Protesto contra tarifa termina com 4 presos

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

Quatro manifestantes foram presos pela Polícia Militar durante o protesto contra o recente aumento da passagem de ônibus em Aracaju, ocorrido entre a tarde e a noite desta quinta-feira. O incidente aconteceu no estacionamento do Shopping Jardins, bairro Jardins (zona sul), por volta das 19h, quando cerca de 100 pessoas encerravam a caminhada e se envolveram em um enfrentamento com soldados do Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). De acordo com o Movimento Não Pago, cerca de 20 pessoas alegam ter sido agredidas pelos soldados e prometem fazer exames de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML).
Segundo o advogado Flaviano Cardoso, que defendeu os manifestantes, eles seguiam em caminhada até o Terminal de Integração do DIA, no Distrito Industrial, mas se dividiram na altura do bairro Grageru, depois de um primeiro estranhamento que aconteceu entre PMs e ativistas. A manifestação seguiu então para o shopping, onde os soldados tentaram dispersar o grupo. Na nova confusão, alguns ativistas foram empurrados e agredidos com tapas e golpes de cassetetes. Houve reação e as quatro pessoas, incluindo um adolescente, foram detidos e levados em viaturas para a Plantonista. "Duas delas, inclusive, nem estavam participando do ato, mas foram prestar solidariedade diante da ação truculenta e abusiva da Polícia Militar", protestou Flaviano.
O coronel Luiz Azevedo Costa Neto, comandante de Policiamento da Capital, alegou que os quatro manifestantes foram detidos porque estavam encapuzados e carregavam objetos como escudos artesanais e porretes com pregos nas pontas, o que indicava que poderia haver atos de vandalismo durante o protesto. "Já haviam informes de que algumas pessoas poderiam buscar um comportamento de confronto, e isso se confirmou desde o início, quando observamos pessoas com esses objetos. Essas pessoas encapuzadas começaram a proferir gritos de apologia às drogas, depois colocaram fogo em bonecos no meio da avenida, e ficamos observando. Quando eles fizeram menção a entrar no shopping, adotando um comportamento mais agressivo, decidimos agir. Foi uma coisa que fugiu à normalidade das manifestações em Sergipe", justificou Azevedo.
Já os manifestantes detidos foram levados para a Delegacia Plantonista e liberados por volta das 23h, depois de assinarem um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TOC). Flaviano informou que os delegados plantonistas não encontraram nenhuma acusação que justificasse a prisão dos ativistas. Ele também negou que houvesse a intenção de praticar vandalismo. "Se os policiais tivessem realmente visto esses pedaços de madeira com pregos, eles erraram em não apreender esses objetos. As únicas coisas que foram apreendidas foram faixas, pertences pessoais, celulares e um escudo manual de plástico, que tem um aspecto muito mais folclórico e artesanal do que de instrumento de defesa. O que a PM quis foi arrumar um pretexto para intimidar o movimento", diz.
Um segundo incidente ocorreu dentro da sala de depoimentos da Plantonista: o advogado dos ativistas diz que foi xingado e empurrado por um cabo do Batalhão de Radiopatrulha (BPRp), que teria interrompido o depoimento dos clientes e dito a um soldado que iria "mostrar como colocar um advogado em seu devido lugar". Segundo Flaviano, um soldado que acompanhava o cabo teria gravado a cena em uma câmera portátil, mas as imagens não foram entregues. "Pedi inclusive que os delegados apreendessem a câmera, mas isso não aconteceu e o policial, num um arroubo de autoritarismo, me disse: ‘Venha me revistar você pessoalmente, se for homem’. Foi uma violação gravíssima das prerrogativas legais, que não vai ficar impune", promete Cardoso.
O comandante não comentou diretamente o incidente na delegacia, mas assegurou que a PM sempre respeitou o direito de manifestação da população e precisou agir para evitar uma situação de pânico no shopping. "A Polícia Militar não teve nenhuma ação arbitrária em relação às manifestações e tem dado todo apoio, isolando os grupos e orientando o trânsito, permitindo que tudo ocorresse, assim como aconteceu nesta manifestação. As pessoas tem o direito à cidadania, procuramos trabalhar de forma ordeira e pacífica, mas tudo tem limite. Não se pode fazer tudo em uma manifestação, nem copiar o comportamento de conflito que temos visto nos protestos do Sul do país", disse Luiz.
Ontem, o caso foi relatado ao presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SE), Henri Clay Andrade, e à Defensoria Pública do Estado. Ambos prometeram acionar o Ministério Público e a Corregedoria da Polícia Militar, exigindo uma investigação rigorosa dos incidentes.

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