Rian Santos
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Não é nada fácil, imagino, reconstituir os passos de um fantasma. No entanto, foi mais ou menos isso o que fez Sérgio Borges, ao realizar o documentário ‘Jacinta Passos, se me quiseres amar’. A disposição dos curiosos no canal do Cine Massapé (Youtube), o filme parte dos versos legados por uma poeta comunista, diagnosticada com esquizofrenia, para alardear um compromisso inegociável com um ideal supra humano de liberdade.
Antes mesmo de o filme vir a público, Sérgio dizia em alto e bom som, para quem quisesse ouvir, da intenção de abrir uma espécie de frente na luta anti manicomial por meio do curta. No entanto, talvez tenha ido ainda mais longe.
Embora o documentário se atenha, sobretudo, aos anos de confinamento, quando Jacinta Passos foi internada numa clínica psiquiátrica de Aracaju, o roteiro também faz alusão, ainda que de modo muito sutil, às dificuldades impostas ao mulherio, mesmo nos círculos mais progressistas da época. Fala-se, aqui, no período anterior ao golpe de 64. Não à toa, Jacinta Passos ainda é uma poeta pouco conhecida.
O reconhecimento da crítica especializada, Jacinta teve. Mario de Andrade e Antonio Candido foram dois que fizeram questão de chamar atenção para a força de seus versos. Após desatar os laços familiares, contudo, ela meio que se perdeu no redemoinho do mundo com uma máquina de escrever embaixo do braço. Nunca mais pertenceu a lugar algum, nem a ninguém.
Assim, pouco ficou da passagem de Jacinta Passos pela Barra dos Coqueiros, Aracaju, Pernambuco e Bahia. Nasceu em Cruz das Almas, adotou o socialismo, cometeu versos engajados, casou, gerou uma filha, descasou, foi presa e depois internada em um manicômio. Tudo o mais é vestígio.
‘Jacinta Passos, se me quiseres amar’ tem lançamento previsto no Cinema do Museu da Bahia, em Salvador, no dia 10 de setembro.


