Sem PM, show na Sarney tem assaltos e um morto

Gabriel Damásio
gabrieldamasio@jornaldodiase.com.br

A realização de um show de reggae em uma casa de eventos na Rodovia José Sarney, na Aruana (zona de expansão), durante a madrugada de sábado, foi marcada por algumas ocorrências, como assaltos à mão armada e uma suspeita de assassinato. Os incidentes foram causados pela ausência de policiamento externo, isto é, no entorno da festa. Ao amanhecer, um jovem de aproximadamente 20 anos foi encontrado morto na areia da praia, próximo ao local do evento. Segundo as primeiras informações, ele usava bermuda e boné, não portava documentos e apresentava marcas de tiros pelo corpo. A polícia ainda investigava detalhes da morte até o fechamento desta edição, mas já apurou que o rapaz foi baleado por um desconhecido que o seguiu na saída do show. O caso está com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP)

Além desta morte, alguns assaltos aconteceram ao longo da rodovia, junto aos carros que estacionavam ao longo dos acostamentos. Um destes crimes aconteceu por volta da 1h, quando um grupo de amigos chegava para assistir à apresentação. No momento em que eles pararam, quatro rapazes, aparentando ser adolescentes, saíram de um matagal e anunciaram o assalto empunhando revólveres. Uma das vítimas, a jornalista Hivy Rafaela, contou que dois dos menores entraram no carro e passaram a ameaçar o grupo de amigos, exigindo que eles entregassem os pertences. "Eles estavam muito agressivos. A gente não tinha nem 10 minutos da chegada e eles já chegaram empurrando, apontando a arma e pedindo pra entregar bolsa, dinheiro, o que for. Eles ficaram com muita raiva porque outro menino que estava atrás conseguiu dar ré e sair, e acharam que iam chamar a polícia", contou ela.

Enquanto uma dupla ficou no mato, dando cobertura, a outra foi recolhendo dinheiro dos homens e joias das mulheres. A todo tempo eles faziam ameaças e foram deixando as reféns muito nervosas. "Até tinha uma bolsa que estava embaixo do banco do carro, mas estava com tanto medo que eu dizia que não tinha nada e nem me abaixei pra pegar. Eles também nem levaram o celular e jogaram fora a carteira do meu amigo", disse Hivy. A jornalista disse ainda que procurou pela polícia depois que os menores fugiram, mas não havia efetivo no local. "Não tinha nada de polícia na entrada do evento. Foi um outro amigo meu que conseguiu parar uma viatura que passou por ali, mas ninguém foi atrás nem nada. Até falaram pra gente: ‘Quando vocês encontrarem eles, nos avisem’. Como? Vamos ter que entrar no meio do mato? Nos trataram com um descaso muito grande", criticou a vítima, que decidiu não prestar queixa do assalto na delegacia.

Sem efetivo – O Comando da Polícia Militar alegou que o show de reggae foi realizado "por conta e risco" dos próprios produtores. Segundo o tenente-coronel Paulo César Paiva, chefe de relações-públicas da PM, a empresa responsável pelo evento chegou a fazer um pedido de policiamento externo dentro do prazo máximo de 30 dias, mas ele acabou indeferido, isto é, recusado. A justificativa foi a falta de efetivo extra na definição das escalas. A área da Zona de Expansão é coberta pelo 1º Batalhão da PM.

"Na verdade, houve a falta de possibilidade de escalar o policiamento extraordinário, porque as escalas já estavam todas fechadas e definidas. Para atender a esse pedido, que foi feito pela produção de uma festa particular, nós teríamos que retirar policiais do policiamento ordinário da Zona de Expansão. Não há possibilidade fazer isso e prejudicar a população por causa de uma festa privada", justificou Paiva, assegurando que esta resposta foi encaminhada por escrito aos produtores do evento, mas, mesmo assim, eles decidiram manter os shows para a data e a hora marcada.
A reportagem não conseguiu localizar a empresa responsável pelo show, que teve duas bandas nacionais como atrações principais: a Natiruts, de Brasília (DF), e a Vibrações Rasta, de Maceió (AL).

Transtorno – A combinação entre o impasse no policiamento e a realização de grandes eventos na Aruana, principalmente por casas de shows montadas ao longo das praias, reacende a ira dos moradores da Zona de Expansão. Nestes bairros, existem aproximadamente 80 condomínios fechados de médio e alto padrão, além das comunidades nativas de pescadores. Os moradores reclamaram que, assim como no show deste sábado, os frequentadores costumam fechar a Rodovia José Sarney e permanecer na pista com o som dos carros usando volume, consumindo bebidas alcóolicas e, às vezes, drogas. Isso sem contar com a presença de vendedores ambulantes que montam barracas nos acostamentos.

"Toda vez que tem estas festas, começa cedo essa movimentação do pessoal montando as barracas, mas até aí tudo bem. O problema é depois que começa o show, que os caras vão pro meio da pista. Eu sempre procuro passar com educação, devagar, sem acelerar, mas ninguém quer saber. Eles chutam a porta do carro, batem no carro, dão tapa, sobem em cima… como se fosse um atrevimento tentar passar pelo local. Fica impossível passar", reclama o professor e jornalista Luciano Correia, que mora no Mosqueiro e classificou a situação como a de uma "terra sem lei" imposta pelo "fabianismo" (alusão aos eventos de massa produzidos em Aracaju pelo empresário Fabiano Oliveira).

Luciano disse ainda que, mesmo quando há policiamento fora das festas, a pista acaba sendo oficialmente interditada, obrigando os moradores a desviar por um caminho alternativo. "As vezes tenho que sair de casa pra resolver alguns assuntos. E quando a CPRv [Polícia Rodoviária Estadual] está lá e fecha a pista, a gente tem que arrodear pelo Mosqueiro, por outros povoados, até chegar de volta na Sarney. São festas privadas que afrontam a cidadania, impedem o direito de ir e vir e geram todos esses transtornos, com polícia ou sem polícia", criticou o professor, ressalvando não ser contra as festas. "Eu até gosto de uma festa, de uma balada, mas que se faça um controle para garantir o direito dos moradores", completa.

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