A escritora Taylane Cruz acaba de lançar um novo volume de contos. O sol dos dias (Penalux)envolve o leitor numa atmosfera quase mágica,erigida a partir de elementos do cotidiano, aprofundando dores e epifanias das personagens.
Na apresentação do livro, a professora Maruze Reis chama atenção para a delicadeza enganosa da autora.
"Taylane, com sua escrita solar, é capaz de jogar luz sobre assuntos delicados e doloridos de uma forma a torná-los contundentes, menos pelo punhal que fere e mais pelo amor que habita em todas as coisas."
Jornal do Dia – Foi uma deci são fácil, viver de Literatura em Sergipe? Quais as implicações do ofício, em termos práticos? Como Taylane paga os boletos?
Taylane Cruz – Tenho dito muito que sou afortunada por poder viver de literatura. Vivo e sobrevivo de produção literária. Não da venda de livros, mas tudo que faço orbita o universo das palavras. Comecei a escrever muito cedo e, quando lancei meu primeiro livro, compreendi o quão difícil seria. Desde o começo, eu soube que a literatura seria a minha guerra, o lugar onde meu coração defenderia as coisas em que acredito. O cenário é difícil, não há mercado literário em Sergipe. Há muita produção, mas mercado é outra coisa. Não temos ainda uma compreensão real do poder simbólico da literatura. Somos muito precários neste sentido. Aracaju, por exemplo, uma capital, não tem sequer uma feira literária. Isso é uma lacuna muito grave. Mas estou me atendo aqui a mercado. Produção literária nós temos… e disso eu poderia falar por horas com muito entusiasmo.
Trabalho muito, sou professora de escrita criativa na Valdice Teles, dou oficinas de escrita criativa em turmas particulares, dou palestras, tenho sido convidada para circuitos e encontros literários em muitos lugares. Tudo isso paga os meus boletos.
JD – A voz feminina e negra está emergindo com força, sob o manto dos movimentos identitários. Isso contamina o seu trabalho de alguma forma?
Taylane – Eu acredito que a literatura tem como matéria-prima a vida. Quando escrevo, uso a massa do cotidiano para moldar minhas histórias, minhas personagens. Não rejeito nada, pois as palavras querem tudo, elas não selecionam, elas devoram, deglutem o que veem pela frente. Como autora, sim, seleciono meus temas, as palavras exatas que desejo usar… mas no sentido de uma escrita que bebe na fonte da vida, na fonte humana…tudo contamina minha escrita. Sinto que ter me envolvido na militância de mulheres negras, e aqui me refiro ao meu engajamento na defesa da poesia e prosa de autoras negras, me deu outro referencial, me levou a outras bifurcações, outros destinos de linguagem. Sempre li muito, sou alguém que tem verdadeiro tesão por palavras, por livros. Mas tive uma formação literária limitada em muitos sentidos. Só depois de adulta é que li avidamente autoras negras, por exemplo, e essas leituras me mostraram que havia uma lacuna em mim, uma lacuna estética, de linguagem, de conhecimento mesmo. Para uma escritora tais lacunas são perigosas, mas fazem parte, pois apontam novos caminhos. Não tenho medo de deixar as palavras serem contaminadas pelo que quer que seja, desde que essa matéria contribua para ampliar as minhas possibilidades narrativas.
JD – Como você enxerga a atuação das Academias de Letras locais? Em sua opinião, há espaço para a produção literária sob o teto pomposo destas casas?
Taylane – Defendo a literatura do cotidiano, uma literatura que está nas feiras, nos botecos, nos mercados, no chão, no fundo de um copo de cachaça ou numa caneca de café na barraquinha do mercado. Explico: acredito na vocação vagabunda das palavras (vagabunda aqui no sentido de algo em movimento). Elas são andarilhas, bêbadas, alegres, violentas, tortuosas, desastradas, perigosas. Compõem a vida e dão ritmo aos nossos dias como melodias, como as canções de Cartola (que eu amo!). Rejeito uma literatura elitizada, que finja ser algo que ela não é. Meu sonho é que a literatura fosse como pão à mesa de todo brasileiro. Mas isto é coisa de uma escritora otimista. Eu sonho com o dia em que possamos falar sem coquetismo sobre a literatura, falar sobre livros na fila do supermercado, na fila do pão.
