Nas entrevistas que concedeu na última sexta-feira para defender a aprovação do empréstimo de R$ 727 milhões pela Assembleia Legislativa, o governador Marcelo Déda pode até não ter mudado o voto de um único deputado estadual, mas sensibilizou o povo sergipano. E o povo é quem elege a classe política. E deputado, por mais alheio que seja em torno dos interesses populares, sabe muito bem o que alguns gestos representam.
Déda suspendeu um rigoroso tratamento contra um câncer no estômago – fará hoje, em São Paulo, o terceiro ciclo da quimioterapia -, fez louvação a Deus, agradeceu a fé e a oração dos sergipanos, e partiu para o Proinveste – o programa do empréstimo – que era o motivo principal das entrevistas. Mostrou que todos os estados brasileiros estão aderindo ao programa, que Sergipe teria direito ao dobro do que está sendo pleiteado e que as obras que serão feitas vão atender todos os municípios sergipanos.
O governador fez apelos aos prefeitos, lideranças comunitárias e citou nominalmente alguns deputados, relacionando obras que serão feitas em suas bases eleitorais a partir da aprovação dos projetos. Evitou criticar o senador Eduardo Amorim (PSC), que vem sendo apontado como responsável pela lenta tramitação do projeto no legislativo, e fez um apelo pela unidade em torno dos interesses de Sergipe. E ainda chegou a pedir autorização não apenas a Amorim, mas também ao prefeito eleito de Aracaju, João Alves Filho (DEM), para, após a aprovação do empréstimo, marcar uma audiência com a presidente Dilma Rousseff com a presença de todos eles. A intenção é mostrar que apesar das divergências políticas e eleitorais, os sergipanos se juntam para a execução de projetos que possibilitem o crescimento do Estado e a melhoria das condições de vida da população.
Dono de uma oratória brilhante e político que mais sabe utilizar os meios de comunicação, Déda deu um show, recebeu mensagens comoventes e se emocionou em algumas ocasiões. Pediu aos deputados estaduais a oportunidade de continuar trabalhando em prol dos sergipanos, e advertiu que a não aprovação do Proinveste em tempo hábil fará com que o Estado atravesse dias de dificuldades, e ele não terá condições de atender sequer os pleitos mais simples dos prefeitos eleitos que tomarão posse em primeiro de janeiro. Para ter a certeza de que a sua mensagem seria ouvida em todos os rincões do Estado, Déda orientou a sua assessoria a montar uma grande rede de rádio, a partir da Megga FM, de Aracaju, mas não deixou de falar também para a TV Sergipe e a TV Atalaia, que também concederam generosos espaços em seus noticiários. Ou seja, quem não tem o hábito de ouvir rádio, recebeu também a sua mensagem através das emissoras de tevê e ainda pelas redes sociais, bem utilizadas pela equipe do governador e também pelos seus adversários.
Para se ter ideia do alcance da entrevista, o programa de George Magalhães, na Megga, foi retransmitido pelas emissoras comunitárias Jenipapo FM /Lagarto, RCB FM/Boquim, Boca da Mata FM/Nossa Senhora da Glória, Aquidabã FM, Japoatâ FM, Propriá FM, Neopolis FM, Poço Verde FM, Comunidade FM/ conjunto Eduardo Gomes e Juventude FM/Lagarto. Alémd as emissoras comerciais Xingó FM/Canindé, Princesa FM e AM /Itabaiana, Aparecida FM/ Lagarto, Eldorado FM/Lagarto, Progresso FM /Lagarto, Tropical FM/ Simão Dias, Abaís AM/ Estância e Luandê FM/Tobias Barreto.
Muitos deputados vão alegar que estão sendo pressionados. Mas o Legislativo tem que funcionar mesmo sob pressão, já que reflete diretamente os interesses da população. Apesar de representarem o Estado, a maioria dos deputados se limita na Assembleia a defender os interesses de determinada região, onde possui base eleitoral. E a entrevista do governador foi voltada para os interesses de cada um dos eleitores sergipanos.
O legislativo não é imune a pressões políticas e muito menos a pressões populares.
Saliva
Nunca na história política de Sergipe um governo gastou tanta saliva e juízo para convencer a oposição a apoiar um projeto do Executivo. Deputados governistas, secretários de Estado, assessores e principalmente o governador licenciado Marcelo Déda passaram os últimos dias ocupando espaços na imprensa tentando convencer os opositores sobre os benefícios do empréstimo de R$ 727 milhões. O sucesso ou o fracasso dessa empreitada será visto, provavelmente, na sessão de quarta-feira, 31 , na Assembleia Legislativa.
