* Anderson Bruno
De 27 de março a 09 de abril, foi realizado o ‘III Festival Sergipano de Teatro’ promovido pelo Instituto Banese e Secretaria de Estado da Cultura. Em 14 dias, foram exibidos 22 espetáculos teatrais e 3 circenses. Desse total, 3 peças oriundas de outros estados. Foi uma verdadeira maratona. E nela, deu pra perceber o quanto nosso teatro precisa evoluir. Afinal, um festival desse porte serve não apenas para a apresentação dos espetáculos, mas também para afirmar o teatro sergipano aqui, na nossa terra, como também a nível nacional.
E é aí que o bicho pega. Impossível não comparar nossas peças com as dos outros estados. É perceptível nossa desvantagem. Tudo bem que em Goiás, Ceará e Paraíba deve haver espetáculos ruins, mas seus representantes teatrais, exibidos dentro do nosso festival, não devem fazer parte de tal mazela.
O goiano ‘Plural’, da Cia de Teatro Nu Escuro, foi pura poesia ao misturar elementos audiovisuais com oralidade popular, artimanha usada para contar ‘causos’ de sofrimento e luta de uma mulher e seu cotidiano simples e familiar em tempos nostálgicos de outrora. O cearense ‘Cabaré da Dama’, do Grupo Parque de Teatro, levou ao palco do Tobias Barreto uma inusitada mistura de ‘stand-up comedy’, números musicais performáticos e monólogo visceral do submundo da hipocrisia, narrada por um travesti em sua experiência de vida. Na verdade um diálogo onde a outra personagem era invisível. Tudo muito trash, no bom sentido do adjetivo.
O paraibano ‘A Flor de Macambira’, do Grupo Ser Tão Teatro, encenou uma história de amor. Os três coadjuvantes cômicos chamavam mais a atenção do que o casal de protagonistas. O trio exaltou com entusiasmo a expressão corporal, o clown e o uso das máscaras na composição de suas personagens. O trabalho cenográfico e de luz também ajudou na composição do corpo cênico. Uma emoção só.
‘A Água Dividida’, do Grupo Raízes Nordestinas, de Poço Redondo, foi o melhor dentre os sergipanos. Uma obra Brechtiana, bem dirigida por Eduardo Montagnari. Os atores não dão nenhum show de interpretação, mas passam ao público toda a personalidade das personagens. A cenografia é simples, com algumas peças de madeira que se transformam em cadeiras ou mesas, adaptadas nas mudanças de atos da peça. O texto é instigante. O público fica preso a ele na curiosidade para saber seu desfecho, enquanto que músicas são cantadas e tocadas ao vivo.
Outra boa surpresa foi a encenação da ‘Paixão de Cristo’ pelo Grupo São Francisco de
Assis. Realizado a céu aberto, ao redor da Igreja dos Capuchinhos, no Bairro América. Com muitos atores e figurantes, o espetáculo de duas horas foi um primor de direção. Num lugar tão grande, e com cenários e atos variados, foi interessante perceber a personificação e profissionalismo dos atores em cena, bem como a parte técnica, principalmente o som. Apenas a iluminação ficou a desejar, deixando alguns momentos do espetáculo na escuridão.
Tivemos bons momentos no festival como a cantora Joésia Ramos e sua rabeca em ‘O amor de Filipe e Maria e a peleja de Zerramo e Lampião’ do Grupo Cordel Rabeca, as detentas do complexo prisional feminino atuando e cantando em ‘O Dia Que os Cadeados se Rebelaram’, do Coletivo Penarte e o infantil ‘Fábrica de Alegria’ do Grupo Brinquedolê. Mas precisamos ir além. Falta criatividade ao nosso teatro. Se continuarmos assim, não iremos passar do arroz com feijão, enquanto que outras praças teatrais Brasil afora completam seus pratos com bife e salada. Mais gostoso, saudável e nutritivo.
* Anderson Bruno é crítico audiovisual