Sabemos que historicamente as academias têm códigos diferentes nesse sentido. Eu não faço parte de nenhuma academia e por isso não gostaria de ser indelicada fazendo apontamentos que soem ressentidos ou imprudentes. Mas talvez eu possa opinar sem receio numa coisa: as academias ainda estão muito distantes do cerne, no sentido visceral desse contato da literatura com as pessoas e os lugares aonde os livros sequer chegam. Já frequentei alguns espaços assim, fui até uma reunião de uma academia para a qual fui convidada (e não aceitei) e pouco se falou em paixão, pouco se falou nos delírios do verbo. Lembro-me de estar lá, sentada, com todas aquelas pessoas e quando eu falava era como falar em sexo dentro igreja, sabe? Até dou risada quando lembro da ocasião. Porque foi como se ali, naquele lugar tão sério, formal, a literatura fosse pecaminosa. Foi engraçado e triste. Eu lá falando do tesão das palavras, de como elas nascem molhadas desde a era de Shakespeare, e aqueles senhores e senhoras me olhando gélidos. Senti uma formalidade elitista. E como falei, eu rejeito a elitização da literatura. Mas não sei se todas são assim. Falo de minha experiência.
JD – Você foi parecerista integrante da Comissão de Literatura convocada pela Funcaju, a fim de dar um destino adequado para os recursos disponibilizados pela Lei Aldir Blanc. O concurso oferece um panorama razoável da produção literária Serigy? Nós temos potencial para fazer Literatura da boa?
Taylane – Sempre tivemos. Eu faço questão de citar Iara Vieira, Antônio Carlos Viana, Alina Paim, Francisco Dantas. Porque, por mais críticas que possam haver, esses são alguns dos nomes que, antes da minha geração, já registraram na memória literária de Sergipe essa grandeza, essa força criativa. Se estendermos a ponte até a minha geração, vamos perceber que há uma pulsão criadora intensa, há muita gente boa escrevendo, publicando, tentando viver e sobreviver deste ofício que, às vezes, pode ser ingrato. Mas uma vez que você diz sim às palavras, elas determinam o curso do seu destino. São as palavras, com sua violência e seu poder, que nos fazem continuar, produzir. Mas como eu disse mais acima, não temos mercado literário e isso vulnerabiliza muito nossos artistas. Precisamos de formação, e formação inclui políticas públicas, editais, acesso aos meios de publicação, a possibilidade de se aprimorar, de fazer viagens representando nosso estado, por exemplo. Uma literatura não se faz apenas com a produção, é preciso a consciência profunda daqueles que nos governam de que o Estado é responsável por essa produção. Não é uma questão pequena. É preciso ter ambição de construir um terreno simbólico, um imaginário calcado na poética, no universo narrativo. Isso, digo com tristeza, por aqui não construímos ainda. Mas é algo estrutural. Vem de cima. Não adianta muito termos uma produção de primeira linha, como temos, se quem determina os rumos do dinheiro não compreenderem isso. Literatura é mercado, isto é outro assunto do qual eu poderia falar, pois reflito muito. Detesto a romantização da figura do artista que sobrevive apesar de… Mas aí é outro assunto.
JD – Se você quisesse recomendar a Literatura de Taylane Cruz, como o faria? Há uma poética perceptível no conjunto de seu trabalho?
Taylane – Sou uma escritora que tem como paixão o coração humano, esse lugar de miséria e beleza, de pérolas e espinhos. Desde pequena, me fascinam a ternura, o afeto, a violência e o horror de que somos capazes. Em tudo que escrevo procuro entrar com meu bisturi nas veias desse lugar. A literatura me ensina a investigar, refazer, reparar o coração humano, fazer sua anamnese, e descobrir sem susto: todo coração possui uma brecha, o difícil é encontrar. Se há uma marca na minha escrita, talvez seja essa busca. Falam muito da minha delicadeza… e faço questão de ressaltar: eu uso a delicadeza como um trunfo, minha delicadeza não é inocente, ela é conspurcada. Sempre alerto: posso ser extremamente delicada, mas também posso lhe enfiar uma faca com uma frieza mortal (literariamente falando rsrs). A minha delicadeza não exclui a minha própria violência.