Anos 80
Em 1986, João Alves estava concluindo o seu primeiro mandato de governador e precisava aprovar um vultoso empréstimo por antecipação de receita – na época não existia Lei de Responsabilidade Fiscal – e enfrentou uma oposição pesada em função da disputa eleitoral para a sua sucessão. Adversários que apoiavam a candidatura de José Carlos Teixeira impediram a tramitação do projeto, até que João conseguiu atrair um deputado garantindo a maioria necessária.
Por antecipação
Desta vez, o senador Eduardo Amorim (PSC), que está em campanha para suceder Marcelo Déda desde 2010, antes mesmo de assumir o mandato de senador, quer bloquear os recursos do Proinveste dois anos antes da eleição estadual. Em público, diz que os R$ 727 milhões podem inviabilizar futuras administrações. O senador nega (ver carta nesta edição, página 2), mas aos deputados adverte que o conjunto de obras a ser executado com os recursos pode inviabilizar o projeto de chegar ao governo do Estado em 2014. Dois deputados confirmaram à coluna ligações do senador com esse objetivo.
Pavio curso
Com pavio curto, o deputado Francisco Gualberto (PT) diz que não admite mentiras nessa guerra entre situação e oposição para aprovar o projeto de lei do empréstimo de R$ 727 milhões. Ele garante que o senador Eduardo Amorim (PSC) não fala a verdade quando vai à imprensa dizer que sequer existe projeto de construção do Hospital do Câncer em Sergipe. Para desmentir o senador, Gualberto irá fazer uma detalhada apresentação do projeto do hospital provavelmente ainda nesta semana. Será uma espécie de ‘cala a boa’.
Mais paciente
O deputado estadual Zezinho Guimarães (PMDB) tem buscado conversar reservadamente com alguns pares da Assembleia Legislativa para explicar didaticamente como funciona uma operação de crédito junto ao BNDES com aval do governo Federal. Como bancário licenciado, ele garante que essa é mais uma tentativa de convencer os oposicionistas a votar a favor do empréstimo de R$ 727 milhões.
Explicações
A tática de Zezinho é a que está sendo recomendada por Déda ao líder Gualberto. Sugeriu que ele evite críticas a deputados e a família Amorim. E também converse com os deputados.
Relatório
O relator Paulinho da Varzinhas (PTdoB) promete apresentar nesta segunda-feira o seu parecer ao projeto de lei do Proinveste. Se houver boa vontade, o projeto pode ser votado na Comissão de Finanças imediatamente e, em seguida ser remetido às demais comissões. Mas tudo depende de entendimento.
Conselheiro
Em meio ao furacão do Proinveste, Belivaldo Chagas, ex-deputado estadual e atual secretário de Estado da Educação, será sabatinado na segunda-feira para a vaga de conselheiro do Tribunal de Contas. A deputada Susana Azevedo, outra pretendente, já foi ouvida e aprovada pela comissão. A partir das 11 horas, Belivaldo estará na sala de comissões da Assembleia Legislativa respondendo aos vários questionamentos dos deputados, conforme determina o Regimento da Casa.
Sabatina
A sabatina de segunda-feira será feita pelos deputados titulares da comissão especial que é formada por Venâncio Fonseca, Francisco Gualberto, Zezinho Guimarães, Zeca da Silva e Raimundo Vieira. No entanto, todos os demais parlamentares poderão participar do ato na sala de comissões.
Aviso prévio
Para evitar surpresas no momento da eleição, que será posteriormente marcada, o deputado Francisco Gualberto (PT), solicitou da presidente da AL, deputada Angélica Guimarães (PSC), que formalizasse um aviso prévio a todos os parlamentares sobre o dia do pleito. "Pedi que a Mesa diretora comunique a todos nós, do jeito que puder, com pelo menos 24 horas de antecedência. Assim os deputados poderão se programar melhor e evitar viagens, por exemplo".
Atenderá
O pedido foi feito na tribuna do parlamento, e de imediato Angélica garantiu que atenderá. "Não sei exatamente se comunicarei com essa precisão de 24 horas, mas fique certo de que todos os deputados ficarão sabendo da eleição um dia antes", garantiu. Pelo Regimento, após a sabatina de segunda a comissão terá cinco dias para elaborar o relatório e encaminhar à Mesa. Depois disso, fica a cargo da presidente marcar o dia da eleição no plenário.

