cabe aos demais músicos prezar por uma dinâmica que o privilegie, pois aquele momento a ele pertence. Em outras palavras, o que mantém a harmonia em um grupo musical, independente de sua formação, é a preocupação em ouvir o outro tal como a si mesmo e, em respeito a ele, oferecer-lhe o devido suporte sonoro. Eis uma porta de entrada para um campo de reflexões sobre o sentido de educar através da música.
Pauto meu breve discurso nas ideias de Mário Sérgio Cortella, que contrapõe os conceitos de "educação" e "escolarização". Cortella afirma que as famílias têm delegado à escola o papel que lhes cabe, ou seja, os pais transferem para tal instituição a responsabilidade de formar seus filhos no intuito de compensar aquilo que não capazes de oferecer em casa. O fato é que tal atitude reflete diretamente em nosso cotidiano quando, por exemplo, vemos o lixo ser arremessado das janelas dos carros populares e dos importados. Ou ainda, quando presenciamos a descortesia de condutores que preferem correr o risco de gerar incidentes de trânsito a respeitar o espaço que pertence ao outro. Neste caso, não estamos nos restringindo ao conhecimento adquirido nas salas de aula, referimo-nos aos valores que deixam de ser aprendidos em casa, no seio da família, mediante a correções, reflexões e bons exemplos.    
Ao instigarmos nossos alunos a refletirem sobre como as condutas referentes ao ambiente musical podem ser aplicadas fora dele, estamos abrindo portas para uma discussão mais ampla, na qual a música é vista como uma poderosa ferramenta no processo de formação do indivíduo. Pais e mestres devem estar unidos, cientes dos desafios e dos ganhos, como a mãe que suporta as dores pelo amor ao filho, ou ainda, como o grupo que dá suporte ao solista. Seja a música um elo de ligação entre a sociedade e os mais nobres valores; por uma educação através dela. 

* Saulo Ferreira , guitarrista, compositor e professor, graduado em Licenciatura em Música pela Universidade Federal de Sergipe e mestre em Educação Musical pela Universidade Federal da Bahia. Em 2018, foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural, maior honraria pública da cultura no país. 

 

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