Sexta, 21 De Junho De 2024
       
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Se eu quiser falar com Deus


Publicado em 28 de maio de 2024
Por Jornal Do Dia Se


Notório, sem qualidade notável (Divulgação)

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
 
Nos livros de história, marchas e paradas militares correspondem sempre à ostentação de força, uma demonstração de poderio material orientada para a intimidação de eventuais inimigos. 
O tempo passa, mas a lógica beligerante das nações imperialistas ainda não é página virada, apesar das lágrimas e do sangue derramado das fotografias em preto e branco. A Marcha para Jesus, reunindo multidões de crentes, por exemplo, se impõe sobretudo pelo volume. O triunfo da vontade, para lembrar Leni Riefenstahl, se dá exclusivamente por vantagem numérica – seja com bombas, seja com gritos de aleluia.
Deus não habita em templos de pedra e cal, mas as igrejas prosperam como nunca. Beneficiadas pelo status de instituição filantrópica, isentas de contribuição fiscal, as organizações religiosas atuam desde sempre como força política e econômica, com a ambição declarada de influência em todas as esferas da vida pública. Os palcos, trios elétricos e fanáticos ocupando as ruas no Rio de Janeiro, última fim de semana, mandam um recado mundano, em alto e bom som: os cristãos são muitos.
Não é de se espantar, portanto, a presença de lideranças partidárias em espaços de devoção, essencialmente estranhos à performance política. Quem não lembra do governador Jackson Barreto e o recém eleito prefeito Edvaldo Nogueira, compenetrados servidores públicos, presentes à inauguração da pedra fundamental de um faraônico templo evangélico, há poucos anos? Pediam bênçãos, em pose contrita, mas receberiam os votos dos crentes de bom grado.
Curioso é notar que, mesmo na bíblia, considerada um livro sagrado, há diversas passagens recomendando a oração a portas fechadas, longe do olhar público, como na canção de Gilberto Gil que empresta o título a este artigo. Nada de orar em pé nas sinagogas, às esquinas, sob os olhos e a opinião dos homens. A mão esquerda não tem nada com os gestos da mão direita, Mateus adverte. E, no entanto, marcham os crentes.
Agenda reacionária – Engana-se quem acredita que a Marcha para Jesus é um evento de caráter religioso, voltado para as aflições do espírito. A agenda é outra, estritamente política. Trata-se de submeter a República aos dogmasdo rebanho.
Personagem notório, sem nenhuma qualidade notável, o pastor Silas Malafaia não poderia ter sido mais claro na pregação reacionária, entoada durante a Marcha para Jesus. Os cristão estariam ocupando um território. O objetivo era o de intimidar autoridades e instituições, o Supremo Tribunal Federal, ditar as Leis, suplantar a Constituição.
A bola da vez é o direito ao aborto legal. Malafaia voltou a chamar o ministro Alexandre de Moraes de “ditador de toga”. Ele criticou a liminar que suspendeu resolução do Conselho Federal de Medicina que proíbe médicos de realizarem um procedimento recomendado pela Organização Mundial de Saúde, usado nos casos de aborto decorrentes de estupro.
A Terra é redonda – Na banda civilizada do mundo, o debate sobre o aborto tende à pacificação.
Há pouco tempo, a França – epicentro de onde a utopia de liberdade, igualdade e fraternidade irradiou com a força redentora de uma fatalidade e uma premonição, século passado -, incluiu o direito ao aborto na Constituição.
Corta para os tristes trópicos, às vésperas de um pleito eleitoral, quando todas as atenções se voltam para o embate nas urnas. Em tal hora, até o mais progressista dos candidatos treme. Debates urgentes como a legalização do aborto, com incidência na realidade concreta da população, acabam sufocados por um moralismo tacanho, relegados a segundo plano.
Toda eleição, o tema volta à baila, sob os argumentos mais atrasados. Recentemente, o debate tomou o rumo das vias tortas e chegou de maneira escandalosa à barra dos tribunais. O leitor certamente lembra: A juíza Joana Ribeiro Zimmer, da Justiça estadual de Santa Catarina, induziu, em audiência, uma menina de 11 anos, vítima de estupro, a desistir de um aborto legal.
O episódio ganhou repercussão após a publicação de uma matéria no site The Intercept Brasil. A bem da verdade, situações muito parecidas se repetem todos os dias, nos quatro cantos do país.
No Brasil, o aborto só é arriscado para quem não pode pagar pela intervenção adequada. Segundo a Pesquisa Nacional de Aborto – PNA – realizada há alguns anos, a interrupção da gravidez é prática tão comum que, até completar 40 anos, mais de uma em cada cinco brasileiras o comete.
De acordo com as estimativas mais conservadoras, pelo menos 330 mil brasileiras abortaram apenas no segundo semestre de 2021. Além disso, pesquisas revelam que as mulheres negras, com baixa escolaridade e renda são mais vulneráveis ao aborto de risco.
Os valores envolvidos na peleja já foram confrontados diante da Justiça, no plenário do Supremo Tribunal Federal. Coube ao ministro Carlos Ayres Britto proferir o voto que garantiu às mulheres o direito de interromper a gravidez de anencéfalos.
O problema é que por onde passou boi ainda tarda a passar boiada. A atuação dos setores religiosos representados pela bancada da bíblia impede que a decisão do STF abra um necessário precedente progressista e crie um ambiente favorável à descriminalização sob qualquer circunstância, postergando uma revolução que, se Deus quiser, ainda há de vingar um dia.
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