Quinta, 03 De Abril De 2025
       
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Primeiro você começa…


Publicado em 22 de março de 2025
Por Jornal Do Dia Se


João Ventura, à época do Samba de Cacique. Melhorou muito(Divulgação)

* J. Victor Fernandes
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Todo mundo já deve ter visto a trend “primeiro você começa, depois você melhora”. Os gigabytes de Gil já são terabytes, e cá estamos, navegantes crônicos num mar de inutilidades e modismos. Mas, às vezes, algo se aproveita. Acabo, assim, advogando pro bono essa causa perdida, mas nem tudo está perdido e nada se perde – roube como um artista.
Foram despertadas memórias e gatilhos. No caminho, muitas vezes, o artista vai acreditar sozinho na estrada escolhida, no próprio talento. Por aqui, são quase vinte anos de carreira e, olhando para trás, vejo o quanto se pode postergar um projeto achando que existe um momento ideal para se começar – especialmente os fora da zona de conforto.
O cabra espera o aval de outros artistas, de pessoas que admira. Vai deixando para depois, eis que a vida passa. E, nesse mundão competitivo, de tanta precisão e medo, sempre terá alguém te dizendo para desistir. Venho de uma geração marcada por isso. Tantos desistiram. Todavia, se a sorte lhe sorrir, haverá poucos e bons, como foi Cleomar Brandi (in memoriam), chamando atenção para potenciais que, à época, eu nem sabia que tinha. Dessa generosidade, eu fiz a marca dos meus passos – sigo sorrindo de volta e levarei até minha “última saideira”.
Para além da loteria e das amarguras geracionais, trago uma constatação empírica de uma década de coletivo de artes integradas: acompanhei o início da carreira de muita gente e as pessoas se aprimoram. Ninguém está definido. Parece óbvio, mas precisa ser dito. Vi artistas darem saltos gigantes! É bem verdade que sempre haverá o tempo da excelência. Os especialistas dizem ser algo em torno de oito mil horas de experiência prática, entre cinco a dez anos.
Primeiro você começa. Depois aprimora, ouve, aprende, analisa, põe em prática, controla o orgulho, enfrenta a autossabotagem, supera a Síndrome do Impostor, aprende mais. Os frutos chegam, e você melhora. O João Ventura que tocou com Madonna em Nova York, por exemplo, não foi aquele que eu, muitos anos antes, em Salvador, presenciei em incontáveis manhãs debruçado nas teclas do piano, ali, burilando a arte.
Essas pessoas que evoluíram se dedicaram, cresceram feito planta, quando ninguém estava vendo. E digo: o processo é real. Depois, quem conseguir, tenha olhos para ver, tenha mãos para se regar e crescer também.
Uma das primeiras apresentações que fiz à vera foi em 2014 no Brother´s Club, hoje Morango’s Casa Cultural. Lá estava eu, lendo o poema na prancheta – era um artifício para tentar disfarçar o tremor das mãos. Boca seca, mas muita vontade. Depois, ganhei palcos maiores e o resto é história, a minha.
Então, comece. Leia seu poema no papel. Vá mesmo com a mão tremendo. Gagueje, siga em frente, estude, assuma a pizza embaixo do braço de nervoso. Depois você melhora.
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J. Victor Fernandes, produtor cultural e escritor.
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